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A loucura e os sonhos do Desfado

Ana Moura trouxe ontem ao Coliseu dos Recreios muitos fãs, ainda que o recinto não estivesse a abarrotar, a afluência foi muita o que emocionou a fadista. Começou o concerto a agradecer esta “prenda” e demostração de amizade para com  ela e a sua música, “em tempos tão difíceis para todos nós”.

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Este concerto seria maioritariamente dedicado ao seu mais recente trabalho Desfado como já se esperava, mas nem por isso a fadista deixou algumas surpresas de parte, cantando a meio do concerto temas como os Búzios, do álbum de 2007 Para Além da Saudade, enquanto perguntava ao público animado “Será que alguém consegue cantar comigo o refrão desta música?”  A resposta não podia ter sido mais positiva.

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Mas retomemos ao início. Após uma recepção calorosa do seu público, a primeira canção entoada pela belíssima voz de Ana Moura foi Quando o Sol Espreitar de Novo, tema com letra de Manel Cruz, a quem ela muito agradece, para o seu álbum Desfado,  aqui refere ainda o grande concerto dos Ornatos Violeta, naquele mesmo coliseu, em Outubro, o que arrancou muitos aplausos à plateia. Em seguida cantou Havemos de Acordar e Amor Afoito,  o primeiro com letra de Pedro Martins da Silva (Deolinda) e o segundo tema com letra de Nuno Figueiredo e música de Jorge Benvinda (Virgem Suta). É aqui que a cantora se volta aos presentes a agradecer a presença e generosidade de todos aqueles que vieram vê-la. É muito interessante notar que uma voz que nos parece tão forte e potente a cantar demonstre esta grande humildade e até timidez nos seus inúmeros agradecimentos. Prova disso foi a próxima canção, que Ana Moura refere como tendo muito a ver com ela, uma letra que Luísa Sobral musicou de um poema do seu avô (que escrevia muito para fadistas) – A Minha Estrela.

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Foi nas canções seguintes que o Coliseu, apesar de sentadinho nas cadeiras, acordou. Isto porque a plateia era composta por pessoas mais idosas (mas cheias de genica) e mais jovens, que apreciam fado e estas suas variâncias. Acima de tudo o público aprecia a simplicidade de Ana Moura, o sentimento com que ela canta fados dolorosos e de amores passados como, por exemplo, Caso Arrumado (de Leva-me aos Fados, de 2009) ou Porque Teimas Nesta Dor (também fora do Desfado). É maravilhosa a cantar A Fadista, que é o que Ana Moura se sente, nas suas palavras “revejo muito das características das fadistas em mim”.  Explica ainda o tema Espelho de Alice, letra de Nuno Miguel Guedes, que acaba por ser um tema central do disco Desfado, uma vez que explica e resume em duas palavras o que foi esta mudança e evolução na sua carreira: tem o seu quê de sonho e de loucura “por arriscar tanto”, diz a fadista. E é com a temática de Alice no País das Maravilhas, um conto conhecido por todos, que a fadista se exprime. Há espaço para agradecer ainda à “colega do ramo” Aldina Duarte pelo tema Se um Anjo Viesse. A meio de uma destas canções conseguiu-se ouvir um coro de vozes vindas dos camarotes que diziam “És linda!” em plenos pulmões, piropos que fazem a cantora rir e agradecer.

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Neste momento, a fadista diz que traz consigo um convidado muito importante, uma vez que toca com ela mesmo antes do seu primeiro álbum conhecido. José Elmiro Nunes sobe ao palco com a sua viola e a fadista não se poupa em elogios, referindo ainda que ele toca  lindamente também baixo e guitarra portuguesa, um músico incrível. Juntos seguem em dueto (sozinhos no palco) com Venho Falar dos Meus Medos. Depois de se despedir do amigo e músico com um abraço apertado a fadista retoma com a sua banda cantando Despiu a Saudade, tema com letra do “grande músico” António Zambujo, nas suas palavras e “para as meninas, um grande borracho!”, frase que arranca risos da plateia. Segue-se a não menos bela melodia de Até ao Verão, escrita por Márcia Santos e Búzios, um dos momentos altos da noite (como já foi referido).

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De destacar, sem dúvida,  o momento de Case Of You, canção de Joni Mitchell interpretada por Ana Moura, que consegue ser tão emocionante como o registo da cantora original. “You’re in My blood like holy wine/ You taste so bitter and so sweet. I could drink a case of you, darling/ and I would still be on my feet./ I would still be on my feet“. Um momento arrepiante, no bom sentido.

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No final, a fadista demonstra o seu verdadeiro dom: a generosidade para com o seu público. Não, Ana Moura não é daquelas vedetas que não se mistura com os seus ouvintes e, depois de ter cantado Como Nunca Mais (Tozé Brito), desce do palco e junta-se ao público, dando beijos e abraços a todos os que consegue, agradecendo a presença de todos e cada um, por entre o refrão de Fado Alado, belíssima letra de Pedro Abrunhosa. Houve lugar como seria de esperar para cantar o tema que dá nome ao álbum, mesmo mesmo no desfecho do concerto, Desfado teve coros de vozes a acompanhar. Mas Ana Moura voltou ainda e presenteou a plateia com Loucura e E Tu Gostavas de Mim, tema com letra de Miguel Araújo Jorge, efusivamente recebido. Despediu-se com Leva-me aos Fados e Fadinho Serrano, temas tão apreciados pelo seu público e tão bem escolhidos para uma noite como esta em que FADO continua ser a palavra de ordem pois o prefixo des-, desta vez, é uma afirmação.

Fotografias: Rita Sousa Vieira

 *Artigo redigido, por opção da autora, ao abrigo do acordo ortográfico de 1945

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