Um romance se cravou na pedra mais colossal de todas as pedras, a pedra eterna e lendária do rock’n’roll: mergulhos profundos em mares habitados por adamastores personificados em psicadelismos desconcertantes e que se faziam viajar através da libertação do fuzz da guitarra de Parker Griggs foram feitos, mas o que veio ao de cima e o que por lá prevaleceu no final da noite de ontem foi que os Radio Moscow são a banda mais leal ao rock do momento.

O enredo deambula-se pelos ares sessentistas e setentistas, o espaço temporal que mais verdadeiramente perfuma toda a essência inolvidável daquilo que foi o verdadeiro rock’n’roll. Tudo começou com o Era uma vez. Era uma vez um senhor chamado Jimi Hendrix, homem hábil como poucos no tratamento que empregava nas suas vistosas guitarras, que um dia, um certo dia, decidiu procriar com uma senhora que tinha nascido uns anos mais tarde e que se excitava quando ouvia os riffs platónicos lançados pelas assanhadas guitarras de senhores como Jimmy Page ou Eric Clapton, da altura dos Cream, ou daqueles solos blues bem arrojados de BB King. O fruto foi amadurecendo no ventre dessa senhora e foi colhido nove meses depois. Viu, pela primeira vez, a luz do dia com um cabelo à David Gilmour, sem que se pudesse concluir a sua cor de olhos ou se era enrugado na testa. Herdou do pai a agilidade nas mãos e a sapiência e robustez no tratamento das guitarras, da mãe herdou as influências que, em contacto com o meio envolvente, o formataram enquanto membro da integrante da sociedade. A sua adolescência foi passada a ouvir a aurora psicadélica que despontava na década de setenta. Por vezes, ia alternando-a com rock progressivo e de carácter mais pesado, mas eram sobretudo as alucinações que tinha ao ouvir a música embalsamada em psicadelismo que o fascinava: foi a partir daí que decidiu começar a agarrar-se à guitarra e a libertar camadas enérgicas de riffs monstruosos, confluindo sessentas e setentas em pleno século XXI como ninguém o fazia até então; escrevendo a sua própria ode ao berço do barulho.

Fechava-se em casa e em estúdio com a sua banda, os Radio Moscow, e condimentava autênticas pérolas como o homónimo de 2007 (Radio Moscow) e Brain Cycles. Em 2011, fez chegar até nós The Great Escape Of Leslie Magnafuzz, e já no ano passado brindou-nos com o desinspirado 3 & 3 Quarters. Depois de por cá terem passado em 2011, no Milhões de Festa, o encontro com os portugueses estava agendado para a noite de ontem, no Hard Club, num evento que iria ter como banda de abertura os portugueses Alto!.

 

CAPÍTULO 1 – A Introdução

Dentro do leque de bandas portuguesas, dificilmente se arranjaria uma que estivesse tão complanada com a principal ocasião da noite. Exactamente por isso, a introdução do romance foi narrada num timbre mui provocante pelos Alto!, banda que está ligada à barcelense Lovers & Lollypops. Os Alto! conservam inegavelmente bem a estética sonora e ética dos 70’s: riffs poderosos, teclas deslumbrantes, e em muito a fazer lembrar The Doors, e um frontman bem aprisionado ao microfone que assume uma prestação bastante teatral, provocadora e que berra, berra e berra. Desmancha-se em palco, de onde foge a sete pés para passear por entre o público causando estranho olhar alheio e, deste modo, captar a atenção do mesmo. A setlist para a noite de ontem incidiu maioritariamente no mais recente álbum da banda, o homónimo lançado no ano passado e que constou em vários tops nacionais. Para muita gente que não conhecia, os Alto! foram uma surpresa; para quem já sabia o que esperar, apenas uma certeza. E a verdade é que a noite tinha-se iniciado de uma maneira bastante positiva e calorosa. Prometedora. Agradeceram ao público e despediram-se sob imensas palmas.

 

A introdução estava dada: o principal motivo para a reunião que levou ao esgotamento da sala 2 do Hard Club em pleno dia de semana, dia de trabalho, era óbvio. Foi o rock, e enfatize-se o conceito de rock. Não era um rock plastificado e renovado, não era nada de novo: a crueza e a energia de ontem era aquela que se sentia há quarenta ou cinquenta anos atrás.

O capítulo segundo do romance, depois do primeiro ter sido cravado a tinta, ainda fresca, começou a esboçar-se com a aparição dos três personagens que compõem os Radio Moscow. Pensei que já estava cego porque vi três seres iguais, mas lembrei-me que não tinha feito nada que pudesse ter alterado o meu campo visual. De cabelos longos e soltos, sem que pudéssemos olhá-los nos olhos, trajados com camisas hippies e detentores de uma presença singular e elucidativa: a vanguarda leal do rock’n’roll estava de viagem ao Porto. Chegava o momento que todos ansiavam.

CAPÍTULO 2 – O Desenvolvimento e a acção

Começaram por agradecer o entusiasmo mal pisaram o palco com um “É muito bom estar de volta a Portugal!”, sempre ao leme da voz do incontornável Parker Griggs, o principal personagem de todo o enredo. E foi logo a partir da primeira música que começou a viagem, a acção principal: as ondas sonoras que a música dos Radio Moscow produzem é hipnótica e alucinante. O blues nunca foi tão intensamente visceral, tão capaz de nos siderar com uma simples batida demoníaca do baterista que abanava o capacete como se não houvesse amanhã, tão capaz de nos espantar e deixar boquiabertos com aquela linha de baixo tão fenomenal e magnetizante como aconteceu em Mistreating Queen, retirada do primeiro registo da banda. Ali, naquele power trio, tudo roçou a perfeição, mas quem não se consegui esquivar dela foi o egocentrismo do génio de Parker Griggs:

Nunca o egocentrismo de uma pessoa foi a sua maior qualidade. Em Griggs (não confundir com o jogador do Manchester United), tudo é ao contrário: aquele gajo pode partir guitarras nas cabeças dos seus bateristas à vontade e pode fazer tudo o que lhe der na cabeça enquanto tocar guitarra como toca. Ele é quem manda, ele é quem escreve, ele é quem toca guitarra e bateria e depois sobrepõe tudo num só (ou, pelo menos, já foi assim): ele é um génio da música rock, na sua verdadeira essência. Mas vamos por partes.

PARTE 1 DO CAPÍTULO 2 – AS DROGAS TAMBÉM SE OUVEM

Até à altura tinham-se repescado temas do esplendoroso Brain Cycles. Estávamos na terceira da música da noite quando reparei que estava efectivamente drogado. Eu tinha visões, via tudo a andar à volta e tudo às cores. Eram amarelas, verdes, vermelhas, azuis e laranja. Não paravam nem um momento, contrariamente ao que vou fazer agora com esta frase porque vou colocar-lhe um ponto final. Já está. Era estranho, só abanava a cabeça enquanto o Griggs lá dizia que não sabia que fazer consigo (traduzindo à letra aquela música), e via toda uma panóplia colorida a persuadir-me o cérebro, a fritar-me cada vez mais. Vinham os suores. Teimavam em não parar. O público só se abanava, eu imitava-os, parecia estar tudo drogado. Afinal não era só eu, estava tudo a ter visões. Estava tudo a bater mal. Fiquei feliz por não ser só eu. Enquanto me apercebia disso, reparei que, após a guitarra parar de soltar aquele fuzz capaz de despedaçar as nossas funções mentais, afinal não estava a ter visões nem muito menos estava drogado. As visões que tinha eram das projecções ultra-psicadélicas e em perfeita simbiose com a sonoridade que os Radio Moscow tinham ali em palco. As drogas, os ácidos, as tais alucinações de que tanto se embalsama a música deste trio.

 PARTE 2 DO CAPÍTULO 2 – GOSTO DA RÚSSIA

A Rússia sempre foi um país pelo qual nutri uma grande admiração. A dificuldade de pronunciar cada de nome de quem por lá habita é uma das coisas que mais me fascina no mundo, assim como a russa Maria Sharapova (que, por acaso, é um nome que até atira a minha teoria dos nomes um bocado por terra, mas pronto). Não faço ideia de como seja a rádio russa, nem quero saber. Muito menos a de Moscovo. Tudo o que de Moscovo interessa são os Radio Moscow. Moscovo pode ser uma cidade de merda, fria como tudo, onde neva toda o ano e onde reinem homens com nomes que derivem de “puto” mais o sufixo inglês que serve para dar a continuidade de uma dada acção que eu estou-me nas tintas. Fora filósofos, escritores, Pussy Riot e a Maria Sharapova, a única coisa que interessa e que meta a Rússia à mistura é esta banda.

 

PARTE 3 DO CAPÍTULO 2 – HENDRIX, USAIN BOLT E MARIA MUTOLA

Não tenho dúvidas em dizer que o pai de Parker Griggs é Jimi Hendrix. Também não tenho dúvidas que a mãe de Griggs gostava muito de Led Zeppelin ou Cream, como está escrito na parte inicial deste post. Isso é daquelas coisas que se sentem, tal como o amor. O amor aos riffs que ontem foi espalhado no Hard Club pelo maior de todos os romancistas dos riffs e dos solos de guitarra como se de S. Valentim se tratasse. Lançava as suas flechas quando soltava aquele monstruoso fuzz da guitarra e a partir daí espalhava-se o transe, e os sorrisos floresciam aos rostos das pessoas que preenchiam a sala em segundos. Despertava a paixão por aquela crueza e visceralidade tamanhas. O público delirava.

O que vocês não sabem é que Parker Griggs consegue ser o Usain Bolt da guitarra ao mesmo tempo que é a Maria Mutola. Confusos? É fácil: estar a dar-lhe ali na guitarra naqueles solos vertiginosos em que as mãos se aproximam da velocidade da luz durante mais de hora e meia, onde se recuperaram temas mais antigos como City Lights, I Just Don’t Know, Luckydutch, Deep Blue Sea e se tocaram temas mais recentes como Little Eyes, Insideout ou Speed Freak, é como ser uma fundista moçambicana campeã olímpica.

 

 

CAPÍTULO 3 – Conclusão

Foi com Insideup, do álbum The Escape Great Escape Of Leslie Magnafuzz, que os Radio Moscow se despediram do palco. Porém, o jogo de luzes anunciava que vinha dali um encore. Num dilúvio de palmas, os três gémeos, que só eram distinguíveis quando se agarravam aos seus instrumentos, voltavam ao palco para nos tocarem mais um par de canções. Griggs optou por apostar no memorável Brain Cycles, trazendo-nos duas das minhas músicas favoritas dos RM: 250 Miles e No Good Woman. Escusado é dizer como foram: dizer que foi do caralho é um eufemismo.

Depois de tudo o que se passou pelo Hard Club na noite de ontem, o que mais perdurou não foi certamente o que se aprisionou à nossa retina, mas sim o que se vestiu, sem de lá se querer desnudar, nos nossos tímpanos: desde o aquecimento proporcionado por uma belíssima e fálica (os que lá estiveram irão perceber) prestação dos portugueses Alto! até ao concerto absolutamente monumental que os Radio Moscow nos deram. Redigiu-se um romance ao rock, aos tempos setentistas e sessentista, mas, acima de tudo, fez-se uma ode à arte de tocar guitarra eléctrica. Podemos não ser contemporâneos de Jimi Hendrix, Frank Zappa ou Jimmy Page, mas convergimos temporalmente com o melhor de todos os aprendizes dos ensinamentos desses senhores. Parker Griggs é um génio da guitarra. Quanto aos Radio Moscow, chamem-lhe o que quiserem. Chamem-lhe blues, chamam-lhe blues psicadélico ou rock psicadélico que eles nunca serão nada mais senão a banda rock que o século XXI nunca teve. Ontem viveu-se um episódio de rock.

 

Vídeo do concerto:

*Artigo redigido, por opção do autor, ao abrigo do acordo ortográfico de 1945

Texto por Emanuel Graça, fotografia (e vídeo) por Gonçalo Loureiro