O Teatro Nacional D. Maria II continua a fazer face à crise ao apresentar espetáculos regularmente, dando primazia à dramaturgia portuguesa e clássica. Desta vez, é a contemporaneidade que toma conta do palco da Sala Estúdio do Teatro Nacional. Escrito, encenado e também interpretado por Marcantonio del Carlo, com a ajuda de Marta Nunes, com quem partilha o espaço cénico, M-Show invade a capital denunciando algumas fragilidades da sociedade atual.

Sebastião M é o apresentador de um reality-show aparentemente no topo das audiências. Com um elevado número de telespectadores, o programa demonstra o sofrimento de um “miúdo” que está sempre a chorar, bem como o visível transtorno psicológico do protagonista. A ideia surgiu da influência que os media têm na vida das pessoas bem como o comportamento destas perante situações de sofrimento alheias. “Vou fazê-lo sofrer! Não é isso que o público quer?”, afirma a personagem repetitivamente ao longo do espetáculo.

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Eis um sumário da história que vai fazer do espectador um cidadão mais atento aos meios de comunicação social. É um facto que há pessoas em que o seu trabalho é “dar cabo da vida dos outros”, como no caso de Sebastião, e é nisso que se centra toda a ação. Diante de um reclame publicitário sugestivo, sempre visível para o público “lá de casa”, Marcantonio, com a sua louvável e irrepreensível interpretação de Sebastião, permite que a emoção venha ao de cima.

De início não se percebe bem o sentido, nem quem são realmente as personagens, mas com o fluir do tempo é fácil de perceber que o protagonista está sujeito a uma profunda depressão, que não nos deixa indiferentes. Um texto muito bom, para não dizer genial, que nos mantém agarrados ao “ecrã” sem “mudar de canal”. Mantém o espectador sempre no suspense, com a ânsia de saber mais, refletindo a essência do ser humano. Um jogo psicológico realizado em cena que demonstra muito bem o que é feito nos estúdios de televisão de hoje. Irrepreensível, memorável e perturbante texto que mostra, sem criticar, como a fama não é de todo um posto confortável.

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Encenado de forma não muito complexa e com um jogo de luzes que transparece que estamos realmente diante da televisão, assistindo ao programa noturno em direto, Marcantonio consegue agarrar de facto o público durante uma hora e 25 minutos. A “voz”, nome sugestivo e familiar dado à personagem de Marta Nunes, tenta continuadamente saber cada vez mais acerca do que sente o apresentador, bem como do seu passado que o perturba.

É de facto o olhar de um homem que chegou ao extremo da sua existência, conciliado com o foco dado pelo “grande plano” da câmara que se imagina, que transforma a sala de espetáculos num ambiente pesado e reflexivo que transforma qualquer um e nos emociona. Um cenário rotativo que nos guia pelos bastidores de um estúdio de televisão, que o não é, contribui também para a excelência do produto final.

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Em entrevista, o encenador afirma que, para chegar à oitava e última versão do texto dramatúrgico, falou com psicólogos e psiquiatras para questionar se era plausível um indivíduo chegar ao extremo apresentado. Com uma resposta afirmativa, esta pesquisa contribui e de que maneira para um aplauso merecido dia 10 de janeiro, data marcada para a estreia.

De quarta a sábado, às 21h15m, e domingo às 16 horas da tarde, aconselho que, de 10 de janeiro a 3 de fevereiro, passes pelo Teatro Nacional D. Maria II para aplaudir convictamente bom teatro.

Fotografias por Beatriz Nunes