Um ano passou e muito mudou em Guimarães…

Durante 2012, esta cidade minhota foi Capital Europeia da Cultura. Guimarães foi promotora da diversidade cultural que caracteriza o continente europeu. Para além da cultura regional e nacional, afluíram culturas de todas as partes, graças a diferentes criadores nas áreas da música, dança, artes plásticas, arquitetura, literatura, teatro, cinema e artes de rua.

A rotina desta cidade foi drasticamente alterada com a chegada deste majestoso evento. Turistas e artistas de todos os cantos da Europa correram para fazer parte de Guimarães2012, confundindo-se entre os locais. Guimarães deixou de ser dos vimaranenses e passou a ser do Mundo. Eram várias as línguas e as pronúncias ouvidas, as formas de estar, os costumes e os aspetos – a cidade heterogeneizou-se!

Todos se relacionaram em prol de um bem comum: a cultura. E esta certamente que chegou a todos graças aos baixos preços ou até mesmo às entradas gratuitas em espetáculos, exposições, performances e filmes. Além disso, podiam também participar em certas atividades. Foi dada a Guimarães a oportunidade de mudar, de fazer diferente, de brilhar. E sem dúvida que conseguiram.

As salas de espetáculo estiveram sempre cheias, assim como as praças e as salas de estar privadas que os habitantes abriram a quem quisesse entrar. Guimarães foi um lugar de todos e de cada um, atingindo os leigos e os eruditos, agradando a gregos e a troianos. Ninguém ficou de fora, todos os gostos e interesses foram satisfeitos.

Ficam aqui os melhores momentos escolhidos pelas nossas colaboradoras do Espalha-Factos, Beatriz Vasconcelos e Clara Nogueira, que viveram de perto esta experiência.

DANÇA: 

Guimarães apostou verdadeiramente na dança em 2012. Foram inúmeros os espetáculos nacionais e internacionais que invadiram a cidade. Não nos foi possível ir a todos, no entanto o nosso histórico de bailados aumentou consideravelmente graças a Guimarães Capital Europeia da Cultura.

Salientamos a segunda edição do festival internacional de dança contemporânea GuiDance. Decorrido no Centro Cultural Vila Flor entre os dias 1 e 11 de fevereiro, este festival foi composto por companhias internacionais de renome e por uma nova vaga de companhias nacionais emergentes.

Les ballt C de la B com “Au-delá”, os portugueses premiados Sofia Dias e Vitor Roriz com “Um gesto que não passa de ameaça”, Zita Swoon Grup em parceria com a companhia Rosas com “Dancing with the Sound Hobbyist”, Rafaela Salvador com “Identidade”, a Companhia Integrada Multidisciplinar com “Nada”, Victor Hugo Pontes com “A Ballet Story”, Kaori Ito com “Island of no memories” e Peeping Tom com “For Rent” formaram o cartaz deste ano.

kaori ito

Sem sombra para dúvidas, “For Rent” foi o espectáculo que nos marcou não só pela criatividade e pelas arrepiantes coreografias, mas também pela variedade de estímulos e pela riqueza de sons e imagens que nos atingiam a todos os instantes. Um bailado que merece ser revisto e que aconselhamos a todas as pessoas.

http://www.youtube.com/watch?v=1dP9momkong

MÚSICA:

É fácil pôr em prática os três caminhos distintos que a música seguiu neste Guimarães Capital Europeia da Cultura.

O primeiro caminho baseava-se em mostrar ao público que há boa música e que esta é de todos, dar visibilidade a novos músicos e reatar as ligações com o que é tradicional. Incluimos nesta fase o evento “Mi casa es tu casa”, criado por Fernando Alvim, que teve duas edições. Os vimaranenses abriram as portas de sua casa ao povo para que se pudesse assistir a concertos ou a encontros com atores ou escritores. Estes espetáculos intimistas tiveram uma grande adesão e permitiram o contacto direto entre o público e os artistas.

O segundo caminho passava pela criação da Fundação Orquestra Estúdio e pela difusão das várias vertentes da música por todo o concelho em locais convencionais ou não, de forma inesperada e com convidados muito distintos. Não há espetáculo que melhor simbolize esta fase se não o concerto de “Expensive Soul Symphonic Experience”. Os Expensive Soul, a Fundação Orquestra Estúdio e um coro de 100 vozes voluntárias juntaram-se num concerto memorável, que arrepiou quem assistia. Ninguém ficou indiferente esta experiência que uniu num só palco a música clássica, o soul, o hip hop e as tradições e as vozes dos vimaranenses.

http://www.youtube.com/watch?v=-d3XKB-vVTU

A última fase pretendia fazer da música um objeto de celebração, de diversidade, de inclusão e de aproximação entre as pessoas. Encontramos no conceito da “Big Band” todas estas características – qualquer pessoa que soubesse tocar um instrumento ou tivesse vontade de cantar podia participar neste concerto conduzido pelo maestro Tim Steiner, que teve lugar no dia 9 de setembro. Pessoas de todas as idades e de diversos pontos tocaram juntos e encantaram o público, que no fim teve oportunidade de participaram cantando com a orquestra graças às várias letras das músicas que foram passadas de mão em mão. No fundo todos fizemos parte desta grande e diversificada banda.

BigBang

 

CINEMA:

A sétima arte também fez parte. Com a certeza de que o cinema se confunde com as memórias mas que bebe de tudo o que há, foram marcados caminhos: a encomenda de novas produções e o sonho concreto de tornar Guimarães num centro criativo de cinema.

Em 2012, de muitas formas, o cinema gritou “presente!” . As salas da cidade transformaram-se em palcos de antestreias nacionais: As Aventuras de Tintin: O Segredo do Lincorne, Os Marretas, Tabu.

Em constante parceria com a CEC 2012, o Cineclube de Guimarães – um dos cineclubes com mais espetadores do país – levou a cabo, durante todo o ano, um conjunto de iniciativas que alargaram ainda mais o seu impacto e atuação. O Cinema vai à Vila, por exemplo, levou sessões de cinema a tudo o que fosse salão paroquial ou junta de freguesia das vilas do concelho.

Mas o grande ecrã não se deixou ficar fechado. Com o calor, saiu à rua. O Cinema em Noites de Verão arrastou até ao mais famoso largo da cidade, o da Oliveira, filmes como A Invenção de Hugo, Os Descendentes ou Meia-noite em Paris. De entrada livre, as fachadas típicas, os arcos e a pedra misturaram-se com a realidade improvável dos 24 fotogramas por segundo.

Mais importante do que isso, Guimarães 2012 deu aso à criação e levou à letra o “Tu fazes parte”. O filme O Fantasma de Novais contou com a participação de atores vimaranenses, menos ou mais profissionais. Encomendado a Margarida Gil, atravessou várias cidades e debruçou-se sobre a vida de Joaquim Novais Teixeira, escritor, jornalista e crítico de cinema vimaranense.

Olhar a cidade foi ainda mais bairrista. O projeto resultou em oito documentários sobre o comércio tradicional e o património industrial da cidade produzidos por alunos de uma escola profissional do concelho.

Mas a tão repetida inclusão não ficou por aí. Também os reclusos do estabelecimento prisional de Guimarães foram chamados à festa. 150 anos depois da edição de Memórias do Cárcere de Camilo Castelo Branco, os reclusos foram convidados a escreverem as suas próprias memórias, sentimentos e experiências. Resultado: um documentário consequente de todo o projeto de interação criativa com os reclusos e 13 curtas-metragens que contam as “histórias da prisão” realizados pelos próprios.

Em 2012, o cinema pôs-se mesmo a mexer em Guimarães. Os projetos, iniciativas, ciclos e filmes encomendados atingiriam números tão elevados e uma dimensão de tal forma abrangente que não é nada difícil perder-se na teia dos acontecimentos.

Como em toda a Capital, a programação de cinema resultou na inclusão de velhos, novos, dos da aldeia, dos da cidade, intelectuais, comuns. Ainda mais, a inclusão deu-se na preocupação constante de abranger mais do que pessoas vazias e iguais, mas as memórias, tradições. Enfim, o ADN cultural da cidade. Só podia dar, como se viu, num conceito singular e quase perfeito de cultura: o da vanguarda criativa com raízes profundas na identidade, na verdade da cidade.

Teatro:

O teatro também veio à cena em 2012. Objetivo principal: criar na cidade uma marca positiva e profunda que se refletisse no país e na Europa.

Durante todo o ano, uma trama emaranhada de peças e iniciativas foram desenvolvidas. É impossível não destacar os Festivais Gil Vicente que completaram, em 2012, 25 anos de existência ininterrupta. Integrados na CEC, beneficiaram do seu maior orçamento de sempre. De 6 a 12 de junho, as peças andaram a passear entre a Fábrica ASA e o Centro Cultural Vila Flor. Contaram com cinco estreias entre as sete produções teatrais apresentadas. Numa iniciativa integrada nos festivais e que juntou em palco dezenas de vimaranenses, Os Lusíadas foram recitados na íntegra na véspera do dia de Portugal.

Mais uma vez, um conjunto de projetos com base em histórias e particularidades de Guimarães foram pensados e executados. Prova disso é Aqui Nasceu Afonso Henriques. A peça resultou de um processo de construção em rede que juntou o programa associativo Tempos Cruzados com dez grupos de teatro amador da cidade e contou os primeiros passos do que viria a ser o primeiro rei de Portugal. Também Por causa da muralha, nem sempre se consegue ver a lua se serve de Guimarães. Encenada por Miguel Seabra, inspirou-se na muralha da cidade.

AquiNasceuAfonsoHenriques

Ainda Dead End, com texto original de Chris Thorpe, conta histórias de Guimarães baseadas na recolha de histórias contadas de boca em boca e de forma espontânea. O resultado final: numa peça sobre o mal.

No ano da cultura, o teatro esteve omnipresente, marcando presença em Guimarães com formas, pessoas e conceitos diferentes.

“TU FAZES PARTE”

Foi um ano cheio e Guimarães provou que não ser uma cidade presa ao passado, que vive apenas de um espaço de memória histórica, mas sim uma cidade aberta à criatividade, à mudança, ao futuro.

Agora, um problema surgirá: a queda abrupta de visitantes e a manutenção das infraestruturas criadas para a CEC 2012, como a Plataforma das Artes e da Criatividade, a Casa da Memória, a Fábrica ASA ou o CAAA.

Os novos negócios de restauração e comércio provavelmente também sentirão uma grande quebra nos lucros, tendo em conta a crise atual e o decréscimo de vendas. Além disso, os habitantes vão sentir falta dos programas culturais gratuitos ou a baixo preço, da correria dos turistas e da vivacidade deste ano.

Apesar de todos estes inconvenientes é de realçar o bom trabalho por parte da organização e os 2000 eventos apresentados ao longo de 2012.  A adesão foi grande (aproximadamente 1,5 milhões de espetadores nacionais e estrangeiros), foram muitas as estreias e o convívio com diferentes profissionais de variadas áreas artísticas, o que se poderá refletir no aumento da capacidade e da qualidade de inovar dos vimaranenses quanto à cultura.

Passado o receio inicial e ultrapassadas as controvérsias de liderança, Guimarães e os seus habitantes acolheram com entusiasmo este grandioso protejo, que lançou a cidade nos circuitos mundiais de cultura e criou raízes, das quais se espera colher frutos num futuro próximo.

Por: Beatriz Vasconcelos e Clara Nogueira