Corria a primavera de 1973 quando o folhetim Simplesmente Maria se fez escutar pela primeira vez na antena da Rádio Renascença. A novela radiofónica da hora de almoço tornou-se um sucesso tão grande que fazia o país parar – inclusive o Parlamento.

O fenómeno está de volta, mas agora adaptado ao palco. Até 24 de fevereiro Simplesmente Maria está no ar no Teatro A Barraca em Lisboa, num trabalho com autoria e encenação de Mirró Pereira.

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A história de Maria é o reflexo de uma geração: uma rapariga da província, filha de uma família humilde, vem para a grande cidade à procura de emprego e de realizar os seus sonhos. Em Lisboa, a protagonista acaba por viver um conjunto de aventuras, encontrar o sucesso e apaixonar-se.

Em palco assiste-se à trama da rádio, mas sobretudo aos seus bastidores. A peça vive pelas ligações que se estabelecem entre a história de Maria e o quotidiano daqueles que lhe dão voz, em especial os amores que vão crescendo (e mudando) antes de se dar início às gravações.

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Simplesmente Maria explora ainda o impacto deste folhetim radiofónico no público em geral, de que são exemplo passagens em que se recebem encomendas dos ouvintes para as personagens da rádio-novela e a vontade de descobrir quem lhes dava voz – situações que aconteceram mesmo em 1973.

Pouco mais se avança para além do paralelismo realidade-ficção, apesar de algumas incursões envergonhadas no contexto de época. Uma escolha acertada tendo em conta que Simplesmente Maria é uma comédia e pretende por isso uma abordagem leve no tratamento destas questões. Ainda assim não deixa de refletir sobre temas como a ditadura, a guerra colonial, as vontades de mudança ou a situação cultural do país na década de 1970.

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Ao assistir-se ao espetáculo sente-se que se sintonizou na frequência certa para dar entrada numa viagem, sem retorno, no tempo. O cenário é vintage e parece retirado de uma fotografia antiga, sendo irrepreensível ao nível de consistência histórica.

Sente-se a rádio do princípio ao fim através dos jingles, das músicas, dos anúncios e das conversas. Há um conjunto de referências incontornáveis dessa época que chegam aos nossos ouvidos e são facilmente reconhecidas.

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Ainda assim, o silêncio faz falta de vez em quando em Simplesmente Maria. O trabalho de sonoplastia é rico e acaba por ser essencial para reforçar a peça, mas há um momento em que parece demasiado forçado e não deixa respirar o que se passa em cena. O silêncio faz parte da rádio, mas ele quase não tem lugar nesta peça.

O elenco é jovem e consegue defender bem o projeto que tem em mãos, contudo o exagero acaba por ocupar grande parte do trabalho dos atores desta equipa. Mas aqui o exagero é desculpado por um objetivo que é cumprido na totalidade: distrair e fazer rir. O humor de Simplesmente Maria é fresco e consegue levar facilmente quem assiste na corrente.

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Não faltam sequer as interpretações musicais de grandes hits da época ou os passatempos que completavam as grelhas das estações de rádio – estão lá como transição entre as cenas mas acabam por constituir momentos divertidos. O próprio auditório torna-se parte da peça durante um sorteio em que objetos de grande utilidade na época são atribuídos àqueles que são bafejados pela sorte.

Simplesmente Maria vale pela frescura e leveza como transporta o espetador para o universo da telefonia e o envolve na história do mais longo folhetim radiofónico de que há memória na rádio portuguesa, com mais de 300 episódios.

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FOTOGRAFIAS: Andreia Martins