Sara Tavares encheu ontem a sala do Teatro Municipal Joaquim Benite, para uma noite de muito “swing no pé”. Para além dos catorze temas, que revisitaram os seus três álbuns de estúdio, tempo ainda para receber um convidado muito especial: Carlos Nobre (Pacman) ex-Da Weasel, que acompanhou a cantora almadense em Palavra Sentida.

Já passava das 21h30, pelo menos uns dez minutos, quando Sara Tavares arranca a primeira ovação da noite. Começava assim um concerto de quase duas horas com o tema Mana Fé, no qual a canta-autora não perdeu tempo e apresentou desde logo os quatro músicos que a acompanharam. Por essa altura o público, ainda frio, já começava a dar as primeiras manifestações de agrado através de tímidos bater de palmas.

O ambiente era de pura fusão cultural e os ritmos africanos deixavam vincadas as vivências da cantora. Fechassem os fãs os olhos e poderiam imaginar-se numa qualquer rua da Cidade da Praia. Aliás, Sara não nega as raízes cabo-verdianas e quem a visse ontem, de longo vestido verde, com o ombro de fora, a cantar a lusofonia, aprovaria esta ideia. “Desde os 15 anos comecei a viajar para Cabo Verde, porque os meus pais são de lá, e comecei a aprender a língua, mas acima de tudo a aprender a dar valor a tudo o que faz parte de mim, pois se queremos ser fortes e bons, temos de aprender a ser inteiros”. Confessou a cantora.

Um Pouco Mais pedia o público e esta “aspirante a diva” tocava. Um tema com menor balanço mas que deu mote para duas músicas cantadas em crioulo: Dam Bo e Di Alma. Seguiu-se um dos momentos da noite, no qual Sara contou algumas histórias da sua infância vivida em Almada, nas quais descreveu os “xutos na bola com os rapazes”, as “sopas de café com leite” e ainda Maria José, a mãe de uma amiga que inspirou a letra do single Balancê. Foi esse o tema que lhe valeu a segunda ovação da noite e no qual a artista interagiu de forma mais enérgica com o público, criando uma harmonia entre vozes femininas e masculinas.

Ainda a audiência se restabelecia do “balanço” do tema anterior já os cinco músicos tinham começado a tocar um dos temas mais emblemáticos de Sara Tavares. Ponto de Luz criou uma atmosfera de acalmia e ternura que caracteriza alguns dos temas de Xinti (2009). Impressionante o clima criado pelos arranjos de percussão que foram, ao longo do tema, simulando o som de riachos de uma água tão cristalina como a da voz da cantora. Entre temas Sara confessou que os seus ídolos musicais foram sempre os seus “pontos de luz”, entre eles destaque para Stevie Wonder, Whitney Houston e Bob Marley.

Depois de Nha Cretcheu Carlos Nobre foi convidado a pisar o palco, desta feita para um dueto em Palavra Sentida. “Não somos grandes amigos mas somos da mesma cidade e só esta cidade já nos dá uma proximidade e uma vontade de fazer coisas juntos. O vosso aplauso para o Carlão”. A apresentação por parte de Sara Tavares antes de um grande momento, no qual ambos os músicos provaram ter uma forte “química” de palco. Um tema sentido, cru e com uma letra muito forte acompanhada de um simples delay de guitarra.

Já sem a presença do convidado, a cantora apresentou um tema que compôs ao lado de Nancy Vieira. Ginga, homenageia a cantora cabo-verdiana com o mesmo nome.Por essa altura o público já estava completamente rendido. Aliás nos três temas seguintes as cadeiras do anfiteatro tornaram-se meras peças de decoração, visto que o público levantou-se gradualmente para dançar. Este autêntico clima de festa viu o seu auge à chegada do single de maior sucesso da cantora. Bom Feeling arrancou os pés do público do chão e até houve quem dançasse de muletas, criando uma enorme onda de energia e boas vibrações. Um momento chave do concerto que viria a ser usado como “falso final”.

O encore ficou a cargo do tema One Love, que fechou em grande uma noite de feição para Sara Tavares e “companheiros de estrada”. Talvez por isso a artista tenha prometido regressar muitas mais vezes ao Teatro Municipal de Almada, mesmo que “desse lado aí do público, para assistir às coisas lindas que se vão passar aqui e que que já vi na programação”. Contou a cantora que agradeceu inúmeras vezes a presença de todos e se despediu, ao lado dos quatro músicos que a acompanharam, fazendo uma vénia ao público, “como o teatro ordena”.

Alguns dos momentos do concerto de ontem:

Fotografias: Miguel Zambujo