Depois do Adeus estreia no próximo sábado na RTP1. A série foi apresentada à imprensa esta segunda-feira e é prometida “uma das melhores produções de sempre” para relembrar um dos períodos mais conturbados da nossa História recente: o Verão Quente de 1975.

Foi no Hotel Mundial, no Martim Moniz, que “acolheu muitas famílias que vieram de África”, segundo Hugo Andrade, que decorreu a apresentação à imprensa da série Depois do Adeus. A nova aposta da estação pública retrata uma época ainda muito recente e controversa que pretende, de acordo com o diretor de programas, que o exemplo dos portugueses retornados seja “um incentivo para encararmos o dia-a-dia de forma mais positiva”.

DEPOIS DO ADEUS

Criar uma memória é uma maneira de pensarmos o futuro de alguma forma”, diz também Ana Nave, uma das protagonistas da nova série de ficção. O objetivo é então retomar o pós-25 de abril e identificar os paralelismos com a época atual, retratando um período histórico ainda pouco explorado: é uma série “feita em cima da chaga da memória, que ainda não fechou”, como afirma o Administrador da SP Televisão, Jorge Marecos Duarte.

Sendo uma série histórica, Depois do Adeus exigiu uma extensa pesquisa e uma cuidadosa preparação de cenários de época, que ao longo dos 26 episódios são o palco das vivências das famílias retornadas. Para o protagonista José Carlos Garcia, ele próprio “um retornado”, “os mais novos vão perceber as história e os mais velhos vão identificar-se com ela”. “Eu vivi esta época na idade do meu filho e sinto-me a representar o meu pai“, diz ainda, acreditando que se trata de uma reprodução fiel, embora ficcionada, da realidade. Já o jovem ator João Arrais, que interpreta o filho mais novo da família, destaca que aprendeu “em primeira mão o que as pessoas sentiram“.

Hugo Andrade na apresentação de ‘Depois do Adeus’.

Faltava qualquer coisa para completar o círculo do Conta-me Como Foi”, acrescenta Hugo Andrade. Assim, à semelhança desta, a nova série reconstrói a história a partir de diversas estórias, com um argumento original escrito por Inês Gomes, através de um “excelente elenco, um envolvimento muito grande dos atores e uma viagem às coisas mais pequenas, desde os objectos até aos hábitos”, nas palavras de Ana Nave.

Para Alberto da Ponte, Presidente do Conselho de Administração da RTP, “é uma série que corresponde perfeitamente à missão de serviço público audiovisual da RTP”. Jorge Marecos Duarte diz mesmo que, com produções como esta, “estamos a fazer cultura”. Hugo Andrade vê-a como “tecnicamente irrepreensível e muito inovadora”, refletindo a coragem da RTP em abrir a porta ao tema.

Com estreia marcada para dia 19, às 21 horas, Depois do Adeus é a série da qual toda a gente fala, mas que ainda ninguém viu, como a realizadora Patrícia Sequeira afirmou também na apresentação da mesma. Um elenco recheado de “bons atores”, um “valor dramático e uma história incrível” são os principais ingredientes da série destacados por todos. Promete.

A SINOPSE

Álvaro e Maria do Carmo Mendonça viviam felizes em Angola. Ele era um empresário de sucesso e ela uma dona de casa tranquila. Juntos têm dois filhos, Ana Maria e João, que estudavam e viviam a adolescência em Luanda. Isto até estalar a guerra civil – a violência propaga-se e desaparecem o bem-estar e a ordem estabelecidos.

Deixando para trás todos os pertences de uma vida de trabalho, a família volta à Metrópole em julho de 1975 juntamente com mais 500 mil pessoas, naquele que foi o maior êxodo da história do povo português.

Em Lisboa, no pequeno apartamento de Joaquim e Natália Cardoso, cunhado e irmã de Álvaro, encontram a base para reconstruir as suas vidas. No entanto, naquele Verão quente, a integração não seria fácil. Portugal estava reduzido às suas dimensões de pequeno rectângulo e, num processo revolucionário algo turbulento, o regresso acontece com desconfiança por parte dos que já estavam no país e perante a necessidade de reconquistar, com trabalho, o direito a viver.

Cada episódio iniciar-se-à com um acontecimento relevante da época, utilizando imagens de arquivo da RTP para fazer este flashback. Depois do Adeus retrata um outro tempo nas estórias de uma família que é estranha na sua própria terra.

MAIS DO QUE UMA SÉRIE DE TELEVISÃO

Mas Depois do Adeus não se fica pela televisão. A rádio transmite “a outra parte, aquilo que é realidade”, afirma Rui Pêgo. Acrescenta que se trata de um “caminho de convergência entre rádio e televisão que é original”, que a RTP tem vindo a percorrer, e que a nova série pretende superar.

Porque o retorno a Portugal foi, para muitos, uma necessidade e uma oportunidade de “começar de novo”, este é o nome do programa que estreou já no passado domingo, dia 13, às 13 horas, na Antena 1. Começar de Novo, com apresentação de Iolanda Ferreira, recorda os anos 75 e 76 através de relatos de portugueses que viveram na pele a experiência de viver nas colónias e regressaram à metrópole. “Pela primeira vez os protagonistas da história vão poder dizer o que viveram”, destaca Rui Pêgo.

Rui Pêgo a apresentar a web rádio Antena 1 Memória e o programa 'Começar de Novo'

Rui Pêgo a apresentar a web rádio Antena 1 Memória e o programa ‘Começar de Novo’

Para além do programa, estará também disponível online uma web rádio de oportunidade, a Antena 1 Memória, com a missão de reviver a história refletindo o ambiente sonoro da época. Cerca de 800 canções e outros grandes marcos dos anos 70 farão parte desta rádio, idealizada por João Gobern e António Macedo.

A complementar toda esta panóplia de plataformas, Depois do Adeus tem ainda uma página de Facebook, um site e um blogue, com “vídeos e testemunhos de pessoas que viveram este período” e “cenários e peças de época”. Engloba também um espaço intitulado “Conte-nos a sua História”, de partilha de experiências, com base no qual “vamos produzir uma série documental na perspectiva das pessoas que viveram este período da história”, afirma o diretor de programas da RTP.

por Pedro Miguel Coelho e Raquel Santos Silva