Os Mono estiveram no Hard Club, Porto, no dia 23 de Fevereiro de 2013 e foi lindo.

O que vos vou relatar são os eventos ocorridos na noite de sábado, na noite em que uma das minhas bandas preferidas (assumo peremptoriamente que esta preferência me toldou a escrita) veio à minha cidade, por via da Amplificasom, e  foi a melhor coisa que me aconteceu desde que perdi a virgindade aos 11 anos.

(E desculpem lá o MONÓlogo que se segue)

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Breve Carta de amor ao Japão:

Eu gosto do Japão por causa do Takashi Miike, que é o meu realizador de cinema preferido de sempre e de todos os tempos (e, por acaso, os Boredoms, que são outra das minhas coisas preferidas do Japão, fazem a banda-sonora do seu Ichi The Killer). Gosto também do Japão por causa da pornografia e, neste ramo, aprecio o trabalho desenvolvido pelo Estúdio Genki que dispensa dildos em detrimento de enguias ou polvos. Gosto muito de sushi e, quando era pequeno, o meu jogador fetiche dos simuladores de gestão futebolística era o Shinji Ono que com mestria e eficácia, aplicava efeito indefensável nos pontapés livre que batia à entrada da área.

Vai daí, Mono só podia ser lindo…

Carta de Amor a Mono:

Dirk Serries é Microphonics e Microphonics foi MONOcromático. Um ser humano, uma guitarra, a cor de um momento/cena sem ninguém para o roubar (filhote, 30 minutitos non-stop). Música estruturada, complexa, nunca exagerada. Um silo-auto hipnótico, qual espiral sonora revestida de escamas. Microphonics concentrou em si e naquele corpo curvado a atenção daquele que chegava para ver Mono e algumas interrogações sobre as funções daqueles pedais surgiram oportunamente. A configuração harmónica que ali ganhava forma culminava num saudável egoísmo musical que saluto. Contudo, Microphonics foi igualmente fechado sobre o seu umbigo, não criando qualquer elo com os curiosos mas, ressalve-se, egoísta não será nunca o adjectivo descritivo da indiferença. Sucintamente, Microphonics é um Oren Ambarchi mais fofinho. Os diversos tons de radiação sonora constituíram uma das agradáveis surpresas da noite. Das menos agradáveis, constam aquele primeiro penalti do Jackson Martinez e o Panike de chocolate do espaço 77 que me chegou às mãos, frio…

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Desatemorizados pelo cíclico comportamento musical de Dirk Serries, Mono foi massivo, abrasivo, algo próximo do divino e por isso, não fácil relatar. Mono são a banda sonora de qualquer cavalgada épica protagonizada por unicórnios em direcção ao estábulo do Olimpo. Mono é música de Deus e, até por isso, é natural que algumas pessoas tenham sentido essa ligação ao lado transcendental da vida e isso. Mono é extravasação em consonância com o comum mortal que os observa e que procura na sua música, fulgor para uma vida regrada. Em meu nome falo…

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Todas as camadas de distorção detectáveis que se aliaram à visceral beleza orquestral (o Holy Ground:Live é o melhor álbum ao vivo que ouvi desde o Swans are Dead) que tinha nos crescendos da, exemplo dado, Ashes In The Snow ou da Burial At Sea, culminaram num êxtase incomparável, como a teatralidade do carismático Taka tão elucidativamente retrata. A música de Mono levanta pertinentes questões metafísicas – A envolvência em que somos embuídos não deixa ninguém neste mundo. Sei lá, procurem por mim no espaço sideral ou assim… Ainda lá devo estar.

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Os Mono iniciaram a viagem com a Legend do ábum For My Parents que entendo como uma ode à melancolia e à monotonia mas que assume contornos de euforia desenfreada a caminha do fim (há quem se queixe desta fórmula interpolada e a detecte na música de Mono mas, para quê desconstruir?). O repertório que sabiamente apresentaram contemplava 3 cantigas do álbum For My Parents, 5  cantigas pedidas do Hymn To the The Immortal Wind e uma do Walking Cloud and Deep Red Sky, Flag Fluttered and the Sun Shined. A sala, assim como eu, estava desligada de tudo. A plateia, era de contrastes – de jovens com hoodies de Earth, adolescentes todas giras que descobriram agora que ser profundo e sentimental é ouvir post-cenas, aos habitués da Amplificasom com as suas nutridas barbas, até a pais de família que são jovens e alternativos e modernos.

No palco, à direita, estava o fixola do Takaakira ‘Taka’ Goto… E convenhamos, é incompreensível como é que a Scarlett Johanson vai a Tóquio e acaba a comer o Bill Murray e não o  ‘Taka’. O que dizer de Takaakira ‘Taka’ Goto?  a) atentem, o cabelo dele não é de emo, porque isso é tão 2007… O saudável couro cabeludo de Taka é um motivo de inveja dos carecas de amanhã e um fotogénico elemento a incluir nos enquadramentos dos fotógrafos que vida tão complicada tiveram nas filas da frente (Vida difícil despoletada pelo povoamento do povo que, ainda assim, se portou muito bem. Louvável foi o silêncio sepulcral e respeitoso entre cada tema. Bravo!)  b) toda a aura que emana faz jus à t-shirt que envergava, do Rei Elvis. Este japonês, de finas pernas e aparência, era a pessoa com mais pinta naquela sala, ponto. Destilou violência e sobriedade, destilou contrastes patentes nas suas representações/encarnações numa teatralidade que não é sequer explicável… quer dizer, se eu fosse um músico talentoso e fizesse música tão bonita, se calhar, também me tornaria um animal de palco, rastejante.

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É penoso elaborar teorias e formulações que expliquem o que foi Mono. Quem testemunhou/vivenciou (e ainda foram alguns porque o a Sala 2 do Hard Club estava lotada e ainda bem… Gastar dinheiro com a Amplificasom é o dinheiro mais bem gasto das nossas vidas, companheiros) decerto que entenderá as minhas palavras e ainda acrescentará experiências pessoais – místicas, não explicáveis pela lógica nem pela ciência mas pela música dos Mono que move montanhas.

Com Mono, e permitam-me a inconfidência de tantos e repetitivos episódios, até uma simples ida à mercearia ganha contornos heróicos, de uma viagem digna da grandiosidade destes.  A magnitude da música destes japoneses constitui o concerto mais incrível do ano, destronando os de Cult of Luna Sigur Rós. O trabalho de uma tal de Amplificasom é notável e por isso, lhes dedico o parágrafo seguinte.

Carta de Amor à Amplificasom:

Como qualquer prezado apreciador de post-cenas, tenho um carinho particular e especial por vós. Dirijo estas linhas e este espaço ao Sr.André Mendes e aos seus competentes muchachos: Muito obrigado por todos os momentos que me proporcionaram! Um agradecimento escrito é redutor e minimiza tudo o que já me permitiram viver, contudo, talvez mereça a vossa atenção e, se isso acontecer, as palavras ganham sentido. Certamente que outros utilizadores dos serviços que prestam, partilham da minha opinião; Vocês são a fábrica da felicidade. 

Pequenas coisas que valem por tanto.