Ang Lee volta ao cinema com um filme que encanta uns e torce o nariz a outros. A vida de Pi deslumbra os espectadores, mas não deixa de ser um dos filmes mais sobrevalorizados de 2012.

A história é centrada na vida de Piscine Patel, um jovem indiano que vive com os pais num jardim zoológico em Pondicherry. No entanto é quando a família decide emigrar para a América do Norte que Pi enfrenta a sua maior aventura de sempre. O cargueiro em que ia a bordo afunda-se no meio do pacífico e o protagonista vê-se num bote salva-vidas acompanhado por uma hiena, um orangotango, uma zebra e um tigre. Rapidamente fica apenas com o tigre, entretanto baptizado de Richard Parker, e acaba por formar uma inesperada relação de sobrevivência com o animal.

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Ang Lee baseou-se no livro de Yann Martel, publicado em 2001, que nos conta a vida de um náufrago a lutar pela sua sobrevivência, semelhante a outras histórias bem conhecidas do público como a de Robinson Crusoe, mas com uma variante muito mais espiritual e simbólica. Muitos diziam impossível transpor as palavras para a tela, mas Ang Lee aceitou o desafio e trouxe-nos A vida de Pi aos cinemas, depois de quatro anos de trabalho.O filme gira todo em volta de uma mensagem, uma moral que sabemos que vamos receber desde os minutos iniciais, mas Lee não nos deixa espaço para reflectir, tira a moral da história por nós e impinge-nos a mesma desde muito cedo.

O argumento força a inclusão de símbolos que invocam a espiritualidade para o meio da narrativa e que, aliás, nunca a abandona. As aventuras de Pi andam de mãos dadas com a espiritualidade e a força da alma humana, quando enfrentada pelas mais diversas adversidades, e tenta-nos forçar a acreditar no fantástico e a ter sempre esperança. Tudo muito bonito de facto, mas quando saímos da sala de cinema nada disto fica na nossa cabeça. Os mais cépticos não ficam convencidos, os mais sensíveis podem sair de lá a verter lágrimas, mas no geral a mensagem de Ang Lee não nos chega aos corações porque está deturpada pela artificialidade técnica da obra e pelo argumento enfadonho e forçado.

Atenção que quando critico o filme por ser demasiado artificial graças às suas peculiaridades técnicas não estou, de maneira nenhuma, a dizer que elas são más. Na verdade estamos perante um dos mais bonitos filmes que se viu na tela em 2012, a fotografia fantástica de Claudio Miranda contribui em muito para fazer do mundo de Pi um mundo fora do normal que, por isso mesmo, se torna demasiadamente artificial e cuidado aos olhos do espectador que assim nunca se deixa compenetrar completamente na história. Ang Lee com a perfeição que demonstra na parte técnica faz com que a história se distancie do espectador. O mais forte elo de ligação que existe entre ele e Pi é, na verdade, a comovente banda sonora de Mychael Danna, essa sim consegue-nos transportar um pouco para a história e apela, de forma eficaz, aos nossos sentimentos

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Suraj Sharma foi o escolhido como protagonista e tinha uma tarefa bastante árdua, a de representar sozinho durante a maior parte do filme. Se uns o acharam fantástico, estando até nomeado para revelação nos Critic’s Choice Awards, outros acharam-no razoável e eu achei-o até um pouco medíocre. A performance do jovem actor não ajudou em nada a melhorar o já fraco argumento, nem criou qualquer empatia com o público, fazendo com que nos desligássemos ainda mais da história. Admito que o que foi dado ao actor como material de trabalho era bastante difícil, mas isso não o desculpa pela sua performance aquém do esperado.

Em suma, A Vida de Pi deslumbra mas não cria qualquer ligação com o espectador. A excessiva perfeição visual de Ang Lee acabou por prejudicar o argumento e o filme não chega até nós com o efeito desejado, nesse aspecto até o próprio  trailer é mais eficaz.

6/10

Ficha Técnica:

Título Original: Life of Pi

Realizador: Ang Lee

Argumento: David Magee baseado no livro de Yann Martel

Elenco: Suraj SharmaIrrfan KhanAdil Hussain

Género: Aventura, Drama

Duração: 127 minutos

*Por opção do autor, este artigo foi escrito segundo as normas do Acordo Ortográfico de 1945.