A RTP1 surgiu com uma nova imagem e uma nova assinatura na passada segunda-feira, dia 14. Sob o mote “Portugal Sempre Ligado”, apresentou uma nova programação para este início de ano, uma gama de novos e dinâmicos formatos que espelham (quase) na perfeição o que a RTP deve ser. Curiosamente (ou não), as audiências baixaram na primeira semana da nova RTP1. Afinal queremos ou não serviço público?

O daytime não sofreu grandes alterações ao nível de programação. Mantiveram-se os talkshows da manhã e da tarde, substituindo-se a novela pós-Jornal da Tarde pela repetição desnecessária da série humorística Velhos Amigos. Não haveria nada mais interessante para emitir?

A Praça da Alegria não ganhou propriamente com a mudança: um João Baião sozinho, enquanto a companheira Tânia não regressa, não pode fazer muito mais, mas esperava-se que conseguisse cativar mais o público-alvo das manhãs com o seu humor fácil. Num cenário menos apelativo, é notória a preocupação – aliás, transversal a toda a programação – com a portugalidade e os portugueses no estrangeiro, mas esta parece quase forçosamente incluída no formato. O mesmo acontece com o bloco informativo que interrompe os momentos de conversa: a ideia não é má, mas há qualquer coisa que não resulta bem naquele momento noticioso.

Portugal-no-Coração-Praça-da-Alegria

À tarde, Portugal no Coração continua a missão de procurar os portugueses espalhados pelo mundo, com conversa, música e um novo “coração vermelho” como imagem de marca. Marca ainda o regresso de Marta Leite Castro e José Carlos Malato ao programa, ambos apresentadores de formatos bem diferentes nos últimos tempos, mas que se adaptam bastante bem ao talkshow mais tradicional. O Preço Certo, entretenimento de fim de tarde com Fernando Mendes, continua também a dar as melhores audiências à RTP, mais de dez anos depois da estreia, com um formato já gasto e algo aborrecido, mas que as pessoas continuam a gostar.

A informação, por seu lado, trouxe algumas inovações esta semana. Mexer no Bom Dia Portugal e no Jornal da Tarde não faria sentido, nem mesmo no Portugal em Direto – um dos vários programas com a palavra “Portugal” no nome. Mas mexer no Telejornal era absolutamente necessário e a RTP optou por encurtar o noticiário e acrescentar-lhe, até às 21 horas, o espaço 360º, de aprofundamento do principal tema do dia. Boas opções, originais e diferenciadoras face à concorrência, que insiste em noticiários demasiado longos e pouco focados. Infelizmente (ainda, pelo menos), não se notaram diferenças em termos de audiências.

A aposta na informação não fica por aqui, com a manutenção de programas como Termómetro Político, Linha da Frente e Sexta às 9, de análise, entrevistas e investigação jornalística no primetime. Meia hora por dia para refletir acerca de questões importantes da sociedade e aprofundar conhecimentos. Se isto não é serviço público, o que será?

398131_536674786350507_1506186401_n

Mas foquemo-nos neste horário nobre, tão importante para os canais generalistas. Depois da informação, a RTP1 oferece agora, cinco dias por semana, a série de ficção nacional Sinais de Vida. Tem tudo para dar certo: um elenco recheado de bons atores, uma bonita banda sonora, um tema não muito retratado na ficção feita em Portugal, a vida dos médicos de um hospital. A questão é que nada disso tem força quando o argumento é pobre e transforma os bons atores em marionetas de uma história sem sal, com diálogos desinteressantes e repetitivos. Eles dizem que não é novela, mas é o que parece. E, enquanto tal, até as histórias banais das novelas da TVI conseguem ter diálogos melhores. É pena que assim seja e sobretudo que Sinais de Vida seja a maior falha desta nova programação, não sendo em nada diferenciadora.

O horário das 22 horas é sem dúvida a aposta mais arriscada da RTP1, com quatro novas estreias, a juntar-se ao bem conseguido Portugueses pelo Mundo. Infotainment ou entretenimento informativo, se assim o podemos chamar, é o que programas como Não me sai da Cabeça e Conta-me História trazem de novo ao panorama televisivo nacional. Não é propriamente o mais apelativo para ocupar o primetime, mas é verdadeiramente serviço público.

O primeiro navega por músicas que todos conhecemos, em documentários dinâmicos e cenários apelativos, com Sílvia Alberto ao comando. É bom vê-la num formato mais sério, mas também mais divertido – é clara a busca de um público mais jovem. Já Conta-me História é uma viagem também dinâmica pela história de Portugal. Luís Filipe Borges caminha ao lado do historiador Fernando Casqueira por diversos locais e episódios da nossa história, com reconstruções da mesma que por vezes roçam o ridículo. Contudo, é inovador, é interessante e é interativo. Mais uma vez, infelizmente, talvez as crianças o prefiram aos adultos.

8367510118_5a289215e8

Destaque ainda para o regresso de Cuidado com a Língua, talvez o antecessor desta nova onda de programas de infotainment com formatos originais. Diogo Infante volta para uma oitava temporada, que tem lugar na programação de segunda-feira à noite. E nota 5 à RTP1 por emitir a sétima temporada do talkshow 5 para a Meia-Noite mais cedo, cerca das 23h15, com os mesmos cinco apresentadores e muito humor nas noites de semana. A mudança do formato da RTP2 para a RTP1 continua a ser uma das maiores conquistas do primeiro canal.

Fica apenas a faltar o que a RTP tinha já conseguido incluir na programação nos últimos tempos e que tanta falta faz nesta nova grelha: cinema. Os filmes emitidos no final de cada dia de semana foram substituídos por séries, nomeadamente a quarta temporada de Sangue Fresco. Ao menos a rubrica Cinco Noites, Cinco Filmes regressou à RTP2 – ainda que, com eles, nunca se saiba se é ou não definitivo. Ao fim de semana a RTP1 procura também compensar esta falha com filmes à tarde e à meia-noite, mas é pena que o cinema não faça parte da programação diária.

O fim de semana traz algumas novidades, nem todas elas apelativas. Aqui Portugal, novo programa de Jorge Gabriel e Sónia Araújo, viu a sua estreia cancelada devido ao mau tempo que se fez sentir em Ílhavo. Sábado é também dia de humor na RTP1, por exemplo com Hotel 5 Estrelas e Herman 2013 – a primeira uma nova sitcom engraçada mas pouco diferenciadora, o segundo um talkshow que já deu o que tinha a dar, mas que a RTP insiste em pôr no ar. Já domingo é, agora, dia de Prós e Contras; é impossível concorrer, com o programa de Fátima Campos Ferreira, contra uma Casa dos Segredos da TVI, por isso parece que qualquer programa serve para ocupar aquele espaço.

307105_351294824977946_1229746233_n

21 horas é claramente a hora mágica do fim de semana. Sábado é dia de Depois do Adeus, a série que vai da televisão à rádio e à Internet. Mais uma grande aposta na ficção, num formato semelhante a Conta-me Como Foi, sobre os portugueses vindos de África no pós-25 de abril. A ficção também serve para contar a História – e quando se tem um bom argumento e bons atores, é meio caminho andado para ser um sucesso. Esperemos que seja devidamente reconhecida. Odisseia faz as delícias de domingo à noite. “Se calhar só se vai perceber o que é isto quando o programa sair do ar”, como diz o criador Bruno Nogueira. A verdade é que se esperava um humor mais óbvio, depois do sucesso de Último a Sair, mas um episódio é pouco para podermos julgar. Até agora parece uma boa opção, quanto mais não seja por nos manter na dúvida e diferenciar a RTP na aposta em formatos inovadores.

Talvez a estreia de Don’t Stop Me Now nas noites de sábado consiga salvar as audiências da RTP1. Certo é que, na primeira semana de nova grelha, a estação pública viu os números baixar, no geral, cerca de 2 pontos percentuais de share. Há mais serviço público; há uma preocupação forte na diversificação da programação para as várias faixas etárias; há uma focalização no conceito “Portugal”, na história e nas suas pessoas; há mais ficção, mais entretenimento e melhor informação; há uma maior diferenciação em relação à concorrência; e, no topo do bolo, a cereja é exatamente a aposta em conteúdos nunca vistos na televisão portuguesa. E os portugueses não gostam?

Não se faz serviço público e reclama-se porque deveria haver programas diferentes. Faz-se serviço público e as pessoas não vêem, continuam a preferir programas já vistos, mais seguros, que se podem ver em inúmeros canais de televisão. A RTP conseguiu compreender as principais falhas e necessidades da televisão portuguesa e colmatá-las com esta nova programação. É triste que não veja esse esforço premiado.