Eu também não gosto de malas Chanel e também me provoca uma quase-otite ouvir pessoas que falam com uma mola no nariz e arrastam a última sílaba das palavras. Nisso, estamos juntos. Onde não estamos juntos é na necessidade de causar chinfrim em torno disso.

Claramente, entre Pepa Xavier e as pessoas que condenaram a sua honestidade, parece haver um abismo sem transposição possível. O primeiro princípio a manter no horizonte é o de que estamos a discutir acerca de ninharias: não posso, como já dei a entender, deixar de me referir à madame como um verdadeiro queque. Contudo, há uma ponte que liga os dois universos: a ambição. Ou , se quisermos, e para não soar tão aburguesado, o sonho.

Troquemos isto por miúdos e olhemos para as coisas em proporção: em primeiro lugar, o dinheiro que Pepa Xavier se propõe a gastar na tal mala é dinheiro fruto do seu trabalho. Se, como se diz por aí, ela ganha realmente 700 euros/mês e não tem preocupações com despesas, provavelmente ao fim de quatro ou cinco meses já terá dinheiro para cumprir o seu propósito. 700 euros para Pepa Xavier são o equivalente a 50 euros para nós; com 700 euros na mão pode-se almoçar uma vez por mês e pôr o resto de parte para uma mala Chanel; com 50 euros pode-se almoçar três ou quatro vezes e pôr o resto de parte para almoçar no próximo mês. O dinheiro é dela e é legítimo estabelecer metas para o empregar, quer o modo de emprego seja patético ou não.

É importante sublinhar que este queque foi pago para fazer isto e, provavelmente, para dizer o que disse. Não podemos ser redutores ao ponto de olhar para uma pessoa aparentemente fútil e oca e culpabilizá-la por conjunturas, que nos causam prejuízo sim, mas que a transcendem. É tia, é snobe, é rica, mas não é por culpa dela que a minha mãe não tem emprego ou que o meu pai recebe metade do que recebia. Não vamos tornar um estigma num julgamento.

Uma outra premissa: torna-se claro que a Samsung está bem ciente de qual é o seu público-target. Se espreitarmos os outros sketches deste spot publicitário, encontramos um dogma para o qual tudo converge: comprar Samsung significa bem-estar e realização pessoal. Tiago Miranda, outro convidado para o anúncio, confessa: «há uma coisa que eu sei fazer desde há muito tempo, é ter boa vida. E da minha boa vida faz parte (…) a minha casa, a moda, o design, as viagens, os bons restaurantes, o bom vinho, o bom cinema (…)». Isto diz-nos que um cliente da marca Samsung é alguém com mais do que os tais 50 euros na carteira. Na prática, o que se passa é que os potenciais consumidores não vão deixar de adquirir os produtos da marca porque, contrariamente ao público com carteira leve, este spot não é ultrajante para eles.

Sendo cru: este anúncio não é feito a pensar em gente empobrecida. Portanto, tanto faz se esta gente se sente ofendida ou não: de qualquer das maneiras, já não iriam traduzir-se nalguma vantagem lucrativa. Neste tipo de publicidade, o indivíduo é convertido em euros. Aqui, o comportamento capitalista e que verdadeiramente constitui uma afronta é da parte da SamsungMas, se queremos, de alguma forma, ser contestatários, ignoremos o anúncio (que não nos diz respeito) e compremos telemóveis de 20 euros em vez de usarmos as redes sociais como autos-de-fé. É tudo uma questão de enfiar ou não a carapuça.

Mais uma vez, há que discernir entre dois universos: comparativamente a outros anúncios da marca em que se pretende realçar o potencial do produto, este era, de facto, perfeitamente escusado; o certo é que, segundo as teorias de marketing, uma publicidade atinge o seu objetivo quando gera alarido em torno de si, mesmo que se tratem de opiniões dissonantes.

Ainda procurando desviar as atenções de Pepa Xavier, estabeleça-se aqui um outro abismo (este, verdadeiramente intransponível): Pepa Xavier não teve o descaramento de dizer que não temos miséria em Portugal e de ser presunçosa ao ponto de ditar às pessoas em dificuldades como devem ou não viver. Isabel Jonet mereceu toda a rotulagem e desterro. De um lado temos futilidade, do outro temos facciosismo. E, no caso de Pepa Xavier, a banalidade é tanta que não percebo o porquê de tanto holofote.

Neste momento, qualquer pessoa que preste declarações públicas que envolvam matéria financeira situa-se na fronteira entre messias anti-capitalista e déspota de extrema-direita. Não é so a Pepa que quer estar na moda, também está na moda ser de esquerda porque custa a muitos assumir que votaram naquilo que agora condenam.