Após uma ausência relativamente prolongada a minha crónica semanal está de volta ao Espalha-Factos. Irei dedicar esta semana e a próxima à análise de uma estatística do ACEPI/Nestsonda, empresa que opera na área dos estudos de mercado do digital em Portugal, relativa ao primeiro trimestre de 2012. Nesta primeira crónica vou rever a estatística e analisar os seus resultados, tentar compreender quais as tendências para o mercado digital, a sua evolução e a sua aplicação no meio livreiro. Por outras palavras: parece-me crucial analisar se a revolução tecnológica que está a marcar os nossos dias está também a afetar o mercado livreiro e de que maneira o está a fazer.

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O estudo em questão revelou que 57% dos sites inquiridos afirmou ter aumentado o volume de vendas face ao período homólogo do ano anterior e 27% afirma mesmo ter crescido acima dos dois dígitos percentuais. 65% dos sites inquiridos referiu que o número de clientes que efetua compras no seu site cresceu. Este crescimento impressionante torna-se possível pois 80% dos sites aumentou ou manteve o seu investimento neste primeiro trimestre do ano, gerando uma expetativa de aumento do volume de vendas no trimestre seguinte em 43% dos sites inquiridos. Para além de todos estes números, o estudo revela ainda que as principais categorias de produtos e serviços transacionados neste período foram Livros/Revistas e Casa/Arte/Decoração.

São dados muito animadores e perspetivas de vendas bastante positivas para um setor que precisa urgentemente de uma reestruturação. Ainda é cedo para afirmar tal coisa, pois a resistência do público e editoras portuguesas ainda é muito elevada quanto às novas tecnologias, mas a expansão do comércio digital pode muito bem vir a ser a peça-chave que faltava na questão da distribuição livreira, claramente o calcanhar-de-aquiles do setor. Não é novidade nenhuma que a sociedade está a mudar, a evoluir, especialmente no que diz respeito às novas tecnologias e à forma como elas nos permitem relacionarmo-nos com o mundo que nos rodeia. Também a abordagem ao livro e ao conhecimento está a mudar, com a introdução de novos suportes e novas técnicas de construção de livros. Esta tendência será também, certamente, um ponto a ter em consideração nesta evolução da forma de criar e vender livros. Novos formatos, novos canais de vendas, novos públicos, um novo alcance totalmente diferente do que aquele que ainda conhecemos.

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boom tecnológico que se adivinha no setor livreiro criará uma clara necessidade de reestruturação do modo de conceber os negócios nesta área.

As editoras terão de repensar a sua forma de abordagem ao público e a forma como transmitem a sua mensagem aos consumidores. Será muito diferente uma comunicação virtual praticamente direta com o público de uma comunicação que é praticamente delegada nos livrarias.

Os livreiros terão também de reformular os seus modelos de negócio sob a pena de desaparecerem. Claro que o canal virtual nunca irá substituir as funções das livrarias mas a redireção do público para a internet irá retirar volume de negócio a estabelecimentos que já hoje em dia reclamam dificuldades. Caso não reformulem a sua abordagem ao meio e não diferenciem a sua oferta a nível de serviços ou até de produtos, estão condenados à falência ou a sérias dificuldades financeiras.

No entanto, penso que a grande alteração se verificará na distribuição de livros. Para empresas que nunca funcionaram de maneira correta e sustentável, será uma excelente oportunidade para repensarem os seus serviços. A tendência está claramente a evoluir na distribuição porta-a-porta, ou seja, na ponte entre as editoras e os consumidores. Mesmo que o número de transações dos intermediários (livrarias) não diminua, a entrega direta ao consumidor irá certamente aumentar.

Não obstante todas estas previsões maravilhosas e animadoras, não nos podemos esquecer que para elas se concretizarem é necessário atuar e implementar efetivamente as mudanças. Em Portugal, apesar de haver um paradigma em mudança, este mercado é ainda muito conservador e tradicionalista. Tem medo de investir e arriscar. E aqui o problema não vem só das editoras. Livreiros pouco especializados e nada pró-ativos e uma massa consumidora que tem uma procura pela inovação muito modesta são também dificuldades que colocam entraves à modernização do livro. É claro que, mais uma vez, a minha opinião é muito clara e simples: o consumidor que está habituado a consumir um livro de uma determinada maneira ou um livreiro que toda a sua vida vendeu da forma tradicional não vão mudar a sua perspetiva e forma de se comportar se não houver um input forte e consolidado por parte dos responsáveis últimos pelo livro, as editoras. Por outras palavras, se não houver uma aposta credível nas novas tecnologias aplicadas ao livro como os ebooks, os audiobooks, as plataformas de opinião online, as lojas virtuais, entre outros, os consumidores poderão nunca sentir a vontade de diferenciar a sua procura. Um consumidor com um orçamento limitado prefere quase sempre um produto ou serviço que já conhece e no qual sabe que pode confiar.

Por último, é de sublinhar que o ponto a que queria chegar nesta crónica é a chamada de atenção para a tendência de alteração no comportamento dos consumidores face ao livro que começa agora a informatizar-se e a seguir as tendências modernas de distribuição. É fundamental reconhecer que as presentes alterações são apenas o início de um longo processo e não a chegada a algum ponto definitivo.