Pouco passava das 21h30 quando David Fonseca surgiu em palco, perante um Coliseu dos Recreios praticamente cheio e já emocionado, mesmo antes de o ouvir cantar. Seasons – Rising : Falling serviu de pretexto para dez anos de carreira comprimidos em duas horas e meia de concerto, numa viagem por canções que todos sabemos de cor. Os corações bateram em uníssono em Lisboa. Não podíamos querer mais nada.

Under the Willow abre o concerto, numa agradável noite de sábado na capital portuguesa. Uma bola de espelhos olha-nos do cimo do palco enquanto David Fonseca começa a eletrificar o Coliseu com a sua energia toda. Aquecemos com Armageddon, mas é com o regresso a Our Hearts Will Beat As One e A Cry 4 Love que começamos a entrar no espírito.

O músico pergunta “Como estão todos?” e diz que pretende “correr um pouco de tudo” neste concerto, introduzindo uma das suas favoritas de sempre, Who Are U. É o primeiro grande momento da noite, com as vozes do público unidas sob um céu estrelado, o que volta a acontecer logo de seguida com o uníssono de Someone That Cannot Love. Um retorno mágico a duas das suas primeiras canções que não podia deixar indiferentes os fãs presentes no Coliseu.

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Intercalando temas mais recentes, como It Means I Love You, com clássicos como Silent Void, senta-se ao piano para nos contar histórias, num momento, e noutro está já a sair do palco para tocar um solo de guitarra elétrica mais perto da plateia. Faz umas gracinhas, usa o seu humor aguçado. “A maior parte do tempo estamos só a tentar escapar à realidade”, diz sobre ser músico, antes de entrar no caminho obscuro de Beating Of The Drums.

Kiss Me, Oh Kiss Me é outro dos pontos altos de uma noite que ainda estava bem longe do fim. Sim, o amor é um tema transversal às letras e músicas do nosso David Boy, mas esta tem um sabor especial. Apetece mandar-lhe beijinhos para cima do palco e dar-lhe todos os nossos corações. Há quem o tenha feito. A maioria, contudo, mostrou o seu apoio através da sincronização das palmas, que em All That I Wanted se transforma numa onda calma e romântica de vozes sussurrantes. “Para todos os que estão aqui e têm um coração secreto”, diz ele. Como um segredo bem guardado.

Esperavam-se surpresas, claro. Luísa Sobral surge numa das bolas presentes no palco, numa “ligação à casa” especial para o dueto It Shall Pass, mas acaba por aparecer efetivamente em palco a meio da canção, para delírio geral. Sempre bonita, encanta com esta balada e oferece o seu single de estreia, Not There Yet, a David Fonseca, que a torna um country-jazz com banjo e harmónica. Uma grande versão em dueto que espero que alguém tenha registado para a posteridade.

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Entretanto o cenário vai mudando. De um universo com planetas e estrelas para uma reprodução mais ou menos fiel do local de ensaios, mais intimista e acolhedora, e mais tarde para um mundo imaginado de balões e sonhos e cores. David vai inserindo no alinhamento pedaços de músicas de grandes nomes, que conhecemos e cantamos, como We Are Young, dos Fun, ou Heroes, de David Bowie, ou ainda Hurt, dos Nine Inch Nails, que interpreta à sua maneira na totalidade.

O primeiro adeus ao concerto é dado de forma eletrizante, com The Raging Light, um coro em Stop 4 a Minute e particularmente com o delírio de Superstars II, que nem sequer fez questão de introduzir. É após uma passagem do músico pela plateia e pelo balcão lateral que a longa espera pelo encore consegue ser suportada, regressando de pijama e sentado ao piano com músicas do novo álbum.

Para além de entertainer nato, apostando largamente na componente performativa do seu espetáculo, David Fonseca é também um contador de histórias. Fala-nos de como lhe ligam a meio da noite a recitar a lista telefónica ou a dizer apenas “I Just Called To Say I Love You”. Interage com o público, que lhe responde, berra e sussurra “amo-te” e outras coisas bonitas. Canta em micros que caem do teto, faz caras estranhas, fala ao telefone enquanto canta e usa uma lanterna para adornar a sua atuação. Mais do que um concerto, assistimos a uma verdadeira performance. Incluindo confettis.

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E a bela Feels Like Something prepara o terreno para a cover de Lithium, dos Nirvana, que os fãs elegeram para David Fonseca cantar nesta noite mágica. Com o apoio do público e uma camisa de flanela, dedica a versão ao próprio Kurt Cobain, que certamente gostaria de a ter ouvido. Agradece aos fãs pelos últimos dez anos de canções a solo, depois do início de carreira musical com os Silence 4, e só apetece agradecer-lhe a ele por um concerto que não queremos que acabe. The 80s prolonga esse sentimento, esta alienação do mundo real, recriando um imaginário disco que tanto nos faz dançar.

Mas o fim está próximo. “Agora é o momento em que canto sozinho em palco”, afirma. U Know Who I Am ouve-se na sua voz e nas das centenas de pessoas que não o deixam estar verdadeiramente sozinho no palco. Como um concerto destes não pode terminar com uma balada, David Fonseca brinda-nos com uma What Life Is For poderosa, forte, depois de a ter tocado a meio do concerto numa versão mais calma e quase acústica. Oferece balões à plateia e até ao esvaziar da sala a luta por um dos balões coloridos não termina. Todos queremos um.

Fica para a memória uma noite de recordações, onde faltaram apenas canções como Dreams in Colour ou Rocket Man. Quase duas horas e meia de muita adrenalina, encantamento e entusiasmo, passando por cinco álbuns e mais de vinte canções. Podemos não saber “what life is for”, mas ao menos que sirva para vivermos pequenos grandes momentos como estes. Obrigada, David. És uma superestrela.

Fotografias: Beatriz Nunes | Espalha-Factos

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