A editora Tinta da China foi acusada de difamação e injúria por ter publicado um livro onde denunciava várias violações de direitos humanos praticados em Angola por empresas de segurança contra as populações, com a conivência de muitos generais do país.

O livro foi publicado por Bárbara Bulhosa, responsável da editora, após ter tomado conhecimento da investigação do jornalista e ativista angolano Rafael Marques sobre crimes contra as populações das zonas de extração de diamantes das Lundas. A editora verificou a veracidade da investigação após ter analisado vários relatórios internacionais e testemunhos das vítimas e não hesitou em publicá-la em papel.

Com o objetivo de dar a conhecer uma situação “de extrema gravidade, que não era conhecida” a editora decidiu publicar Diamantes de Sangue: Tortura e Corrupção em Angola. A editora afirma que o local onde os crimes são executados não lhe interessam, “podia ser noutro país qualquer”, o que lhe interessava era sobretudo “a questão dos direitos humanos e a denúncia de situações terríveis para as populações”.

A agora arguida neste processo considera que há pressão sobre as editoras que possam aceder a manuscritos sobre questões sensíveis e que denunciam personalidades com muito poder, acrescentando que se trata de “um processo político de intimidação”. Bárbara Bulhosa fica com termo de identidade e residência até o Ministério Público decidir se deduz ou não acusação.

O advogado de defesa da editora considera todo este processo um erro, no sentido em que poderá oferecer um maior alcance público aos factos expostos no livro.

O advogado que representa os generais angolanos e as duas empresas de segurança que interpuseram a queixa-crime confirmou há instantes ao Público que um dos acusadores é Hélder Vieira Dias ‘Kopelipa’, parte integrante do círculo mais íntimo do chefe de Estado e uma das figuras visadas por um inquérito-crime aberto na Procuradoria-Geral da República portuguesa por branqueamento de capitais e fraude fiscal. Para além desta figura influente, também o general António dos Santos França ‘Ndalu’, deputado do MPLA e presidente da empresa sul-africana de diamantes De Beers em Angola, está entre os queixosos juntamente com dois outros que ocuparam o cargo de chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas Angolanas.

O advogado de defesa da editora José Manuel Mesquita afirma que pedirá a instrução do processo para evitar o seu arquivamento, acrescentando que, indo a julgamento, será uma forma de expor a verdade: “se querem questionar a veracidade dos factos, vamos ver a veracidade dos factos”, afirma.