As caixas de cartão empilham-se, em jeito de muralha, como se guardassem no seu interior recordações de momentos felizes. Dá-se agora o regresso à casa onde se cresceu. Mas, pela primeira vez, o pai não está lá. A ausência é definitiva.

A beleza do texto de José Luís Peixoto que Sandra Barata Belo e Cátia Ribeiro adaptam ao teatro em Morreste-me – em cena no Teatro do Bairro, em Lisboa, até 3 de fevereiro – soa como uma bela canção aos nossos ouvidos.

Neste monólogo, uma mulher regressa a casa após a morte do pai e desfia vários episódios da sua experiência com ele. Agora, tem de lidar com a perda e seguir em frente. As memórias surgem como um remédio cicatrizante e dão força para continuar. Nelas encontram-se as semelhanças entre nós e quem nos deu a vida.

Sandra Barata Belo consegue tomar como seu o texto e fazer-nos sentir verdadeiramente cada uma das suas palavras. Respeita a simplicidade que a história pede e insere-lhe alguns traços ligeiramente infantis que nos remetem para a insegurança da meninice – que nos acompanha inclusive na idade adulta – e para a importância dos nossos pais nessa consolidação da nossa personalidade.

Mais do que nos contar uma história, a atriz vive-a intensamente em palco, aproximando-se do registo da performance. Sentimos de facto a sua envolvência com as memórias na relação entre o seu corpo e o cenário. A roupa deixa-se sujar pela farinha, pela terra, pela água, tal como acontecia no processo de crescimento.

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O cenário é aproveitado ao máximo, nada está apenas para decoração. Tudo tem significado, uso, motivo de ser. Para além da instalação multimédia responsável pela criação de ambientes nas faces dos caixotes, a própria luz – também ela discreta – cria a tensão nos momentos certos e acentua os períodos mais marcantes da peça.

Juntemos a música de António Zambujo e conseguimos ter quadros de grande beleza, sobretudo pela simplicidade com que são compostos. A voz de Zambujo traz um estado de espírito de calma que nos invade e nos sossega. Os arranjos musicais transportam o toque de campo, de ruralidade, e acentuam o ambiente da história.

O texto, a música e a interpretação deixam-se complementar por um pequeno filme já próximo do final. Vemos por fim – docemente materializada – aquela infância que nos foi brilhantemente descrita. Aí temos o verde, os troncos das árvores, o carro vermelho que avança, os abraços entre o pai e a filha.

A envolvência é o grande ponto forte deste espetáculo. É impossível não sermos transportados para um Alentejo do passado, não sentirmos o campo, não cheirarmos a terra molhada ao ouvirmos esta história.

Somos levados a pensar na nossa própria infância e na nossa formação enquanto pessoas, nos momentos felizes que vivemos e nas influências que adquirimos. Os valores da família são postos em cena, em jeito de agradecimento a tudo aquilo que os nossos pais fizeram por nós.

Aprendemos a dizer Amo-te àqueles que nos acompanharam ao longo do percurso. Mesmo quando os perdemos eles estarão lá, em nós. Nos nossos gestos, na nossa forma de sentir, nos locais por onde passamos. Até ao fim.

Fotografias: Perfil Oficial de ‘Morreste-me’ Facebook