Um esquizofrénico, um traumatizado de guerra, uma toxicodependente, um prostituto, uma alcoólica vítima de maus tratos e uma intelectual que procura encontrar-se a si própria. A mistura é estranha, o resultado em cena também.

O novo trabalho de João Mota procura abordar um problema cada vez mais atual na sociedade portuguesa, a exclusão social, mas acaba por falhar a esse nível. Condomínio da Rua está em cena na Sala Garrett do Teatro Nacional D. Maria II até 17 de fevereiro.

Apesar de toda a pesquisa de campo realizada pela equipa ao longo de várias semanas – um trabalho a aplaudir tendo em conta a sua escassa realização para teatro em Portugal -, o resultado em palco não nos parece credível nem verdadeiro. A sensação com que se fica é a de que estamos novamente a assistir a clichés e preconceitos já tão gastos sobre os sem-abrigo quando esse não era de todo o objetivo da peça.

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Condomínio da Rua roça o pretensiosismo e torna impossível não colocar em causa a autenticidade do que se passa em cena. Apesar das excelentes interpretações – um aplauso de pé para o esquizofrénico interpretado por João Grosso, bastante credível – é a própria atmosfera da peça que não nos deixa penetrar, viver e sentir a narrativa. Há uma vontade demasiado forçada de sentir a exclusão e os problemas de quem vive na rua.

Não é que as personagens ou as suas histórias sejam más – antes pelo contrário – mas são levadas a um excesso caricatural que não nos deixa acreditar na sua verdade. Além desta vertente, o texto original de Nuno Costa Santos – escrito propositadamente para este espetáculo – puxa demasiado pelo nonsense, o que atribui um lado um tanto ou quanto ridículo a cada uma das personagens. Aqui a lógica de Gil Vicente de ridendo castigat mores é completamente invertida, não funciona.

O que também falha é a forma de transição padronizada entre as várias cenas, aliada a uma deslinearidade da narrativa: são vários quadros soltos, sendo que alguns parecem incompletos ou demasiado pequenos. A valorizar, contudo, a existência de um cenário coeso, evocando um armazém abandonado, repleto de resíduos. No cenário consegue-se sentir, de facto, a tão procurada ideia de degradação do humano que se procura transmitir ao longo da peça.

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A destacar ainda a reunião da ‘prata da casa’ do Teatro Nacional D. Maria II que aproveita o seu elenco fixo constituído por João Grosso, José Neves, Lúcia Maria, Manuel Coelho, Maria Amélia Matta e Paula Mora para este projeto. Faz mais do que sentido que, havendo um elenco num teatro, esse elenco seja utilizado e valorizado. Sobretudo quando nos trazem um trabalho de ator relativamente bom e com interpretações muito intensas ao nível físico e emocional.

Fica pelo menos a ideia de que a história dessas personagens poderá eventualmente ser a nossa, tendo em conta as transformações sociais que decorrem do atual estado do país. Todas as personagens tinham uma vida estável até que um episódio repentino as levou à rua. Nenhum de nós estará livre desse risco – é a conclusão a fixar.

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Escrito em colaboração com: André Tenente
Fotografias: Filipe FerreiraTNDMII