Vou dedicar a crónica desta semana a um tema que me é especialmente querido e no qual tenho também tomado parte ativa desde que me iniciei nas artes da escrita. Falo dos tão conhecidos e tão explorados blogues que proliferam pela internet como cogumelos selvagens numa floresta fecunda.

O motivo da minha abordagem a este tema prende-se com a larga utilização que este tipo de ferramentas web tem conhecido, não só na escrita como em todas as áreas da vida e do saber. Faço-o também porque, em crónicas passadas, tenho vindo a referir várias vezes o impacto manifestamente positivo que os blogues podem ter na divulgação do trabalho literário, dos seus autores, dos seus editores, das suas editoras, entre outros agentes relacionados com o mundo do livro. Mais do que a autopublicação, tão em voga nos dias de hoje, acredito que os blogues são o elemento central para a democratização da escrita e da leitura em todo o mundo. A razão por que escrevo sobre este assunto agora está diretamente ligada ao concurso “Blogs do ano 2012” promovido pelo blogue Aventar, um concurso que já vem ganhando alguma exposição mediática entre os utilizadores da internet e que aparece como o gatilho perfeito para me fazer partilhar algumas das minhas ideias sobre o assunto.

O maior atrativo dos blogues é facilidade da sua construção e manutenção que não requer quaisquer conhecimentos de programação nem envolve operações complicadas. Assim, qualquer pessoa com capacidade e interesse em produzir conteúdos escritos, fotográficos ou audiovisuais pode utilizar estas páginas web que depois se sincronizam de forma muito competente com as redes sociais, tornando o conteúdo viral. Temos a receita de sucesso para novos autores que sonham em lançar-se no mundo da publicação. Nos dias de hoje, com as finanças tão em baixo em todos os setores, nenhum editor irá apostar num novo autor se ele não tiver já dado provas da sua aceitação pelo público. Noutras crónicas irei falar das várias formas que um autor tem para se autopromover e chamar atenção para o seu trabalho, mas hoje focar-me-ei no blogue.

Dado o número exorbitante de blogues que existem na internet sobre os mais variados assuntos, há uma questão ainda não compreendi: por que razão os autores não apostam mais neste meio para divulgar o seu trabalho? É fácil e rápido de utilizar, possibilita a criação de pequenos textos que servem como teaser para que os leitores comprem os seus livros, possibilita que a imagem do autor e o seu trabalho se tornem virais e permite que os leitores mais interessados sigam automaticamente os conteúdos do blogue. Parece-me ser o paraíso para a divulgação literária e, no entanto, verifica-se uma escassez de blogues deste género.

Aproveito para chamar aqui o referido concurso “Blogs do ano 2012” do blogue Aventar que propicia uma votação do público para encontrar os blogues do ano em várias categorias (aconselho a todos a visitarem a votação e os blogues que por lá se encontram, são do melhor que se faz em Portugal). Uma análise aos concorrentes nas categorias relacionadas com a escrita, publicação, livros, etc. revela que a maioria dos blogues a fazer sucesso entre os utilizadores são de análise literária e não de produção da mesma. Uma pesquisa no Google sobre o assunto revela os mesmos indicadores.

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Não quero que me interpretem mal, como já tem acontecido em crónicas passadas, eu não estou a dizer que não existem blogues de produção literária em Portugal. Existem e alguns até com qualidade irrepreensível. Quero é chamar aqui a atenção para o facto de os blogues de análise literária estarem a ter mais sucesso e a aparecerem com mais frequência do que os outros. Será que os autores e os respetivos editores ainda não compreenderam as vantagens deste tipo de meios, marketing fácil, barato e com um impacto muito mais positivo do que o típico anúncio, uma vez que se está a criar conteúdos? Ou será que já compreenderam mas que não se está a divulgar da forma correta estas páginas? E o autores não publicados (a interrogação é a mesma…)? Seja como for, penso que o problema está no modo de abordagem à literatura. Apesar da proliferação de meios e técnicas inovadoras e democratizadoras desta área, o meio ainda está muito elitista e fechado. Culpa das editoras, culpa dos editores, culpa dos autores e, sobretudo, culpa dos leitores que se acomodaram ao modo antigo de se fazer as coisas.

Sem qualquer juízo de valor, que não é o meu objetivo para esta crónica, quero apenas chamar a atenção para esta realidade e deixar nos leitores esta interrogação: o que está a falhar?