A viagem no tempo não é assim tão grande, por mais longínquo que o final da década de 1960 possa parecer. Abrem-se as portas de Casas Pardas, peça que esteve em cena no S. Luiz Teatro Municipal, em Lisboa.

Um elenco de onze atores, dirigidos pelo encenador Nuno Carinhas, conduz-nos ao longo desta descoberta da obra de Maria Velho da Costa, distinguida em 1977 com o Prémio Cidade de Lisboa e adaptada agora ao teatro por Luísa Costa Gomes.

As traves de madeira são os pilares de um cenário que pouco muda ao longo da peça. Símbolos de estruturas rígidas que marcam a capital e o próprio país na década de 60, mergulhado na ditadura do Estado Novo. Modesta, a luz marca a sua presença, sem nunca exagerar a carga dramática.

Ainda assim, as mudanças vão acontecendo – sorrateiras -, quebrando com as correntes que amarram as vidas das personagens. São diferentes as classes sociais que se apresentam em palco e que acabam por se cruzar. O que parecia tão afastado tem afinal uma ligação simples e precisa nos compartimentos de uma casa burguesa onde a estabilidade há muito deixou de reinar.

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A decadência, a morte e o vício tomam conta desta casa que se apresenta em palco. A desunião familiar é uma presença constante ao longo das décadas, não seguindo uma ordem cronológica precisa. A história avança e recua no tempo com uma clareza invulgar apoiada nas grandes interpretações e metamorfoses dos atores.

Mas mesmo na queda, há novos valores que se levantam – entre eles, o que é ser mulher e o papel destas na sociedade. Assistimos à história de duas irmãs com personalidades tão diferentes e às consequências da forma como se apresentam ao mundo. Aí a resposta de quem as rodeia é completamente diferente. Beleza versus inteligência, objetivos versus vazio, mudança versus inovação, o amor versus a ausência – num confronto cujas respostas não chegam.

Apesar de nenhuma interpretação dos onze atores desiludir, o destaque vai sem dúvida para Anabela Teixeira e Leonor Salgueiro, nos papéis das irmãs Mimi e Maria Elisa. Se Anabela Teixeira nos traz a personificação da beleza em decadência e da falta de amor – culminando numa cena de suicídio cuja morte é anunciada sobretudo pelas palavras sofridas – Leonor Salgueiro traz-nos a mudança, a imaginação, os objetivos e a beleza do texto projetado em alto e bom som, numa mulher que foge aos padrões e ousa ir mais longe.

Toda a história é envolta em música, não deixando contudo que esta tome a dianteira. Compõe-se o ambiente com a música que chega aos nossos ouvidos e que nos traz referências como A Garota de Ipanema, Beatles, Ella Fitzgerald ou até mesmo o tema de abertura do filme de 1968 de Stanley Kubrick, 2001: Odisseia no Espaço.

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O texto de Maria Velho da Costa sabe sempre a poesia até nas frases mais simples e diretas. Complexo e por vezes difícil de descodificar – abrindo espaço para a multiplicidade de sentidos –, à medida que cada personagem o vai desenrolando torna-se mais prazeroso de escutar. Repleta de laivos de humor e ironia, a palavra é a atriz principal desta peça, levada mais longe pela interpretação dos atores.

Fica uma mensagem de esperança de que é possível mudar mesmo no meio de todo um cenário de aprisionamento e decadência. É possível conciliar o tradicional com o que vem rasgar com ele. É possível abrir as portas de casa e deixar que o vento da mudança refresque o ar.

Hoje também é preciso voltar a abrir as portas das casas e deixá-las inovar.

Fotografias: Teatro Nacional São João