Mudam-se os tempos, mudam-se as palavras. Entroikado: eis o novo adjetivo da língua portuguesa. É aplicável, coloquialmente, sempre que nos achemos em apuros ou numa situação aflitiva. Se o ano de 2012 fosse uma fotografia, entroikado seria a sua legenda.

Entende-se inequivocamente a conveniência desta escolha, dados os 365 dias a caminhar para o abismo. Certamente que quem para lá caminha se sente tramado. Bem, calculo que não esteja muito enganado se supuser que, há exatamente um ano atrás, em janeiro de 2012, esse sentimento ainda fosse pouco tangível. Talvez não estivéssemos suficientemente perto do abismo para o recearmos. Talvez porque naquela altura ainda não olhássemos para a nossa bandeira de pernas para o ar. Talvez porque ainda vislumbrávamos o verde esperança e menosprezávamos o vermelho alarmante.

Quem é que nos pode culpar por isto? Somos portugueses, caneco! A esperança está-nos no sangue, se bem que em convívio fraterno com o pessimismo. Claro que, mês após mês, se foi tornando irrisória a hipótese de depositarmos esperança no que quer que fosse, muito menos num «ano novo, vida nova». Aproximávamo-nos do abismo, ou ele perseguia-nos (não sei), sem nos apercebermos bem do seu significado. A neologia começou a justificar-se quando tomámos consciência de que a caminhada para o abismo não era reversível, isto porque nem sequer se tratava de uma caminhada feita pelo nosso próprio pé. Fomos sendo rasteirados, empurrados, coagidos, desnacionalizados, entroikados. No fundo, foi uma escolha conveniente motivada por algo inconveniente.

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Por outro lado, interrogo-me acerca do timing desta adaptação do termo. É preciso ter em linha de conta que 2012 foi – e repito-me – a caminhada para o abismo. Agora, temos 2013 inteiro para nos preocuparmos com a queda. Se no ano anterior fomos entroikados, o que vamos ser neste? Por tudo o que o termo “troika” implicou até agora, creio que o novo adjetivo deve encerrar um significado muito mais polissémico do que uma tradução simplista para “tramado“. Se estar entroikado também serve para “estar esfomeado“, “estar desempregado“, “ter de emigrar“, “ter de andar a pé“, “não ter serviço público“, eu subscrevo e declaro, desde já, esta palavra a vencedora desta competição no final de 2013.

Abro parêntesis, simplesmente para salientar quão notável é a flexibilidade e mutabilidade da língua portuguesa. Já consigo imaginar um miúdo em 2060: «Epa, ó João, estou mesmo entroikado, a velha não me deixa sair logo à noite». A sufixação e a prefixação são, de facto, dois engenhos invejáveis. Até consigo prever atos de vingança para 2060: «Estás entroikado comigo, estás a perceber?». Curioso como este adjetivo até consegue servir de substituto a algum calão.

Ainda dentro do parêntesis, apenas refletir acerca de dois riscos que aqui se correm: incluir esta palavra no nosso dicionário tem a repercussão imediata de abrir ainda mais espaço à invasão estrangeira; um termo de conotação tão negativa e indesejável acaba por se conseguir enraizar também no seio da nossa cultura, o que, infelizmente, manifesta uma maior aproximação da resignação total. Vamos aportuguesar também o termo “auf wiedersehen“.