A RFM anunciou, esta semana, mudanças na sua programação. O Café da Manhã fica sem Carla Rocha e Zé Coimbra, o Oceano Pacífico perde a sua mais característica voz – João Chaves. A liderança foge há quase um ano à estação do grupo r/com e esta parece ser a estratégia para dar a volta ao resultado.

Há três trimestres que a RFM não lidera as audiências radiofónicas em Portugal, após um período de vantagem que se manteve durante mais de dez anos. O Café da Manhã, cujo papel foi importantíssimo enquanto impulsionador da restante grelha da rádio, há mais de um ano que vinha perdendo para a Rádio Comercial, situação que se agravou após a chegada de Ricardo Araújo Pereira à antena concorrente.

A seguir à perda da liderança nas manhãs, foi um saltinho para que toda a programação fosse contagiada e a Rádio Comercial tomou de assalto o primeiro lugar.

A LONGA REAÇÃO

A RFM procurou reagir, desde o início, à subida da concorrente. Começou por tratar os ouvintes por tu, aproximando-se da linguagem das rádios jovens, chamou Joana Gama para acompanhar a dupla tradicional do Café da Manhã. A primeira não resultou em grande coisa, a segunda falhou e resultou na saída, poucos meses depois, de Joana.

Enquanto isso, a rádio da Media Capital continuou a crescer. Nilton acabou por se revelar insuficiente ante a contratação de Ricardo Araújo Pereira. Pelo caminho, e pelo meio de tanta tentativa e erro, estavam feitos danos irreparáveis. Uma coisa é certa: não transmite boa imagem uma rádio que anda em constante ziguezague estratégico.

FALTA DE IDENTIDADE

E a verdade é que o problema pode ter sido mesmo esse. Ante uma Rádio Comercial de aspeto divertido e familiar, que se consolidou como a rádio do público urbano e cosmopolita, a RFM pareceu perdida e sem capacidade de reação.

E reagir, nesta situação, não deve ser fácil. Mais de uma década depois, a RFM caiu e sem perceber bem porquê. A programação era a mesma que a levou ao topo e que pareceu inquebrável durante muitos anos.

Após avanços e recuos, António Mendes, diretor da RFM, acaba de anunciar novas mudanças de programação. O refrescamento da antena começa nas manhãs, com a dupla que fechava as tardes – Joana Cruz e André Henriques – a tomar conta do Café. A eles junta-se outra criação da própria estação: Mariana Alvim.

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Nilton é a única pessoa que continua do antigo Café da Manhã. É irónico ver que a única coisa que continua é um humorista supcelente. A face visível da insuficiência da resposta da RFM. Não é obrigatório que todos os programas da manhã tenham um humorista, principalmente se este não é capaz de gerar empatia junto do público.

À noite, João Chaves juntou-se ao grupo de funcionários da Renascença que optaram por aderir ao plano de rescisões amigáveis que o grupo está a fazer. A voz lendária das noites da estação já veio dizer que sai por vontade própria, mas a verdade é que não havia pior altura para fazê-lo.

Três dos mais emblemáticos e marcantes nomes da estação abandonam importantes horários. A RFM perde identidade onde mais a tinha. Ficamos agora à espera de saber se, com a dupla das manhãs afastada para horários de menor visibilidade e João Chaves a reformar-se, os substitutos estarão à altura.

O FUTURO

De resto, prometem-se programas de autor e mudanças na playlist.

Os programas de autor são precisos. A rádio hoje parece um produto artificial, demasiado virado para as fórmulas garantidas. Resta saber se o que vêm aí são verdadeiros programas de autor ou só coisas com ar de que é algo diferente.

A mudança na playlist da RFM também é necessária. Tanto tem Calvin Harris e Pitbull a bombar como passa as mesmas músicas de há dez anos atrás e que já toda a gente está farta de ouvir: Lighthouse Family, Lenny Kravitz, Bryan Adams e Sting passam na RFM com as mesmas músicas de sempre. Quem não os conhecer até pode mesmo ficar a julgar que foram meninos de alguma one-hit wonder.

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Que esta crise de identidade seja uma oportunidade para renascer. Do outro lado, a Comercial fez a sua marca crescendo com os portugueses, sendo capaz de os acompanhar nos seus novos ritmos de vida, sendo ela própria um ritmo novo na rádio nacional. Quem imaginaria programas apresentados por cinco pessoas há dois ou três anos atrás?

Está mesmo na hora de acordar. Com ou sem Café da Manhã, a RFM tem de acordar para a vida. O panorama radiofónico português merece dela mais e melhor do que tem sido.