Ricardo Oliveira, 33 anos, filho de peixe que sabe nadar ou, neste caso, cantar. O sonho de uma carreira musical levou-o a tentar a sorte no programa Ídolos, em 2003. Na altura atingiu o segundo lugar, gravou um álbum, mas a falta de sorte fê-lo cair em esquecimento. “Apesar de tudo sei que nunca me achei o melhor e fiquei à espera de resultados. Sempre preferi trabalhar muito para alcançar esses mesmos resultados”. Dez anos depois, surge com o álbum O Vento Mudou, fruto da participação no programa da RTP1 A Voz de Portugal. A vida, o homem e a, até agora, curta carreira. Tudo em treze perguntas.

EF: Ricardo, antes de mais, parabéns pelo lançamento deste álbum e pelo desempenho no concurso levado a cabo pela RTP1. Agora que tudo mudou para ti e pudeste gravar este disco, entremos em pormenores. Como correu o processo de estúdio deste teu novo álbum?

RO: Estive em estúdio cerca de três semanas. Tive muita facilidade em gravar visto que conhecia bem os temas, são muito conhecidos do domínio geral. No entanto, o facto de termos apostado em versões um pouco diferentes dos originais acabou por trazer algumas dificuldades de adaptação. No fundo não é fácil cantar temas de gente com o nome tão vincado na cena musical portuguesa e, sobretudo, com personalidades tão fortes, como aconteceu. Mas foi um processo fabuloso e que adorei.

EF: Qual foi a tua reacção quando olhaste para o produto final?

RO: (Risos) A minha reacção foi de muita alegria. Basicamente senti que tinha feito algo com que me identifico muito e, que embora não tenha composições minhas, é um primeiro álbum que me vai trazer muita força. É um álbum com grandes músicas, e quando pego nele sinto que aquilo sou eu a cantar as grandes músicas portuguesas, o que para mim é tudo!

Agora já o vejo mais como um filho. No carro não o coloco ao lado dos outros cd’s, pois ora vai no banco ao meu lado ou na minha mala, porque realmente o sentimento que tenho por ele é enorme. É também uma grande responsabilidade tê-lo no mercado, visto que trabalhei com a Universal e com a BLIM, e por isso já sinto outro peso.

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EF: Porquê um álbum de versões? A escolha foi tua ou foi pensada pela editora?

RO: Na última gala da Voz de Portugal, a Universal falou comigo mesmo em cima do palco, isto no momento em que percebi que tinha ficado de novo em segundo lugar num programa de televisão. Na época apresentaram-me a proposta de gravar um álbum com eles, no qual eu iria fazer versões de temas dos anos 60 e 70 da música portuguesa, numa vertente muito mais Bublé, mais Sinatra, mais Brodway. Eu aceitei logo de cabeça! (Sorriu).

A proposta era interessante, não só por serem temas que toda a gente conhece mas também porque são temas que merecem voltar à tona e passar nas rádios nacionais, com um outro olhar. No fundo nós tivemos e temos bons cantores, boas músicas e excelentes letras, que merecem esta lufada de ar fresco. Foi assim que a proposta me soou no primeiro momento.

EF: Achas que o facto destes temas já serem do domínio público vai ajudar a divulgação do teu trabalho?

RO: Sinceramente acho que vai ajudar porque, como dizia há pouco, estes temas são muito conhecidos e a maioria das pessoas conseguem rever-se neles. O único senão poderá ser a forma como eu transmito estas mensagens, que não é de todo igual nem comparável à forma  como, por exemplo, o senhor Paulo de Carvalho o fazia. É por isso complicado para mim, enquanto artista mais novo, tentar criar o mesmo sentimento que eles transmitem ao cantar as suas músicas. Se eu conseguir mostrar a mensagem por detrás da canção, então eu vou conseguir agradar às pessoas.

EF: Os teus país sempre estiveram ligados à música. Achas que isso te ajudou?

RO: Sim, a minha mãe era cantora de fado e aos 10 anos foi vocalista da orquestra típica escalabitana, uma orquestra muito conhecida na zona do Ribatejo  O meu pai começou a cantar também muito novo: no Ultramar teve uma banda, durante a guerra, e quando voltou começou a fazer casamentos e festas com uma outra banda dele. Aliás, foi justamente nessa banda onde eu comecei a dar os meus primeiros passos. Lá tocávamos um pouco de tudo. É por isso que eu ainda hoje consigo ouvir desde Marante até Pink Floyd ou até mesmo Korn.

EF: Este é já o teu segundo álbum. Certo?

RO: Sim, na época que saí dos Ídolos assinei com a BMG, mas as coisas não correram bem. Costumo dizer que pertence ao passado. Gravei temas originais, mas o material não tinha nem metade da qualidade que hoje o meu álbum tem e a promoção não chegou a ser feita da melhor forma. O que separa os dois álbuns, como se tratasse do dia e da noite, é o facto deste ter sido todo gravado com instrumentos reais.

Não houve um apoio, mas também não foi na melhor altura, visto que eu ainda estava muito verde e talvez as coisas não tenham corrido bem muito por isso. Apesar de tudo, sei que nunca me achei o melhor e fiquei à espera de resultados. Sempre preferi trabalhar muito para alcançar esses mesmos resultados.

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EF: Entre a edição de 2003 do programa Ídolos e 2012, ano em que entras no Voz de Portugal, como viveste a tua vida?

RO: Durante esse tempo voltei a trabalhar no que sempre fiz. Desde os 8 anos que toco em casamentos, baptizados e festas populares. Mais tarde, comecei também a tocar em bares. Entretanto, quando o Ídolos acabou deixei de tocar em festas, porque normalmente requisitavam-me um estilo de música com o qual deixei de me identificar.

EF: O chamado ‘pimba’?

RO: Sim, exato. No fundo deixei de o tocar porque nos casamentos e nos bares não conseguia tocar o meu género de temas, então para quê estar a fazer algo com que não me identificava?

Neste momento deixei de fazer esse trabalho e espero nunca mais vir a ter de o fazer. Isto porque espero não vir a ter tempo. Isso sim, seria um bom sinal.

EF: Mas achas que vai ser fácil a nível monetário o facto de não teres outro emprego?

RO: Não, não vai ser nada fácil, mas estou aqui para apostar na minha carreira e é óbvio que ninguém vive do ar, mas alguma coisa há-de se arranjar. De momento o que me ocorre é pensamento positivo de que vou ter espectáculos e as pessoas vão gostar do meu trabalho.

EF: E o Vento Mudou vai segurar “o teu barco” durante muito tempo?

RO: Espero sinceramente que sim, pelo menos até para o ano, no qual vou lançar o meu álbum de originais. Trabalho esse que ainda não está a ser trabalhado mas que já está apalavrado.

EF: Mas pensas manter este estilo?

RO: Sim, certamente. Este é um estilo que, se repararmos, não existe em Portugal, ou praticamente não existe. E acho que é por aí que eu posso começar a construir uma carreira sólida no nosso país. Esta vai ser uma forma de mostrar que sou um cantor clássico, considero-me um cantor clássico pelo meu passado, por tudo aquilo que eu realmente vivi.

EF: Para quando uma tour?

RO: Para já, vai haver uma apresentação na Fnac do Colombo, a meio do mês de Março, na qual vou ter a participação de três amigos, bastante conhecidos do grande público e cujos nomes não posso revelar. (Risos)

Neste momento estou mais focado na promoção do disco e não tanto nessa questão das datas que virão. Sei que já há pessoas da editora a tratar desse assunto, mas ainda não tenho datas palpáveis que possa apresentar. 

EF: Ricardo, para fechar: Por que é que escolheste o tema O Vento Mudou para dar nome ao disco?

RO: Escolhi esse nome porque na realidade foi o que aconteceu. Eles na editora perceberam que essa podia ser uma alternativa, visto que o vento mudou para mim e eu aceitei prontamente. No fim do Ídolos e do primeiro álbum não ter dado certo, o vento mudou. Afinal de contas estou com uma das melhores editoras a nível mundial, uma multinacional, e quem gravou o meu álbum foi só um dos melhores produtores a nível nacional, que entre outros músicos tem vindo a acompanhar a Aurea. Acho que mais não posso dizer, o vento mudou é um título que é como a cereja no topo do bolo.

*Por opção do autor, este artigo foi escrito ao abrigo do Acordo Ortográfico de 1945