Pouco mais de meia centena de pessoas teve ontem a honra e o prazer de assistir ao encerramento da sexta edição do Festival Rescaldo, com um monumental concerto de Black Bombaim, na Trem Azul Jazz Store. A primeira parte esteve a cabo do noise de Luís Lopes.

O Sporting, clube de Lisboa, jogou ontem contra o Gil Vicente e conseguiu ganhar fora, coisa que não fazia há muito tempo, com jogadores muito novinhos. Mas, em Lisboa, na Trem Azul Jazz Store, seriam os Black Bombaim, barcelences de tenra idade a fazer música de homens de barba rija, a marcar pontos. Muitos.

Co-responsáveis por colocar Barcelos no centro da cena musical portuguesa (e tanto que se tem escrito já sobre isso), a verdade é que estes rapazes de vinte e poucos anos (Ricardo Miranda na guitarra, Paulo “Senra” Gonçalves na bateria e Tojo Rodrigues no baixo),  já são do mundo.

Black Bombaim (1)

Desde que se lançaram em 2009, com o EP homónimo, não têm parado. Começaram os concertos, sobretudo no norte de Portugal e posteriormente no estrangeiro (festivais na Holanda, na Bélgica, em França) e Saturdays & Space Travels (editado no ano seguinte) trouxe-lhes o lançamento oficial. Com Titans, o vinil duplo, lançado em 2012, conquistaram meio mundo e provaram que são das melhores coisas que este país já exportou.

Neste último registo tiveram colaborações de Adolfo Luxúria Canibal (dos Mão Morta, que os Black Bombaim homenageiam na escolha do nome para a sua banda), Noel V. Harmonson (dos Comets on Fire), Steve Mackay (The Stooges), Shela (PAUS), entre outros ilustres nomes nacionais e internacionais.

Ao vivo, o sofisticado stoner rock com pitadas de psicadélico, de garage e de improvisação, resulta em viagens alucinantes (sem drogas, e o vinho verde emborcado ao jantar não conta). A estrutura bem conseguida dos longos temas e as mudanças de ritmo constantes brincam com a nossa cabeça e nunca sabemos quando nos fazem o próximo “mindfuck”.

Black Bombaim (4)

Esta viagem fez-se sobretudo com Titans mas passou ainda por Marraquexe (presente na Coletânea 10 anos Bodyspace lançada pela Optimus Discos) e o saxofonista Rodrigo Amado juntou-se em palco para ajudar no improviso.

O jamming, que parece acontecer permanentemente, obedece a um ritmo criterioso em que tudo encaixa na perfeição, como se  tudo estivesse pensado ao milímetro e os rapazes tocassem juntos há décadas (têm mesmo vinte e poucos anos?). Foi assim por exemplo com um excerto de Africa, um dos lados B de Saturdays & Space Travels, sorrateiramente encadeada, que quase não dávamos por ela.

Black Bombaim (5)

Os discos são poderosos, altamente bem conseguidos e bem produzidos mas ao vivo não restam dúvidas:  os Black Bombaim são excelentes músicos que fazem excelentes músicas.

A primeira parte ficou a cargo de Luís Lopes Noise Solo, cujo nome não engana: projeto a solo de Luís Lopes, um dos mais ativos músicos nacionais (Humanization 4tet, Lisbon-Berlin Trio) que, com guitarras, pedais e  amplificadores cruza o jazz, improvisação e noise, claro está, abriu a noite à experiência sónica.

Luis Lopes Noise Solo (3)

O fim do Festival Rescaldo fez-se, em tom celebratório, com o DJ Set de Flak (Rádio Macau, Micro Audio Waves) enquanto se fumavam uns cigarros e se bebiam umas cervejas. Para o ano há mais.

Fotografias: André Cardoso