A 85ª edição da gala mais importante de Hollywood já faz parte da história e Argo vence como melhor filme. No entanto esta produção de Ben Affleck não é um vencedor destacado nesta que foi das edições mais renhidas dos Oscars nos últimos anos.

A cerimónia abriu com toda a força com o típico monólogo do apresentador da noite. Este ano a tarefa coube ao comediante Seth Macfarlane que nos trouxe bons momentos logo nos minutos iniciais. A descontracção de Macfarlane foi notória e as suas piadas certeiras, sem recorrer a polémicas fáceis, deram a esta abertura um tom descontraído que fazia em muito lembrar um episódio da famosa série Family Guy. Os fãs mais acérrimos da série de animação podiam até pensar que tínhamos o Brian Griffin a apresentar os Oscars.reg_1024.lev.seth.cm.22413_copy

O apresentador brilhou na abertura, principalmente com um dos momentos mais engraçados da noite, a canção intitulada We saw your boobs onde o humorista ia fazendo uma lista de várias actrizes que tinham mostrado os seios em diversos filmes. Foram momentos cómicos como este que se misturaram com outros mais sérios, como a dança entre a actriz Charlize Theron e Channing Tatum, e que fizeram desta uma das melhores aberturas desde 2008, ano em que Hugh Jackman arrasou com uma canção dedicada aos filmes nomeados dessa edição. No entanto, a prestação de Seth não foi consensual e eu, sinceramente, sinto que a minha opinião também não o é. O tom descontraído e familiar criou uma grande empatia entre o público e o apresentador, mas isto não são os Globos de Ouro, os Oscars pedem, obrigatoriamente, outro registo, um mais formal. Para o final, notou-se bastante a perda de vitalidade de Macfarlane que se ia arrastando pelo meio da cerimónia, ainda assim a anos luz da desgraça que foi James Franco como apresentador, mas acabando com mais um grande momento, numa verdadeira ode aos vencidos da noite, cuja TVI teve o prazer de interromper com os seus sempre bem-vindos comentários do arco-da-velha.

No que toca aos vencedores a noite foi agradável para quase todos os filmes mais nomeados. Nenhum deles saiu do Dolby Theatre completamente derrotado e também nenhum se afirmou como o verdadeiro vencedor da noite. A Vida de Pi foi o que mais se destacou, conquistando quatro galardões. Seguido de perto por Argo e Os Miseráveis com três prémios cada. O grande vencido da noite foi, sem dúvida, Lincoln, o épico de Spielberg que das 12 nomeações ganhou apenas em duas categorias.

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Uma das sensações que é inevitável ter depois de assistir a esta noite de Oscars é a de desconfiança. A Academia não pareceu muito segura de si ao atribuir estes prémios, arrisco-me mesmo a dizer que a contagem final dos vencedores é completamente contraditória às nomeações que a mesma fez. O caso mais flagrante foi o de Argo que nem contou com uma nomeação para realização e que, do nada, apenas com melhor montagem e argumento adaptado, arranca o Oscar de melhor filme da mão de A Vida de Pi que já contava com melhor fotografia, banda-sonora, efeitos visuais e realização. Não que ache que o filme de Ang Lee merecesse o galardão mais importante da noite, longe disso, mas se a Academia não estivesse tão embriagada pelo sucesso criado em volta de Argo nesta Award Season acredito mesmo que seria A Vida de Pi a ganhar a noite.

Por outro lado, algo em que os Oscars são peritos é em criar uma ou duas desilusões aos amantes do cinema um pouco por todo o mundo. Este ano a injustiça chegou até nós em forma de Jennifer Lawrence que, com uma prestação relativamente boa, rouba o Oscar de melhor actriz à colossal performance de Emmanuelle Riva em Amour, que de resto foi um dos vencidos da noite. A surpresa também chegou na categoria de direcção de arte onde Lincoln levou a melhor aos favoritos e verdadeiros merecedores, Os Miseráveis e Anna Karenina. Mas como categoria técnica que é, quase ninguém se preocupa com a tamanha injustiça que a vitória de Lincoln teve aqui, fazendo parecer que a Academia não queria que Spielberg saísse completamente com as mãos a abanar, apenas com o Oscar de melhor actor para consolação. Ang Lee foi também uma das maiores surpresas da noite, mas para mim foi até bastante óbvio. Com Affleck fora da corrida, escolha que a Academia se deve ter arrependido de fazer, o prémio ora caía para Spielberg ou para Ang Lee e nesta altura já se desenhava a clara derrota de Lincoln nesta edição.

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Em termos de entretenimento foi uma noite bem conseguida, as performances levadas a cabo pelos mais variados artistas, desde Catherine Zeta-Jones numa enérgica homenagem a Chicago a Jennifer Hudson com a sua poderosa voz num tema de Dreamgirls, e sem esquecer a épica reunião do elenco de Os Miseráveis em palco com One Day More, todos os momentos musicais foram repletos de talento e qualidade, numa gala que se preocupou muito mais em dar espectáculo que a edição passada com Billy Crystal. Ainda tivemos o número de Adele com Skyfall que criou tanta expectativa junto de meio mundo que a performance acabou por sair boa, mas não espectacular.

Concluindo, foi uma cerimónia que veio provar, uma vez mais, que tivemos um bom ano cinematográfico, havendo uma distribuição quase que igualitária dos Oscars pelos nomeados . Com um conjunto de grandes momentos, a cerimónia contou ainda com Seth Macfarlane que se provou a altura do desafio, dividindo, ainda assim, as opiniões, gerando admiração e ódio, ao mesmo tempo.

*Por opção do autor, este artigo foi escrito segundo as normas do Acordo Ortográfico de 1945.