O sempre polivalente MusicBox recebeu na noite do último sábado um showcase de três bandas sob a alçada da editora Raging Planet, projecto de Daniel Makosch – que na última década tem vindo a construir um bastante eclético (e usualmente interessante) portefólio. Como reflexo desse ecletismo, o público que compôs a sala da Rua Nova do Carvalho acabou por ouvir três bandas distintas entre si – no estilo e na qualidade.

Com o concerto agendado para as 22h30, os A Tree of Signs subiram ao palco sem atraso de monta e, em muito portuguesa consequência, com a sala ainda algo despovoada. Os fotógrafos, nesta altura os únicos habitantes da zona mais próxima do palco, foram desde logo fustigados por uma onda de drone – cortesia do baixista de cândido nome Nocturnus Horrendus – que foi eficaz a sintonizar os espíritos para a meia hora de doom que se seguiria.

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Uma meia hora competente de uma banda ainda infante (foi criada em 2012) em que se visitaram três temas do EP Salt e duas novas canções que acabaram até por ser as mais interessantes. O som estava perfeitamente ajustado e coagiu as cabeças a realizarem o típico aceno doom: um movimento lento na vertical acompanhado de um franzir dos sobrolhos.
A sueca V-Kaos cativou com a beleza e a afinação etérea da voz, mas nunca fez por comunicar com o público, que acabou por se manter recolhido lá atrás. Ademais, os quatro instrumentos da banda (bateria, baixo, teclas e voz) parecem por vezes insuficientes e há canções, ou partes de canções, em que o facto de o baixo fazer as vezes da guitarra deixa a bateria desamparada. Não deixa de ser uma banda que merece acompanhamento futuro.

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Chegou a vez do quarteto de grindcore Besta, nascido em 2012 do sangue coalhado de algum membro dos Napalm Death. Com uma setlist de 18 canções para 30 minutos, o concerto foi aquilo que se esperava: otorragia.

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O grindcore é dos estilos mais dificilmente elogiáveis por não-apreciadores (o meu caso). Porém, é obrigatório realçar a proficiência técnica destes músicos – em particular do tentacular baterista Lafayette –, bem como a atitude feérica e infatigável do vocalista Outlaw Roque, que nos primeiros dez minutos já tinha cuspido para o chão, arrancado a camisola e tentado atear o moche entre um público molengão. Foi uma pena que, no meio da parede de som, mal se ouvisse a sua voz (os shrieks eram totalmente mudos).

Na impossibilidade de distinguir as canções umas das outras, e procurando fugir da opressão sónica, entretive-me a observar as sevícias que uma meia dúzia lá à frente ia aplicando ao vocalista: puxões, rasteiras, empurrões, festas no cabelo (!).

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Por fim, no mesmo palco mas num patamar diferente, os The Quartet of Woah! fecharam a noite com a apresentação do longa-duração Ultrabomb, e fizeram-no com classe. Depois de um começo periclitante nas teclas da The Path of our Commitment, a banda acelerou para uma performance notável, à boleia do extraordinário personagem que é o seu vocalista-guitarrista, cujos urros rasgados, vestimenta e suíças me convenceram de que alguém o teletransportou de Woodstock directamente para este país improvável.

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Não é fácil catalogar a salutar salganhada que é este Quartet: há ingredientes vindos de todas as regiões do rock dos últimos quarenta anos (mas com especial incidência no prog dos anos 70). Os teclados costumam estar bem acidificados, há derivas regulares para o stoner rock, chega a haver momentos operáticos que lembram Queen… Mas o que é assinalável é o facto de a mistura solidificar numa identidade que é desta banda e de mais nenhuma – e, quando isto acontece, estamos quase sempre na presença de uma banda de excepção. Ou seja, se não é fácil defini-los, também não é estritamente necessário: há é que ouvi-los e não perder tempo com nada mais.

O público não se mostrou indiferente a este conjunto e fez questão de ser ruidoso nos aplausos – mas note-se que esta banda foi a única que fez questão de comunicar com os presentes. No fim, fomos presenteados com um improviso longo sobre o tema que dá o nome ao álbum, Ultrabomb, e saímos todos um pouco mais crentes no futuro do rock’n’roll.

*Este artigo foi escrito, por opção do autor, segundo as normas do Acordo Ortográfico de 1945

Texto: António Pedro Marques

 Fotografias: André Cardoso