Hoje é o segundo Dia Mundial da Rádio.

Na verdade todos os dias são dias da rádio. A rádio acorda connosco, despertador no velho aparelho da mesinha de cabeceira. E o sinal horário não nos deixa perder o autocarro. A seguir ainda ouvimos as notícias, já no iPod. No trabalho, por entre atarefadas interferências, ouvimos umas mixórdias supcelentes, fazemos as contas do dia, ouvimos as notícias que marcam o trânsito que fazemos por esta vida. E assim seguem os dias, preenchidos de programação e cheios das vozes de uma rádio com gente dentro.

Hoje escrevo só para contar a história de uma paixão antiga. Aprendi, durante longos anos, a saber apreciar a companhia da rádio e a enriquecer-me com ela. Não há melhor workshop de animação do que ouvir a voz em direto, o improviso sem rede, a branca de dois segundos ou a música que já entra cortada pelas gargalhadas de fundo.

Muito depois dos tempos em que Amália Rodrigues era a menina da rádio ou em que brilhavam as estrelas da telefonia, quis ser locutor. Nunca pensei que a corticite do velho estúdio e o ruído da já muito usada mesa de mistura se entranhassem tão fortemente. A rádio, por não ter nada mais que voz, entra em nós e guarda-se em tudo o que somos. É assim, com pura entrega, que um timbre, sozinho e desprovido de acessórios, enche uma emissão e, mais do que tocar músicas, toca-nos a nós. (Isto é um velho slogan, não é?)

A rádio é sensual e misteriosa. A rádio esconde caras e mostra corações. E só pela voz conhecemos aquela companhia de todos os dias, aquele parente que nos acorda quando já não há a voz da mãe para nos chamar.

E assim a rádio contém um paradoxo quase digno de Édipo. É misteriosa e sexy, mas também familiar. Está lá, como som de fundo, a dar ambiente aos dias. E acompanha-nos, torna-se parte da mobília. Vive connosco, dá outros sons à chuva que cai no passeio, dá melodias à ensaiada e rotineira coreografia diária.

Agora vou ouvir a Prova Oral. Não sei se disse tudo o que devia, se contei tudo o que a rádio é, se cheguei onde ela me leva. O mais provável é não o ter feito. Mas acho que o importante é dizer, hoje e sempre: viva a rádio… até porque ela vive connosco!

Foi um prazer estar na sua companhia, continue connosco.