Rebeldia punk, miúdas sexy, rock’n’roll e desleixo: A ousadia é das Anarchicks. Se julgavam que a aliança punk-rock-sensualidade havia morrido por entre as espécies femininas que habitam pequena província portuguesa, então desenganem-se; com o álbum Really?!, reconstruíram o sonho de qualquer homem que se vigore pela lei do rock’n’roll.

Really?! é fresco, lançado pela Chifre há apenas uns dias. O interesse pela girlsband sempre existiu, mas explodiu abruptamente com o lançamento do videoclip de Restraining Order, lançado com o carimbo Antena 3.

É inevitável que existam sempre motivos de interesse quando quatro raparigas sexy se juntam para fazer alguma coisa, mas quando se reúnem para produzir música a coisa toma outras dimensões; mais interessante fica quando sabemos que o que essas quatro raparigas vão fazer não é pop foleira das décadas de 80 ou pegar em guitarras e começar a fazer covers de músicas de Ornatos Violeta ou The Beatles (isto para não falar no lado obscuro do mundo), mas sim para nos dar toda a pujança do punk-rock. Aqui o caso fica sério e isso que faz com que o primeiro álbum de estúdio das Anarchicks comece a andar de boca em boca.

Really?! inicia-se com Forever e desde logo sentimos a energia bem doseada na sonoridade da banda. Ao longo do registo e no que toca à génese instrumental, as guitarras mostram-se sempre vivaças e bem afiadas, a bateria bastante enérgica e pujante, a linha de baixo presente e salientada pela sua importância mais atmosférica, e os sintetizadores vão ajudando a efervescer o nosso aparelho auditivo. A nível vocal, há imperfeição e desleixo propositado que fazem jus às letras; sempre enaltecedoras de tamanha rebeldia, ousadia e ritmadas pelo esqueleto provocador e hipnótico.

Nem sempre o primeiro álbum de estúdio da banda consegue ser tão apelativo. Há falhas que devem ser registadas e alguns momentos de falta de inspiração, como acontece em Sunset Graveyard e Son Of A Beat, que fazem com que Really?! se revele algo inconsistente e desconexo. Porém, a quantidade avultada de aspectos positivos que podemos apreciar no registo é infinitamente superior a esses mesmos defeitos: desde a monumental Kinda Do, Kinda Don’tque é basicamente um “Ou é à minha maneira ou vai haver merda através do riff monstruoso e do berro estridente e agreste, numa música tão à Flux = Rad, dos Pavement – a músicas incrivelmente intensas e com texturas catchy a confluírem-se lá pelo meio como, por exemplo, Siouxsie In The Box e Dance ou o videoclip do musicão que é Restraining Order, que hipnotiza ouvido e olho alheio.

No fundo, Really?! não passa de um exercício excitante, sob um falso glamour que não consegue deixar ninguém incólume. Pode não ser musicalmente perfeito, mas a sua sensualidade e o seu atrevimento fazem aqui com que o desleixo minimalista consiga passar completamente ao lado. Para um álbum de estreia, estão de parabéns. E são já a minha girlsband favorita do mundo (com mais de dois elementos).

Classificação Final: 7.8/10

*Artigo redigido, por opção do autor, ao abrigo do acordo ortográfico de 1945