Os GNR celebraram no passado sábado 33 anos de carreira num concerto emblemático. Três décadas do novo “roque” sob a forma de um set rico em memórias, Afetos e experiências que lhes valeram casa cheia, no mítico Grande Auditório do Centro Cultural de Belém. Em Afectivamente não faltaram convidados, algumas surpresas e a excentricidade de Rui Reininho.

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CCB, 21:40h, um atraso de dez minutos natural para o que se seguiria. Casa cheia em Belém, para assistir a uma das mais consagradas bandas nacionais. Um encontro de gerações, dos 80 aos 8 anos, num cenário familiar, calmo e com o conforto natural de um auditório daquela envergadura. Numa noite “supostamente” pouco electrónica, seguir-se-iam duas horas de concerto e comunhão entre os GNR e outros talentosos músicos do panorama musical português.

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Desde logo Popless, o tema que deu nome ao 9º álbum e que se tornou um dos primeiros êxitos da banda portuense no “novo século”, seguida por Reis do Roque e Vídeo Maria. Depois, o primeiro momento de fusão entre décadas e influências, com a subida a palco dos Beatbombers. A dupla de Dj’s nacional, que se sagrou campeã do mundo de scratch em 2011, aproveitou o convite dos anfitriões da noite para homenagear um dos nomes altos da música portuguesa: Carlos Paredes. O saudoso guitarrista, hoje lembrado através do tema Verdes Anos, num dos momentos mais emotivos da noite.

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A dupla composta por Dj Ride e Stereossauro ainda viria a interagir com os GNR, de forma brilhante e muito ovacionada, nos temas Canil, Las Vegas e Sangue Oculto. No último, Reininho interpretou, em castelhano, o trecho de Javier Andreu e tentou, em jeito de brincadeira, rappar ao som dos Dj’s.

Mas a lista de convidados ir-se-ia alongar, visto que após tocar Asas, a banda chamou Maria Antónia Mendes (Mitó), vocalista  d’A Naifa para “dançar” a deambulante Valsa dos Dectetives e para reconstruir Sete Naves. Dois momentos de interpretação pura, com a sensual voz de Mitó a unir-se ao violino de Khemelik de forma muito generosa e envolvente.

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Já la iam os assobios de Únika e o regresso ao palco dos Beatbombers, quando Reininho, em inglês, anuncia mais uma convidada e retira-se de palco. Era então a vez de Márcia entrar em cena para, acompanhada pelos GNR, tocar o seu maior êxito: Cabra Cega. O público gostou do que viu e esforçou-se para seguir a letra. A cantora manter-se-ia em palco para “declarar” a plenos pulmões Morte ao Sol, desta feita, já com a presença do vocalista dos GNR, num dos picos do concerto.

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Para encerrar com chave d’ouro a lista dos Afetivos convidados, a presença do fadista Camané, que de certa forma usou a sua experiência anterior no pop/rock, para se adaptar ao incontornável Cais e ao forte e sentido Vocês. Uma experiência auditiva muito singular que uniu o melhor da voz do fadista aos arranjos em violino e precursão. Entre temas, a gratificação demonstrada. “Queria agradecer o convite dos GNR para cantar estas músicas. Estou a adorar”. Afirmou Camané.

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Já sem convidados, os êxitos de uma vida foram entoados como se da primeira vez se tratasse. “Têm aqui amigos para a vida”, confessou Rui Reininho. Mas o planeado acústico, seguramente apropriado à sala e ao momento, aconteceu de forma muito diferente, pelo menos para o imparável vocalista, que dançou, fez caretas, ironizou e até “arranhou” alguns ditos japoneses. “Este é o acústico mais crazy que já vi (Risos)”.

Sem folego e com vontade de abandonar as cadeiras para “curtir”, estava a audiência, que completamente rendida cantou : Efectivamente, Pronuncia do Norte e Mais Vale Nunca, em alto e bom som. Já no encore, tempo para alguns apelos ecologistas. “A Márcia pediu para dizer para não foderem o Tua e acabarem com as barragens”. Exclamou Rui Reininho, que aproveitou o momento para deixar o seu apelo pessoal. “Já agora, eu sou contra a incisão do clitóris”. Arrematou o vocalista.

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A fechar este Afectivamente, o maior êxito de sempre da banda portuense. Nas Dunas, os GNR apelaram, uma vez mais, à participação dos cinco convidados e beneficiaram do massivo coro criado, em toda a sala, pelos fãs lisboetas. Cinco acordes que marcam várias gerações de pessoas e que deram àquela noite de Sábado o fim que ela merecia. Mas será que o final deste concerto é afinal um novo começo? A dúvida é pertinente, visto que os anos não parecem ter passado por entre o Grupo Novo Rock.

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Texto: Mário Borges

Fotografias: Bárbara Sequeira