Antonio Tarantino quis mandar Yasser Arafat e Ariel Sharon para o exílio e fazê-los sofrer as piores misérias. E fê-lo em A Paz, texto que se encontra agora em cena no Teatro da Politécnica, em Lisboa, até 2 de março. O motivo de tal vontade? “Não foram capazes de fazer a paz”.

Uma bruxa condena os dois líderes a uma viagem, sem regresso, ao deserto. Mas não sem lhes colocar entraves nesta maldição que sobre eles recaiu: ambos estão interditos de utilizar a água e o fogo. Como vão eles desenrascar-se ao longo do caminho? É este mesmo percurso que acompanha A Paz, focando-se na relação entre os dois protagonistas.

A Paz

Arafat e Sharon são como que condenados a percorrer o caminho da miséria por não terem conseguido pôr cobro ao conflito israelito-palestiniano, exercendo métodos autoritários e antidemocráticos. De inimigos mortais transformam-se em companheiros de viagem e aliados, tentando esquecer o passado que os condena. Desfiam-se episódios de conquistas e conflitos mas também as consequências diretas da falta de paz: a morte, as perdas humanas, o sofrimento.

São eles agora quem procura a paz sem a encontrar. Receosos de sofrer a retaliação daqueles que foram vítimas das suas políticas e escolhas, veem no deserto indicado pela malfadada bruxa uma possível solução.

A Paz

Grande parte de A Paz foca-se na tensão permanente entre Arafat e Sharon ao longo do percurso, em tom de despique com toques de humor constantes. Contudo, a riqueza de um texto tão denso acaba por se perder em cena.

João Pedro Mamede e Pedro Sousa Loureiro conseguem ligar com dificuldade o público à cena e apenas quando se desfiam episódios do passado é fácil captar o que se diz. A interação entre os dois é forte mas não chega a ser suficiente para permitir uma ligação constante ao que se passa no palco.

A dinâmica do texto a isso conduz e mais um exemplo é o monólogo inicial bastante longo, numa sala em black out, que favorece o desprendimento de quem assiste. Jorge Silva Melo cria várias entoações e acentua os momentos chave mas a concentração no que se ouve é uma tarefa quase hercúlea.

A Paz

Com a interpretação de Nuno Pardal sente-se como uma brisa de ar fresco a entrar na sala, rasgando com a conversa a dois dos protagonistas. Alia-se uma nova dinâmica com um contributo marcante na revelação dos intuitos da peça por estas duas personagens: uma prostituta e uma mãe que perdeu filhos no conflito.

Dá-se uma reflexão quase catártica do impacto de um poder que culpa o acaso pelas suas ações e se guia pelas mentiras constantes. Procura-se Deus no meio de uma guerra em que os que lideram se dizem os seus mensageiros. Pensa-se na dor atroz de quem perde os que ama no conflito. Vale tanto a pena assistir a estes dois momentos em que Nuno Pardal entra em cena porque eles são densos, colocam a pensar, mas são, sobretudo, acessíveis e percetíveis no seu intuito.

A Paz

O destaque de A Paz vai para o trabalho soberbo e original ao nível da iluminação num palco praticamente vazio. O escuro é constante mas deixa-se rasgar pela luz proveniente de pequenas lanternas que os atores vão manuseando ao longo da cena. O efeito é de surpresa constante pela forma como as luzes vão incidindo nos corpos e destacando expressões e movimentos. Assistir a esta peça nem que seja só pela novidade do trabalho de iluminação é um bom motivo para se ir ao teatro.

A Paz traz a cena um texto arrojado e provocatório que está lá para se fazer ouvir. Basta ter apenas muita atenção e foco para conseguir apreender aquilo que é dito e descobrir os pequenos ensinamentos que Tarantino vai transmitindo.

A Paz

FOTOGRAFIAS: Andreia Martins