Pouco passava da hora agendada para o início do espetáculo, bem anunciada ali ao lado do edifício pelos sinos da igreja que faziam soar nitidamente as 21:30h, quando o silêncio se alojou na multidão que compunha a moldura para o concerto de Patrick Wolf: o apagar das luzes ditou um profundo vazio sonoro por entre a plateia até que a figura sempre marcante do músico britânico foi inundada com tamanha chuva de palmas.

Os primeiros agradecimentos do músico ao público foram feitos através de simples gesticulações, e, de imediato, fomos lançados ao universo paralelo de Wolf: um mundo reinado pela exuberância pop, pela genialidade musical, pela sua habilidade em se desmembrar por uma vasta panóplia instrumental, pela sua perfeição vocal e por lirismos sempre retirados de colheitas quotidianas e sentimentais, que estão sempre em plena simbiose com catástrofes amorosas ou criações de alter-egos para se apaziguar a si mesmo.

Nesta noite fria de quinta-feira, Patrick Wolf iria apresentar o seu mais recente registo: Sundark And Riverlight, álbum gravado em 2012 que celebra a sua primeira década de carreira e que reúne versões acústicas dos seus maiores êxitos; desde temas de The Magic PositionWind The Wires.

A primeira música da noite a ser tocada foi Bitten, com Patrick Wolf a assumir o controlo do piano e a chefiar sempre a vasta diversidade de instrumentos com que a sua banda composta por três elementos ia lidando. De seguida, chegou até nós a memorável House, antecedendo ao primeiro ponto alto da noite rubricado com Hard Times; uma música que vinca uma posição política de Wolf, um Wolf já abraçado à sua guitarra, uma música onde se diz farto dos constantes esforços financeiros a que os europeus se têm submetido e que, sobretudo, não vê hora destes tempos difíceis aniquilarem de uma vez por todas aquilo que tem destruído a vida de tanta gente e a que usualmente apelidamos de crise. Talvez por isso, esta música tenha sido dedicada aos portugueses e a Portugal. O público reagiu com palmas.

Depois da interpretação soberba de Hard Times, chegava Wind The Wires, uma música embalsamada em arranjos rítmicos e esboçada por sorrisos catalisados pela ambiência fresca, ousada e vivaça entre as guitarras, o acordeão e pela profundidade vocal de Patrick Wolf, rubricando-se um ponto do concerto ainda maior que em Hard Times. O concerto ia de vento em popa (e íamos somente na quarta faixa), mas foi a partir desta altura que se começou a ter uma ambiência menos envolvente e apelativa: tocaram-se músicas como The Libertine, Teignmoth ou The Sun Is Often Out, que “é uma espécie de homenagem a um livro de poesia de Stephen Vickery”, mas é certo que aqui nem sempre assistimos a um Patrick Wolf inspirado; por vezes a música morria e acabava por ser fácil não notar uma quebra de qualidade naqueles momentos do espetáculo.

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O concerto voltou a melhorar com Tristan, com Wolf novamente de guitarra ao peito. Vulture, Time Of My Life e Paris, uma das mais belas música com que Patrick Wolf alguma vez nos brindou e sobre a qual discursou durante um par de minutos e rematou dizendo “pronto, é agora que fodo tudo”, seguiram-se-lhe no alinhamento. Logo de seguida, Patrick Wolf voltou a falar à plateia: “Bem, não tenho mais nenhuma música na minha lista. Podem ver a playlist, não está lá mais nada, portanto, quero sugestões”. O público lá lhe fez a vontade, tal como ele fez ao público. E vice-versa. Ou não.

E eis que se preparava a interpretação da última música do concerto, mas não sem que Patrick Wolf cuspisse umas palavras: “Esta música é dedicada a todos aqueles que não têm medo de assumir a sua sexualidade, mas que, acima de tudo, têm orgulho nela”. Vinha dali o malhão Magic Position, e as memórias das desavenças do artista pop com uma dada editora por causa das questões da sexualidade de Patrick estavam bem presentes. O público aplaudiu efusivamente a actuação e o seu discurso, mas o jogo de luzes antecipava o encore: o desenlace da visita do músico britânico a solos aveirenses deu-se com The City.

Não tendo sido um concerto perfeito, no fim, e ainda com o barulho das palmas a ecoar-se pelos ouvidos, fica a certeza que Patrick Wolf é um dos maiores e mais versáteis artistas pop contemporâneos. Dilacera-se sapientemente entre a guitarra, o piano ou a harpa, a crueza lírica, a perfeição vocal e cria música pop como poucos a fazem e como ela deve ser. É certo que nunca fui grande fã da sua obra, mas acontece que ontem decidi ir ver um concerto seu. E ainda bem. Até uma próxima.

Agradecimentos ao Mantino Costa e ao José Duarte Pereira.

*Artigo redigido, por opção do autor, ao abrigo do acordo ortográfico de 1945