Para começar 2013, quero partilhar com vocês um dos meus desejos para este novo ano: mais transparência no setor editorial. Foi quando comi a 12.ª passa que dei por mim a desejar tal coisa e se só por si já era improvável que ela se realizasse, agora que a partilhei anulei certamente o seu efeito. Parece-me que a entrada neste novo ano é a oportunidade perfeita para se repensar as abordagens que têm sido feitas a este setor e para se abandonar as práticas que ainda vêm do tempo da espionagem industrial. O segredo já não é a alma do negócio. Esta máxima dos novos empresários parece ter dificuldade em penetrar nas grandes empresas ligadas ao livro, e aqui já não critico apenas as editoras.

Para hoje trago um raciocínio que se torna lógico e muito simples quando se tem os dados corretos. Fiquem a saber que a ideia para o raciocínio que originou esta crónica surgiu no seguimento de uma conversa com um amigo acerca dos salários que se praticam em Portugal. Desde o Presidente da República à empregada de limpeza, passando pelos diretores e gestores das grandes empresas, não foi difícil estimar a remuneração que corresponde a cada cargo mas no que toca ao mundo dos livros, a situação foi diferente.

Quanto ganha um escritor? Quanto ganha uma editora? Quanto ganha uma livraria? Será possível viver-se da escrita? Reparem que não sou o primeiro a levantar estas questões, outros antes de mim já o fizeram. A razão pela qual estas questões voltam constantemente a discussão é a falta de respostas que temos para elas. Não há dados publicados, não há notícias nem balanços.

A falta de dados sobre esta matéria parece sugerir que ela não é relevante e, no entanto, ficarão surpreendidos pelo impacto que tudo isto tem no definhamento do sector editorial português, senão vejamos: de um livro que custe 20€, o autor recebe 3€ (15%), a editora recebe 9€ (45%) e a livraria recebe 8€ (40%). Perante estes números, uma coisa salta imediatamente à vista: o autor ganha muito pouco. Com este tipo de remuneração, insuficiente e incerta, é muito complicado viver da escrita, praticá-la a tempo inteiro, desenvolvê-la profissionalmente. Devido à falta de clareza das editoras e devido ao tipo de relações que elas desenvolvem com os autores, a escrita apenas pode ser considerada uma profissão para um punhado de gente que já se encontra consagrada no meio.

Todos os restantes escritores têm de se tornar escribas a soldo, pagos para emprestar a sua arte a jornais, revistas, publicidades… O livro e a escrita de ficção tornam-se numa atividade secundária feita apenas quando o tempo o permite. O tipo de relação entre os escritores e as editoras está na origem deste problema: as editoras não são vistas como agências que representam os autores, tal como acontece no mundo da música ou da moda, mas sim como meras empresas que operam na colocação de livros no mercado.

Quando um contrato de edição é assinado, a editora fica com os direitos da obra em questão e não sobre toda a imagem do autor. Desta forma, a atenção da editora vira-se para a venda de um livro específico e não para a venda do trabalho do autor em geral. Aparecem resultados de curto prazo que não garantem sustentabilidade ao sistema nem estabilidade ao escritor. A sua carreira é feita de altos e baixos que correspondem ao momento de publicação de um livro novo.

O sucesso de um autor está muito ligado à sua capacidade de produzir novos livros a um ritmo constante, independentemente da sua qualidade. Diz-se que depressa e bem não há quem, ainda para mais quando o escritor não se dedica a tempo inteiro a esta atividade. Quero, sobretudo, chamar a atenção para o papel que os escritores devem desempenhar na sociedade e na cultura. Um cantor ou uma banda auferem rendimentos da venda de discos, das atuações ao vivo, da cedência de direitos de autor; um escritor, atualmente, não se encontra na mesma posição, apenas recebendo os 15% supramencionados.

Um escritor deve ter um papel muito mais ativo na cultura. Deve ceder a sua imagem a publicidade, deve fazer digressões pelas bibliotecas e livrarias de todo o país, deve dar autógrafos e ler o seu livro em público. Um escritor deve ser tratado como um artista e ser representado por uma editora que, de facto, assuma o papel de gestor da sua carreira. Só assim o escritor pode criar um maior contato com o seu público, só assim se pode fomentar a leitura, só assim se pode incentivar a escrita de qualidade.

Espero ver, neste novo ano de 2013, uma atitude renovada face ao livro, face ao escritor, face à leitura. Ainda há muito para fazer neste setor, ainda há muito para se evoluir.