A longa-metragem sobre o Mestre do Suspense chega hoje aos cinemas portugueses num tom bem mais comercial que o esperado. Hitchcock partilha o nome com o génio que retrata e debruça-se sobre as filmagens do maior sucesso do realizador – Psycho -, prestando homenagem não só a um grande homem, mas igualmente à grande mulher que sempre esteve ao seu lado.

O realizador Sasha Gervasi destaca bem muitos dos traços que marcaram a personalidade do cineasta, mas principalmente a relação com a sua esposa Alma, mostrando contudo uma tendência para cair no mesmo erro que arruinou outra biopic, A Dama de Ferro. Anthony Hopkins e Helen Mirren comandam um elenco com nomes como Scarlett Johansson, Toni Colette e Jessica Biel num filme que é, acima de tudo, entretenimento.

Hitchcock dá a conhecer a história de amor de Alfred e Alma, mais precisamente, quando o cineasta se arrisca na sua mais ousada aventura cinematográfica: a produção do arrepiante thriller Psycho, de 1960. Afinal, nada voltaria a ser igual no mundo do cinema e, no entanto, poucos perceberam que tinham sido precisos dois para fazer história.

Hitchcock_Anthony-Hopkins

A narrativa que começa com a estreia de Intriga Internacional e início de produção de Psycho até à sua primeira projecção pública, está recheada de bons momentos de humor, sempre irónico, como o próprio protagonista. À relação entre o casal Hitchcock é dada grande relevância, e parece haver coerência histórica, apesar de alguns lapsos que, apesar de discretos, se sentem – por exemplo, não há qualquer referência à participação da filha do realizador Patricia Hitchcock em Psycho, tendo a mesma interpretado a personagem Caroline.

A lembrança de Ed Gein, o assassino que serviu de inspiração a Hitchcock para a personagem de Norman Bates, faz todo o sentido neste filme, mas não da forma como se torna insistentemente repetida. Fica a sensação de que se pretende fazer crer que o realizador estaria obcecado de tal forma que chegava a ter alucinações, sugerindo-se algum desequilíbrio mental, a par do que se fez na biopic sobre Margaret Thatcher, A Dama de Ferro, o que deita muito a perder. Contudo, a figura de Hitchcock – alucinações à parte – foi bem estudada, apreendendo as suas manias e feitio difícil, o seu fascínio pelas actrizes e posterior antipatia pelas mesmas. Anthony Hopkins, por sua vez, capta bem os trejeitos do cineasta, tornando a personagem ainda mais credível, apesar da caracterização não ser a mais perfeita.

84

Mas no que toca a interpretações é Helen Mirren que brilha, com um desempenho muito carismático de uma Alma dedicada e, ao mesmo tempo, amargurada devido às atitudes do marido. Dos restantes nomes do elenco, Toni Colette e Jessica Biel têm interpretações razoáveis, Scarlett Johansson, apesar de competente, não terá sido a melhor escolha para interpretar Janet Leigh, cujas parecenças físicas são demasiado forçadas. Por outro lado, são arrepiantes as semelhanças entre James D’Arcy e Anthony Perkins, a quem veste a pele.

Hitchcock não ultrapassa o nível do entretenimento, proporcionando cerca de hora e meia de momentos interessantes que pretendem, de certa forma, homenagear ocasiões marcantes da história do cinema. E é quando a longa-metragem mais se aproxima do tributo a Psycho que vale mesmo a pena. A rodagem da cena do duche e a sessão de antestreia são as sequências que mais captam as atenções e merecem ser vistas.

6/10

Ficha Técnica:

Título Original: Hitchcock

Realizador: Sacha Gervasi

Argumento:  John J. McLaughlin, baseado no livro de Stephen Rebello

Elenco: Anthony Hopkins, Helen Mirren, Scarlett Johansson, Toni Colette, Jessica BielJames D’Arcy

Género: Biográfico, Drama

Duração: 98 minutos

Crítica escrita por: Inês Moreira Santos

*Por opção da autora, este artigo foi escrito segundo as normas do Acordo Ortográfico de 1945.