Juntar uma das nomeadas ao Oscar de Melhor Atriz deste ano, Jessica Chastain, e o produtor Guillermo Del Toro na mesma receita para elaboração de um filme de terror tinha tudo para dar certo e Mamã é o fabuloso resultado final apresentado agora ao público. Esta mistura de horror, escuridão e amor materno estreou na passada sexta-feira no Fantasporto e chega na próxima quinta-feira às salas de cinema portuguesas.

Apresentado como um conto de fadas no genérico, Mamã dá a conhecer a história das meninas Victoria e Lilly. Raptadas e colocadas numa cabana pelo próprio pai, depois de este ter assassinado os sócios e a mulher, acabam por ficar sozinhas no meio da floresta e sobrevivem durante cinco anos. Acabam por ser encontradas por um grupo de resgate contratado pelo tio Lucas (Nikolaj Coster-Waldau), irmão gémeo do pai das meninas, e apresentam sérias falhas no comportamento. Agem como selvagens, mal falam e chamam unicamente uma mulher imaginária pelo nome de Mamã.

Acabam por ser levadas para a nova casa do tio e da namorada Annabel (Jessica Chastain) sob a condição de serem visitadas e estudadas pelo psiquiatra Gerald Dreyfuss (Daniel Kash) de forma a melhorarem o comportamento e as capacidades cognitivas. À medida que as meninas continuam a falar da Mamã, Annabel começa a ouvir uma terceira voz ao pé das sobrinhas e as investigações do médico começam a levá-lo até à verdadeira história da imaginária mulher.

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Não há imagens terroríficas que façam o espetador saltar e assustar-se demasiadas vezes na cadeira. Unicamente alguns segundos com banda sonora bem escolhida, de Fernando Velázquez, e momentos-chave para o aparecimento da Mamã às meninas. No meio de imagens negras e de escuridão, associado à cabana onde as crianças sobrevivem inicialmente, os sentimentos maternos são colocados à prova sob a forma da personagem de Jessica Chastain e da Mamã, chamada tantas vezes por Victoria e Lilly. Seria capaz de cuidar de crianças desenvolvidas de uma forma selvagem? É uma das perguntas que tantas vezes surge no espetador. Mamã, apesar de estar envolvido num ambiente de terror, acaba por dar um novo ângulo ao amor materno, especialmente às raízes.

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Chastain, considerada pelo crítico Richard Roeper no Chicago Tribune como “uma das melhores atrizes da sua geração”, merece realmente o elogio. Vemos uma Annabel completamente deslocada e com falta de preparação para cuidar de duas raparigas nas condições deploráveis em que as sobrinhas se encontram. No início da história temos uma uma guitarrista de música rock, com cabelos pretos, tatuagem no braço e roupas de tons escuros e simplistas, que não demonstra amor pela nova vida. Mas a personagem acaba por sofrer uma transformação ao ver o perigo a rondar a casa. Annabel adquire afeição por Victoria e Lilly à medida que os minutos de filme passam e é delicioso ver a arte que só os bons atores conseguem fazer com uma personagem.  

Megan Charpentier e Isabelle Nélisse merecem também uma vénia pelo desempenho neste filme. Vemos uma Victoria, com cerca de dez anos, perturbada pela presença constante do monstro na nova casa e uma Lilly completamente selvagem, com hábitos animalescos como trepar às árvores, comer tudo o que apanha ou dormir no chão, a tentar adaptar-se à nova vida dentro dos padrões da sociedade. Todas as personagens são fundamentais para o desenrolar da narrativa, para a descoberta da história da chamada Mamã.

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Apesar de todos os aspetos negros à volta do enredo, é apresentado um novo conceito de beleza ao público, em que o fundamental é olhar para as sensações e para as imagens de forma suave, ao invés de estar propriamente a saltar e a mexer-se na cadeira. Borboletas negras aparecem ao longo de todo o filme e são de grande importância para tudo o que aí virá. As mortes são esperadas, são suaves para o olhar do espetador.

Mamã é um dos melhores filmes de terror dos últimos tempos. Com uma forte aposta na história terrorífica e dramática, assim como no bom elenco escolhido, promete encantar o público apesar dos arrepios que pode provocar em alguns momentos. Nunca um contraste de horror e humanismo foi tão bem elaborado.

8/10

Ficha Técnica:

Título Original: Mama

Realizador: Andres Muschietti

Argumento: Neil CrossAndres Muschietti Barbara Muschietti baseado no livro de Mamá de Andres Muschietti

Elenco: Jessica Chastain, Nikolaj Coster-Waldau, Megan Charpentier, Isabelle Nélisse e Daniel Kash

Género: Terror

Duração: 100 minutos