Foi em 2008 que Grouper, o projeto musical de Liz Harris, prendeu a atenção da crítica especializada com Dragging a Dead Deer Up a Hill: o seu 5º longa duração, que é de resto, indiscutivelmente icónico. Cinco anos depois, chega-nos um conjunto de canções que formam uma compilação de faixas criadas em 2008, mas que não integraram o alinhamento de Dragging…, pelo que The Man Who Died in His Boat é como que o seu disco siamês.

Tendo como ponto de partida temático um episódio de infância, em que Liz deambulou por entre destroços de um navio, The Man Who Died in His Boat encontra-se enclausurado por mais do que memórias perdidas. Existe um contexto sonoro, assumidamente anterior, no qual o disco respira. Aquilo que era feito por Grouper em 2008 é agora revisitado, com uma sensibilidade e noção criativa mais maduras.

Depois de Dragging…, Grouper rapidamente se conseguiu distanciar da fama recém-obtida de uma forma bastante prolifera e recompensadora. Note-se: nos lançamentos seguintes, Liz optou por aprofundar a dimensão da música por si criada, que mais apraz à verdadeira escuta musical enquanto processo sensorial de receção de estímulos. Para trás ficaram as peças-chave de uma folk intemporal fundida na dream pop, em berço de reverberação e shoegaze introspetivo – ou seja,  ingredientes de Dragging… . Sucederam-se discos que cercavam o ouvinte de ambientes e cenários noturnos, sem luz, onde o som e a sua dimensão plástica formam uma densa camada musical que certamente não terá agradado aos fãs das melodias simples outrora visitadas.

The Man Who Died in his boat

drone voltou a ser o foco da música de Grouper, e a prova explicita do talento de Liz para este género será o facto das tonalidades por si criadas neste panorama sonoro serem automaticamente associadas a Grouper. Basta que surjam os primeiros compassos. Não há mais ninguém que crie, ou sequer tente criar, música deste tipo e desta maneira, e isso é um triunfo.

The Man Who Died in His Boat, mais do que um folhear de álbum de fotografias antigas, é um desfile de variâncias melódicas em relação a Dragging… . Em várias faixas temos a sensação de claro déjà vu sonoro e com legitimidade: a faixa Cloud in Places, por exemplo, em muito se assemelha a Heavy Water/I’d Rather Be Sleeping de Dragging…, só que aqui verifica-se a ausência de um refrão apelativo o suficiente para poder integrar um episódio de Skins. E damos graças por isso. Talvez seja algo que reflete a perspetiva de Liz Harris quanto à sua obra: popularidade nunca foi o seu objetivo, mas antes um debruçar absoluto na forma com o som é trabalhado e mais importante ainda – na forma como esse pode ser capaz de afetar ou interagir com quem ouve. Being her shadow é esplendidamente imersiva, à medida que a voz de Liz se dissipa em ecos indecifráveis.

A guitarra e o reverb abrem caminho ao longo de todo o disco e a presença desconcertante de teclas em Vanishing Point é uma surpresa: não pelo fator novidade, mas pela sensação de isolamento que é transmitida pela cadência do piano. Com este disco, Grouper aborda o seu trabalho passado sem o intuito de se repetir ou reciclar ideias anteriores pelo facto das mesmas terem sido bem sucedidas noutros tempos, mas como um ato de contemplação. Ainda assim, The Man Who Died in His Boat, acaba por não chegar a uma conclusão propriamente válida: a forma como Living room termina o disco não reflete um fechar de um capítulo, mas sim o desconforto e inquietude de quem aguarda a próxima etapa da aventura auditiva de Grouper.

Nota: 7,5 / 10