Amok tem em português a tradução literal, como substantivo masculino, de amoque, um “acesso de loucura furiosa ou homicida”. Na génese do vocábulo significa “tornar-se violento como se possuído por um demónio”. Melodicamente, Amok é tudo menos violento. Liricamente, Thom Yorke expurga os pecados do costume, que o comem por dentro, os parasitas que ele deixou entrar porque “the will is strong, but the flesh is weak”. A ilustração do álbum espera por um dilúvio que varrerá a imundície da face da Terra, como nos diz a canção mais Amok do The Eraser: “and it rained all night, it washed the filth away”.

Temos a confirmação que metade do The King of Limbs foi uma contracurva naquilo que Yorke consegui em The Eraser e que a outra metade foi a presságio deste Amok. Canções como Default, Judge Jury and Executioner (uma linha de guitarra!) ou Unless caem nas malhas do último disco dos Radiohead, muito por omissão das particularidades que fazem este disco e pelas batidas que ficam fora do metrónomo.

Before Your Very Eyes…, primeira faixa, e Stuck Together In Pieces servem para sabermos quem está atrás dos falsetes distópicos de Yorke: o groove e o ritmo pulsante de um afrobeat revisitado têm mão do Flea, o baixista encalorado dos Red Hot Chili Peppers, que aqui consegue controlar o polegar (talvez de mais) e não começar às chapadas nas cordas, e do percussionista brasileiro Mauro Refosco, que vai dar, aqui e ali, um sabor a repique de sambódromo. A juntar as peças e a meter ordem na equipa estão Nigel Godrich e Joey Waronker, nos sintetizadores e na bateria, respectivamente.

Regra geral, é um álbum que peca pela timidez. Em Default e Ingenue (com aquela deliciosa introdução à Kid A) ainda conseguimos sentir que qualquer coisa em que Yorke toque já não pode sair mal, é verdade, mas a banda fecha-se num copiar/colar de ritmos que tornam Amok um álbum sem referências maiores, ou tão grandes quanto seria de esperar. Arrasta-se, à espera de drops ou ganchos que nunca chegam, até Dropped, a única canção que consegue juntar a totalidade dos esforços de todos os membros da banda e só por isso vale quase um álbum inteiro. “I don’t want to start”, canta Yorke. É difícil desfrutar corporalmente de um álbum quando ele carrega uma aura tão abúlica a nível lírico. Porém, podemos contornar isso se pensarmos que foram cinco gajos a fazer música porque fazer música é divertido e que se deixarmos essa mania de ler figuras de estilo e segundas intenções em tudo o que é canção até conseguimos tirar daqui um óptimo disco, porque, ao contrário do que as palavras contam, este é o álbum mais dançável que já saiu das mãos de Thom Yorke.

A homogeneidade não é um defeito. Desafio-vos a ouvir este álbum sem o acompanhar com os dedos. O banho hipnótico de batidas e sintetizadores em modo 8-bit faz cócegas na parte de dentro do crânio, a voz e a poesia de Yorke não se viam tão nítidas desde a Last Flowers to the Hospital, a transfiguração melódica dada pelos ritmos quentes do californiano e do brasileiro conseguem tornar este álbum algo inédito em qualquer tabela. Apesar de tudo é um álbum que resulta. Notam-se mais as falhas àqueles que as não costumam ter. E se fosse de uma banda praticamente desconhecida seriam poucos os que lhe veriam defeitos.

Nota final: 8/10

*Por opção do autor, este artigo foi escrito ao abrigo do Acordo Ortográfico de 1945