Os Awolnation regressam a Portugal depois da surpreendente performance no Optimus Alive 2012. Acompanhados por dois concertos de abertura, com Itch e os Arcane Roots, chegam com alguns meses de atraso e após o adiamento de um encontro marcado para novembro. O Espalha-Factos esteve por lá e mostra tudo.

Itch: Sintetizadores de intervenção

 IMG_2108-2

IMG_2148

Pouco mais de 20 minutos depois da hora marcada, o britânico Itch pisa pela primeira vez um palco português. O rapper aproveita a boleia dos Awolnation para apresentar Manifesto Pt. 1, How to Fucking Rule at Life. Com uma mensagem política bastante presente, este hip-hop musculado perde-se no meio de tanta agressividade, embora haja claramente boas intenções.

IMG_2275

A receção foi inicialmente morna, mas face à insistência a assistência vai começando a dar de si. Os riffs de guitarra merecem a nossa aprovação, por mais que pareçam perdidos entre sintetizadores, berros e efeitos de luz. Ainda mais perdida esteve a segunda voz de uma ‘desorientada’ coralista que garantiu as teclas. Chegou a desafinar, cedendo ao esforço, que ainda assim achamos que valeu a pena. London is Burning, tema que chega praticamente no fim, dá-nos vontade de conhecer um bocadinho mais, mas para já isto foi só um aquecimento.

IMG_2288

Alguma pausa para ‘recomposição’ do palco e rapidamente entram os Arcane Roots. Está prometida uma mistura de pop, metal e rock progressivo. Começamos com uma falsa partida. Problemas técnicos parecem impedir o vocalista de prosseguir normalmente, assistimos a algumas afinações.

Arcane Roots: Hibridismo em tons agudos

A atuação começa. A voz de Andrew Groves soa aguda e nasalada. O início faz-se melancólico e lento, para muito rapidamente se partir tudo a seguir. Acompanhamento instrumental quase irrepreensível, fortalece o registo vocal, que se engrandece quando acompanhado de mais força da guitarra e da percussão.

IMG_2323

IMG_2336

A música, que está plena de oscilações, experimentação instrumental e alguma esquizofrenia estilística, assenta bem na performance do vocalista, que se bamboleia entre frases praticamente sussurradas e aflitivos gritos.

Pelo caminho, o Cais do Sodré esteve quase a ser o Calçadão de Copacabana e um ‘Hello Brazil!’, imediatamente corrigido fez as delícias da plateia.

IMG_2375

Prosseguimos, entre registos mais melodiosos e outros de verdadeiro frenesim. O vocalista é, na nossa opinião, um exímio guitarrista. Ainda nos pormenores do canto, é notória a falta de cor dos graves, quase sempre ausentes. Esta ausência torna a experiência auditiva menos agradável do que poderia ser.

IMG_2520

O fim é com momentos de grande harmonia instrumental e com a sala bastante mais cheia que no início. Fica provado que os géneros anteriormente referidos se misturam nas várias canções. Às vezes até em inesperadas fusões com outros estilos ‘não-anunciados’.

Awolnation: A noite ainda é uma criança

Numa noite que, apesar de ser terça-feira, foi de casa composta no TMN ao Vivo, os Awolnation provaram ser mais do que a banda-da-música-do-anúncio.

IMG_2725

A plateia logo nos primeiros segundos mostrou ao que veio e afastou-se da temperatura tépida que manteve durante os dois acts de abertura. O grupo soa mais forte e orgânico do que no álbum, provando, com poucos minutos de concerto, que teríamos festa!

Afastando-se da vibe mais dark dos dois concertos inaugurais, Awolnation apresentou-se em palco com pujança e profissionalismo, num concerto de grande comunhão com o público e em que o carisma de Aaron Bruno foi um fortíssimo ponto a favor.

IMG_2818

IMG_2701

People ou Kill Your Heroes foram duas das canções mais entoadas por uma plateia afinada e competente, que mereceu bem os elogios do frontman, pouco poupado nas referências à sua admiração por Portugal. Em Not Your Fault, os coros foram ainda mais certinhos, sobrepondo-se à voz do vocalista e mostrando uma surpreendente mancha de fãs que sabia quase tudo na ponta da língua.

All I Need, por seu lado, foi a grande balada da noite. Braços à volta do pescoço, dos ombros ou da cintura, foi o momento do abraço. Enternecedor, fofinho e pausa para descanso das pernas num espetáculo agitado.

IMG_2885

A celebração continua. E este é um bom momento para destacar a coerência ‘intertextual’ dos vários temas extraídos do Megalithic Symphony e a coesão que proveram à atuação desta noite. Absolutamente enxuta, uma performance sem paragens nem secas que caminhou aceleradamente até Sail, smash-hit dos californianos e que chegou perante histeria absoluta do público no TMN ao Vivo. No fim da música, uns belíssimos solos de guitarra que não pertencem à versão original mas que deram gosto de ouvir. Bom trabalho do Drew Stewart.

IMG_2690

Não sabemos a setlist de cor, mas da Sail para o fim foi um saltinho. No momento “só mais uma”, bem pedido pela maioria e bem saboroso para quase todos, Aaron Bruno veste a camisola oferecida por um fã e expressa novamente o seu amor a Portugal, dedicando uma das três músicas deste encore – Knights of Shame, a este belo país à beira mar plantado.  

O regresso à ocidental praia lusitana ainda não está marcado, mas a espera por este concerto valeu bem a pena.

Texto: Pedro Miguel Coelho

Fotografias: Rita Sousa Vieira