John Wolf, assim se chama o homem que caminha pela escuridão do bosque. Cego, sem medo de se perder, apresenta-se como um guia para quem procura encontrar-se a si próprio entre o verde da mata. “Take my hand. I’m a stranger in the paradise”.

As caminhadas ao bosque começam hoje e duram até 24 de fevereiro. O Teatro da Cornucópia convida assim a percorrer os trilhos com John Wolf em O Estado do Bosque, um trabalho encenado por Luís Miguel Cintra a partir da obra de José Tolentino de Mendonça.

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O som do clarinete dá o mote para que tudo comece. A luz cuidadosamente elaborada vai dando o seu toque para a constituição do ambiente. Cintra está sentado, como que petrificado, no centro de um palco que é construído em formato circular pela própria iluminação – aumentando a envolvência com quem assiste.

Aqueles que procuram realizar esta visita à escuridão do bosque vão-se apresentando e esclarecendo as suas relações. Em comum, a necessidade de reencontrar-se com a sua própria essência e a vontade de fugir a uma vida marcada por construções indesejáveis de personalidade – que os deixam também a eles cegos perante a verdade da vida e dos sentimentos.

Há um momento a partir do qual ninguém sabe se está a viajar ou a fugir”, ouve-se. Também Peter (Nuno Nunes) e Jacob (David Granada) não sabem muito bem o que procuram neste percurso que estão prestes a abraçar. Apesar disso, John Wolf (Luís Miguel Cintra) adverte-os que “quem quer apenas a meta não viaja”. É a busca da salvação, da felicidade, do si-mesmo, acartando-se todas as responsabilidades dessa descoberta.

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O elenco jovem – que para além de Nuno Nunes e David Granada conta com Vera Barreto – tem em Luís Miguel Cintra uma árvore de raízes seguras para todo o desenvolvimento da peça. Cheio de mistério, o ator introduz a dúvida sobre a integridade moral deste John Wolf que – dizem os mais desconfiados – “arrasta inocentes para o bosque”. Será este homem que aprendeu a viver no escuro realmente bom? O que guarda o seu passado? O que procura ele próprio no bosque? A dúvida mantém-se.

Na sala praticamente despida de objetos, a luz é a presença mais forte ao longo do espetáculo. Em cada transição entre cenas, a iluminação muda a sua constituição e mostra elementos que estão em palco de uma forma diferente daquela como sempre se apresentaram até ali. A luz incide exatamente no sítio certo para revelar o que até então era desconhecido.

Os personagens são eles próprios beneficiados pelo jogo de luz. John Wolf torna-se uma figura ainda mais misteriosa por estar grande parte da peça oculto – sobretudo a face – na sua própria sombra, deixando-nos a pensar qual a expressão do ator. É como se nós próprios nos tornássemos também cegos face à personagem que se apresenta à nossa frente.

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Apesar de alguns quadros não serem tão atrativos, sobretudo os de diálogo, a complexidade das questões abordadas nunca fica orfã em cena. Nunca perdemos o fio à lógica por detrás da história – antes o vamos seguindo e descobrindo com cada vez mais gosto, descortinando as metáforas e os conceitos que preenchem o texto e a acção.

O Estado do Bosque é uma peça para viajar com aquilo que se passa à nossa frente, mas sobretudo dentro da nossa própria cabeça. Levantam-se assim questões importantes sobre a nossa existência, sobre a existência de Deus e a sua influência na nossa vida, sobre os caminhos que queremos seguir.

Qual é o sentido do trilho? Não sei. Cada trilho conduz a mais do que um sentido” acaba por ser o lema para a interpretação desta peça, adiantado logo no início do espetáculo. Abre-se espaço para que cada um de nós que assiste possa tomar o seu trilho, apesar de partirmos todos do mesmo começo.

No fundo, O Estado do Bosque ensina-nos que também nós temos de saber ver e viver na escuridão e a sentir que a luz não é uma presença constante na vida. Apenas temos de saber adaptar-nos à sua intensidade.

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Fotografias: Luís SantosTeatro da Cornucópia