01

KINO 2013: Barbara

O Cinema São Jorge serviu de palco à abertura da KINO – Mostra de Cinema de Expressão Alemã, na passada quinta-feira. Apoiado pelo Instituto Goethe, o evento promete até dia 3 de fevereiro trazer a Lisboa o que de melhor tem para mostrar a mais recente produção cinematográfica de Alemanha, Suíça, Áustria e Luxemburgo. Os três últimos dias do festival reservam um best of deste certame, que celebra este ano o seu 10º aniversário.

Barbara, de Christian Petzold, foi o filme escolhido para abrir o evento, perante uma plateia do São Jorge praticamente lotada. Uma abertura auspiciosa que faz antever um excelente festival.

Barbara é uma mulher dividida, como dividido é o país que habita. Numa Alemanha de leste mergulhada num férreo regime autoritário, uma médica é forçada a deslocar-se para a província como punição pela tentativa de passar para o lado ocidental. Na outra Alemanha, na capitalista, vive o seu namorado, que a visita regularmente em incursões sigilosas.

A convivência com um colega médico fá-la vacilar. Barbara fecha-se sobre si própria, e luta contra a amargura interior de viver num país claustrofóbico, impessoal e sombrio. O filme move-se na viragem da perceção de Barbara sobre as suas possibilidades de futuro no lado errado da Alemanha. Mas o que inicialmente parece a saída óbvia para a sua vida, torna-se subitamente numa dolorosa dúvida, não só devido à crescente empatia para com o colega, mas também devido à constatação de que a sua presença faz a diferença na vida destroçada de uma jovem institucionalizada. O dilema de Barbara é profundo e dramático: pode o amor prevalecer sobre o ambiente político e social? Pode uma pessoa negar os seus sentimentos pelo desejo de fuga para a liberdade? Será esta uma troca com sentido? A mutação da personagem principal revela a resposta: não há felicidade sem amor.

barbara

O caminho que aqui vem desembocar é, assim delibera a narrativa, tudo menos óbvio. Petzold não é inteiramente exímio na sua estratégia narrativa ao conferir uma subliminar mudança de postura em Barbara. Se de início transparece uma imagem de alheamento da realidade que a rodeia, Barbara torna-se permeável à mesma, despoletando um conflito interior que ela não esperava nem desejava. Petzold conserva contudo uma certa inocuidade na confrontação desta com o seu namorado, a relação entre os dois é mais um “postalinho” ilustrado de uma cidade romântica do que uma relação a tentar sobreviver a uma ditadura comunista. É certo que se trata fundamentalmente da exploração de um dilema interior, mas que dizer das circunstâncias que cimentam a anterior relação – e, já agora, como enquadrar o regime quase autoritário em que esta tem lugar? A Stasi não era a única ferramenta ao serviço do regime, nem seria talvez o mais relevante nesta situação, pois não há no filme um vislumbre, para além da escuridão e do vazio do hospital, de mais nada que confira ao volte-face de Bárbara uma explicação mais óbvia que o amor. Resumindo: não seria esta uma história que aconteceria em tantos contextos? A narrativa de Petzold não atribui a esta ingredientes suficientes que surpreendam e estimulem.

Num mundo sem liberdade, há poucos canais de fuga para este conflito interior. O seu colega é a resposta. Meigo, compreensível, sensível e prestável, ganha o coração de Barbara, vencendo o medo e o receio de permanecer em tão cinzenta realidade.

Barbara é um filme que vem recordar a força dos sentimentos e dos dilemas psicológicos inerentes à fragilidade da condição humana. Um filme subtil, escorreito, se bem que austero na linguagem e na construção fílmica. Sublinha a importância dos nossos códigos de valores na conduta que devemos assumir, e é uma lição acerca da necessidade de retirar pressão dos ombros na altura de tomar decisões difíceis. Um filme sobre um mundo cada vez mais distante e pouco familiar às novas gerações europeias, mas sobre dilemas e contradições que ainda afetam muitas “Barbaras” deste planeta.

6.5/10

Ficha Técnica:

Título original: Barbara

Realizado por: Christian Petzold

Escrito por: Christian Petzold, Harun Farocki

Elenco: Nina Hoss, Ronal Zehrfeld, Rainer Beck, Jasna Fritzi Bauer

Género: Drama

Duração: 105 minutos

Zeen is a next generation WordPress theme. It’s powerful, beautifully designed and comes with everything you need to engage your visitors and increase conversions.

Mais Artigos
Catarina Furtado
Catarina Furtado procura histórias inspiradoras em novo programa da RTP