O Cinema São Jorge serviu de palco à abertura da KINO – Mostra de Cinema de Expressão Alemã, na passada quinta-feira. Apoiado pelo Instituto Goethe, o evento promete até dia 3 de fevereiro trazer a Lisboa o que de melhor tem para mostrar a mais recente produção cinematográfica de Alemanha, Suíça, Áustria e Luxemburgo. Os três últimos dias do festival reservam um best of deste certame, que celebra este ano o seu 10º aniversário.

Barbara, de Christian Petzold, foi o filme escolhido para abrir o evento, perante uma plateia do São Jorge praticamente lotada. Uma abertura auspiciosa que faz antever um excelente festival.

Barbara é uma mulher dividida, como dividido é o país que habita. Numa Alemanha de leste mergulhada num férreo regime autoritário, uma médica é forçada a deslocar-se para a província como punição pela tentativa de passar para o lado ocidental. Na outra Alemanha, na capitalista, vive o seu namorado, que a visita regularmente em incursões sigilosas.

A convivência com um colega médico fá-la vacilar. Barbara fecha-se sobre si própria, e luta contra a amargura interior de viver num país claustrofóbico, impessoal e sombrio. O filme move-se na viragem da perceção de Barbara sobre as suas possibilidades de futuro no lado errado da Alemanha. Mas o que inicialmente parece a saída óbvia para a sua vida, torna-se subitamente numa dolorosa dúvida, não só devido à crescente empatia para com o colega, mas também devido à constatação de que a sua presença faz a diferença na vida destroçada de uma jovem institucionalizada. O dilema de Barbara é profundo e dramático: pode o amor prevalecer sobre o ambiente político e social? Pode uma pessoa negar os seus sentimentos pelo desejo de fuga para a liberdade? Será esta uma troca com sentido? A mutação da personagem principal revela a resposta: não há felicidade sem amor.

barbara

O caminho que aqui vem desembocar é, assim delibera a narrativa, tudo menos óbvio. Petzold não é inteiramente exímio na sua estratégia narrativa ao conferir uma subliminar mudança de postura em Barbara. Se de início transparece uma imagem de alheamento da realidade que a rodeia, Barbara torna-se permeável à mesma, despoletando um conflito interior que ela não esperava nem desejava. Petzold conserva contudo uma certa inocuidade na confrontação desta com o seu namorado, a relação entre os dois é mais um “postalinho” ilustrado de uma cidade romântica do que uma relação a tentar sobreviver a uma ditadura comunista. É certo que se trata fundamentalmente da exploração de um dilema interior, mas que dizer das circunstâncias que cimentam a anterior relação – e, já agora, como enquadrar o regime quase autoritário em que esta tem lugar? A Stasi não era a única ferramenta ao serviço do regime, nem seria talvez o mais relevante nesta situação, pois não há no filme um vislumbre, para além da escuridão e do vazio do hospital, de mais nada que confira ao volte-face de Bárbara uma explicação mais óbvia que o amor. Resumindo: não seria esta uma história que aconteceria em tantos contextos? A narrativa de Petzold não atribui a esta ingredientes suficientes que surpreendam e estimulem.

Num mundo sem liberdade, há poucos canais de fuga para este conflito interior. O seu colega é a resposta. Meigo, compreensível, sensível e prestável, ganha o coração de Barbara, vencendo o medo e o receio de permanecer em tão cinzenta realidade.

Barbara é um filme que vem recordar a força dos sentimentos e dos dilemas psicológicos inerentes à fragilidade da condição humana. Um filme subtil, escorreito, se bem que austero na linguagem e na construção fílmica. Sublinha a importância dos nossos códigos de valores na conduta que devemos assumir, e é uma lição acerca da necessidade de retirar pressão dos ombros na altura de tomar decisões difíceis. Um filme sobre um mundo cada vez mais distante e pouco familiar às novas gerações europeias, mas sobre dilemas e contradições que ainda afetam muitas “Barbaras” deste planeta.

6.5/10

Ficha Técnica:

Título original: Barbara

Realizado por: Christian Petzold

Escrito por: Christian Petzold, Harun Farocki

Elenco: Nina Hoss, Ronal Zehrfeld, Rainer Beck, Jasna Fritzi Bauer

Género: Drama

Duração: 105 minutos