Violência, vingança, amor, coragem e muito sangue marcam o regresso de Quentin Tarantino. Original no meio de tantas referências e homenagens, Django Libertado tem presentes em si todas as marcas do realizador. Polémico, como não poderia deixar de ser, Tarantino afirma-se mais uma vez como o excelente autor que é, e prova que da sua mente e mãos nunca sairá um mau filme, bem pelo contrário.

Depois de Sacanas sem Lei (2009), o realizador volta a situar o seu filme num local e época históricos precisos, neste caso, no final do século XIX, dois anos antes da Guerra Civil, no sul dos Estados Unidos, onde a escravatura estava no seu auge.

O mais recente filme de Quentin Tarantino conta a história de Django (Jamie Foxx), um escravo comprado por Dr. Schultz (Christoph Waltz), um ex-dentista e caçador de recompensas alemão, que quer a sua ajuda na captura dos irmãos assassinos Brittle. O seu sucesso leva o dentista a libertar Django, mas os dois decidem, ainda assim, permanecer juntos, perseguindo os criminosos mais procurados do sul. No entanto, Django está concentrado em outro objectivo: encontrar e resgatar Broomhilda (Kerry Washington), a sua mulher, que perdeu no comércio de escravos. E é nesta busca que Schultz e Django chegam a Calvin Candie (Leonardo DiCaprio), o proprietário de Candyland, uma plantação onde os escravos são preparados para lutarem entre si…

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Para além das recorrentes referências aos clássicos do cinema, Django Libertado faz uma forte homenagem, assumida logo desde o nome do protagonista (que por sua vez o partilha com a longa-metragem), ao sub-género cinematográfico western spaghetti, muito em voga nos anos 60, popularizado por Sergio Leone. Em 1966, Sergio Corbucci realizou Django, fonte de inspiração para Quentin Tarantino criar o seu Django Libertado, e lhe dar a merecida distinção – quer ao filme de Corbucci, quer ao sub-género em que este se insere. Franco Nero, o Django de 1966, tem uma participação especial ao lado no novo Django, Jamie Foxx; a abertura dos dois filmes é muito semelhante, e ambos partilham temas na banda sonora, cenários idênticos ou a própria violência.

Por outro lado, também presente está uma homenagem a outro sub-género cinematográfico, o blaxploitation, popularizado nos anos 70, caracterizado pelo seu elenco ser constituído maioritariamente por actores negros e pela utilização de linguagem agressiva e calão, especificidades que encontramos igualmente em Django Libertado. Há ainda uma referência (na personagem de Broomhilda) a John Shaft, conhecida personagem do género blaxploitation, bem como, por exemplo, ao filme Mandingo.

Para além das referências à história do cinema (que Tarantino faz sempre questão de não descurar), certo é que o argumento contém toda a singularidade e força que distingue o realizador e argumentista. A temática da escravatura e da emancipação de um ex-escravo, aliadas à violência que o filme comporta, podem ser polémicas para alguns, mas toda a construção da história, os excelentes diálogos, as paródias mais ou menos evidentes, o clímax e a conclusão só provam como Django Libertado é um grande filme, onde não se dá pelo tempo passar (e são 165 minutos).

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A história de amor de Django e Broomhilda, inspirada na lenda alemã que o próprio Dr. Schultz conta ao protagonista e à plateia, vem talvez amenizar essa mesma violência de que tanto se tem falado. Tudo o que Django faz é por amor, sem nunca se cair em qualquer tipo de melodrama.

As personagens e, claro, os actores que as interpretam, são mais um ponto forte da longa-metragem. Django é uma espécie de anti-herói, que mata, sim, mas sempre fiel às causas que defende e pessoas que ama. A vingança comanda grande parte das suas atitudes, mas a justiça e o amor também. Jamie Foxx veste a pele deste protagonista de peso e está verdadeiramente à altura do nome que defende. Por seu lado, Christoph Waltz é uma das grandes estrelas do filme, com o seu Dr. Schultz, caricato, destemido e, pode dizer-se, surpreendente. O actor, nomeado para o Oscar de melhor actor secundário, e que já conquistou o Globo de Ouro na mesma categoria, merece todas as distinções. Schultz diverte-nos e cria, desde logo, empatia. Calvin Candie terá sido um grande desafio para Leonardo DiCaprio, que vemos longe do que estamos habituados, mas que nem por isso lhe valeu a nomeação par o Oscar. Calvin é um dandy sádico, que se diverte perante as mais agonizantes situações.

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Um tanto inesperada é a personagem interpretada por Samuel L. Jackson (colaborador assíduo de Tarantino), Stephen, o criado negro de Calvin Candie com uma atitude muito caricata. Jackson oferece-nos momentos hilariantes e foi também injustamente esquecido nos Oscares. Ainda de destacar é Broomhilda, a escrava que fala alemão, por todos os paradoxos que detém em si, e que conta com um interessante desempenho de Kerry Washington.

Tecnicamente, Tarantino é fiel a si mesmo, com uma realização sempre de excelência, desta vez com todo um visual de western, que vai desde a cor, à direcção de fotografia, de Robert Richardson, aos movimentos de câmara, onde se destaca a utilização de inúmeros snap zooms (que se traduzem na aproximação acelerada a determinado assunto ou personagem), opção comum nos westerns spaghetti e filmes de acção dos anos 70 aqui, e como é costume na sua filmografia, homenageados pelo realizador. Por seu lado, também a banda sonora faz jus às grandes referências de Django Libertado. Para além dos temas que partilha com Django de 1966, deparamo-nos com alguns temas compostos por Ennio Morricone, autor de inúmeras bandas sonoras de westerns, e ainda com canções funk e soul, géneros musicais muito associados aos filmes blaxploitation.

Este novo Django foi libertado pelas mãos de Tarantino que se revela explosivo, quer pela controvérsia que tem gerado, quer pela grandiosidade que foi capaz de criar no seu mais recente filme.

9/10

Ficha Técnica:

Título Original: Django Unchained

Realizador: Quentin Tarantino

Argumento: Quentin Tarantino

Elenco: Jamie Foxx, Christoph Waltz, Leonardo DiCaprio, Samuel L. Jackson, Kerry Washington

Género: Drama, Western

Duração: 165 minutos

Crítica escrita por: Inês Moreira Santos

*Por opção da autora, este artigo foi escrito segundo as normas do Acordo Ortográfico de 1945.