Apresentado pela embaixada da Suíça, Hell é a primeira incursão na longa-metragem de Tim Fehlbaum, realizador que vinha construindo o seu percurso artístico pelos formatos da curta-metragem e do documentário. O São Jorge foi, uma vez mais, testemunho do trabalho de novos valores do cinema de expressão alemã.

Não deixa de ser interessante reparar na crescente curiosidade que o cinema tem nutrido pela temática do Apocalipse e pelo fim do mundo. Desde o cinema dito comercial de Hollywood até ao menos conhecido realizador de cinema europeu, tem-se assistido a uma vaga de obras que têm relembrado ao grande público o imaginário coletivo do fim dos tempos, da civilização tal como a conhecemos ou, por outras palavras, a quebra da organização e da ordem social que nos vai permitindo construir as nossas vidas e nutrir legítimas expetativas de desenvolvimento pessoal com um mínimo de liberdade, segurança e justiça. Hell é mais uma destas propostas. Apresenta uma visão de um mundo destruído, caótico, anárquico, impiedoso e selvagem, centrado em duas jovens personagens femininas, acrescido de dois personagens masculinos que o enredo trata de gradualmente secundarizar. Trata-se fundamentalmente de uma luta pela sobrevivência, por recursos escassos, mas também pela confiança de quem está ao lado. Em situações limite, todos nos sentimos mais sozinhos.

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Sob a ameaça de uma exposição solar assassina, as irmãs Marie e Leonie, a par do namorado de Marie, Tom, lutam pela pura sobrevivência. No seu caminho cruza-se Philip, mas a relação entre o quarteto principal permanece frágil. A aventura prevê-se terrível e o destino do grupo uma perigosa incógnita, até que uma cilada os conduz às mãos de uma família com métodos de sobrevivência… pouco ortodoxos.

Acontece que Hell é um melting pot de influências encaixadas à força, que disfarça mal os inúmeros lugares-comuns em que cai repetidamente. Ao longo de hora e meia de filme vêm à memória muitas obras – boas e más – às quais Hell vai beber, transformando as influências em flashes que, além de indisfarçáveis, lhes falta a qualidade devida. É como que uma mistura de filmes como 2012, Mad Max, Hostel ou The Road, para citar apenas alguns, cujo produto final é uma aventura mais ou menos alucinante, mas com pouquíssima substância para além do fetichismo clássico emanado da figura da menina bonita e sexy a fugir dos maus.

O grande problema é que há um claro predomínio (e por conseguinte um notório desequilíbrio) entre a forma e o conteúdo: parece haver “cinema” suficiente em Hell que justifique a hora e meia, ou não estivéssemos perante uma obra bem montada, filmada em constante desassossego (estratégia que, para todos os efeitos, lhe confere um ritmo entretido de seguir). Quanto ao conteúdo, é pobre, pouco inovador e, pior que tudo, fatalmente previsível no último terço da história, numa altura crucial em que ainda se poderia esperar um volte-face que enriquecesse a intriga e a emotividade. Infelizmente, isto não aconteceu, e Hell é pouco mais do que um exercício inconsequente mas que, apesar de tudo, faz transparecer alguma qualidade ao seu realizador e a alguns dos intérpretes.

É o que pode ser dito de um filme que não pode aspirar a mais do que a mera pretensão de ganhar um lugar respeitoso dentro do seu género.

 

5.5/10

Ficha Técnica:

Título original: Hell

Realizado por: Tim Fehlbaum

Escrito por: Tim Fehlbaum, Oliver Kahl, Thomas Wöbke

Elenco: Hannah Herzsprung, Stipe Erceg, Lisa Vicari, Lars Eidinger

Género: Thriller, Ficção-científica

Duração: 89 minutos