Conquistou o Grande Prémio do Júri no Festival de Sundance e foi um dos selecionados para Cannes em 2012. Bestas do Sul Selvagem leva o cinema independente aos Óscares e arrisca-se agora a levar para casa quatro estatuetas douradas: melhor filme, melhor realizador, melhor atriz principal e melhor argumento adaptado.

Hushpuppy é uma rapariga de seis anos que vive com o pai – uma história que teria tudo para ser banal não vivessem eles numa comunidade isolada daquilo que é considerado a civilização moderna. A Banheira, assim se chama o destino desta viagem.

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O filme que adapta a peça Juicy and Delicious, escrita por Lucy Alibar, acentua o lado animal presente nos humanos. É a relação e a submissão do homem às vontades da natureza numa luta constante pela vida. Hushpuppy é só o exemplo mais marcante desse lado humano, pela pureza com que transmite a influência do meio na sua personalidade e pelo instinto de sobrevivência – que sabe a estranho devido à reduzida idade da menina.

Fugindo aos apelos de uma consciência ecológica – mas ainda assim tocando nela ao nível das consequências – Bestas do Sul Selvagem e a sua protagonista seguem o lema de que o universo depende do encaixe de todas as peças que dele fazem parte, até as mais pequenas. E é exatamente quando esse equilíbrio é posto em causa que o filme avança: um pai doente em luta contra a morte e a subida do nível médio das águas provocada pelo derretimento dos calotes polares.

Hushpuppy vai tentar ser a peça que encontra o equilíbrio e é nessa busca de soluções que se equaciona uma possível conversão ao lado cultural do homem, à vida para lá do dique que separa as terras pantanosas da grande cidade. Contudo, o filme vem reforçar os valores da comunidade e defender ‘o que nos distingue’ por mais longe que esteja dos padrões de uniformização que a sociedade tenta impor.

Beasts of the Southern Wild - 6

Quvenzhané Wallis apresenta-se como a mais nova candidata de sempre ao Óscar, como atriz principal, pela sua Hushpuppy. Merece-o: sente-se que a protagonista deste filme é de facto uma menina selvagem, cujas emoções atingem extremos. Wallis consegue ainda promover a identificação com o espectador e transmitir a sua dúvida constante entre a vontade de mudar e a necessidade de ser aceite pela sua comunidade de origem. Seria difícil não sentir identificação com tal personagem.

Mas se a protagonista mereceu tal distinção, injusto será o nome de Dwight Henry não figurar nas nomeações para o certame americano. O ator que interpreta o pai de Hushpuppy atinge um nível bem alto de incorporação do lado animal no ser humano. O seu trabalho como Wink deixa quem assiste intrigado com a forma como defende a rutura abrupta para com a sociedade-padrão. São os valores da sobrevivência e da luta levados ao extremo, ao mesmo tempo que procura proteger da extinção a comunidade em que sempre viveu.

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Ben Zeitlin assina com Bestas do Sul Selvagem a sua primeira longa-metragem e vê-se nomeado para melhor realizador nos Óscares. Zeitlin consegue construir um filme orgânico em que a história flui com naturalidade, sem ser pesada para quem assiste. Aliando uma boa fotografia a uma banda sonora que nos traz a sonoridade do folk americano, o realizador consegue completar um quadro de comunidade, bastante aprazível na maior parte do filme.

No registo de cinema independente e trazendo alguns traços de documentário, Ben Zeitlin peca, contudo, por abusar de movimentos demasiado bruscos ao nível da câmara – o que poderá implicar uma leitura mais difícil daquilo que é passado no ecrã e deixar o espectador confuso com o motivo de tal opção.

A simplicidade com que se abordam questões complexas é o grande motivo para se assistir a este filme. As várias histórias dentro da mesma narrativa conduzem a questionar o lado animal que cada humano possui. Bestas do Sul Selvagem é uma história de força contada por uma narradora que à partida teria tudo para ser classificada como frágil. Mas não o é, de todo.

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8,5/10

Ficha Técnica:

Título Original: Beasts of the Southern Wild

Realizador: Ben Zeitlin

Argumento:  Ben Zeitlin e Lucy Alibar, a partir da peça Juicy and Delicious de Lucy Alibar

Elenco: Quvenzhané Wallis, Dwight Henry, Levy Easterly

Género: Drama, Fantasia

Duração: 93 minutos