O galardoado realizador de Discurso do Rei, Tom Hooper, volta aos cinemas com a adaptação de um dos mais famosos musicais da Broadway que, por sua vez, se baseia no romance Os Miseráveis de Victor Hugo.

No século XIX, em França, conhecemos Jean Valjean (Hugh Jackman), um ex-presidiário que por várias décadas foi perseguido pelo oficial Javert (Russell Crowe) e, quando livre, conhece Fantine (Anne Hathaway), uma empregada na sua fábrica que às portas da morte lhe pede para cuidar da sua filha Cosette (Amanda Seyfried), este pedido influenciará o resto da vida de Jean Valjean.

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Adaptar Os Miseráveis ao cinema é quase que uma tarefa inglória, requerendo bastante coragem do realizador, já que se trata de um dos maiores romances franceses – publicado em 1862 – e também um dos mais famosos musicais da Broadway – estreado em 1980, em Paris. Não obstante disto, também temos de perceber o quão difícil é adaptar algo que está predefinido aos palcos e não às telas e Hooper conseguiu ladear muitos desses problemas, mas não todos. Coragem também foi precisa para fazer de Os Miseráveis uma enorme canção com uma duração de, aproximadamente, duas horas e meia. O que quero dizer com isto é que são escassos os diálogos e mínimos quando acontecem, Hooper dá-nos música e mais música…

Os Miseráveis arranca bastante bem, a cena inicial consegue despertar a curiosidade para o resto do filme e é nesta parte em que é mais explorada a crítica social pertinente e que está bastante patente nesta obra cinematográfica/teatral/literária. A miséria que Hooper conseguiu captar é de uma crueza tal que é-nos impossível não sentir uma enorme compaixão tanto para com as personagens principais como para com os figurantes que representam toda uma classe oprimida. Neste seguimento temos um delicioso momento com Gavroche (Daniel Huttlestone) com o seu Look Down que espelha muito bem na letra o que anteriormente disse.

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Mas é quando Anne Hathaway entra na película que não conseguimos despregar o olhar do ecrã. Ela é soberba como a aterrorizada mãe que faz de tudo por dinheiro para cuidar da sua filha.  A atriz consegue mostrar o porquê de ser apelidada de umas das mais talentosas atrizes de Hollywood quando canta I Dreamed a Dream, fazendo desta a melhor cena do filme e talvez a melhor versão da canção já tão badalada. Hathaway rouba-nos, momentaneamente, a alma e despedaça-a ao ritmo da sua desesperada voz e melodia, juntando ainda a sua performance colossal que nos deixa extasiados e boquiabertos perante tamanha entrega da jovem atriz que, posso desde já garantir, vai ser nomeada ao Oscar.

A segunda parte do filme, já com Hathaway fora do baralho, foi mais fraca. Introduzem-se muitas personagens novas e são poucas as que conseguem criar uma empatia suficientemente grande com o espetador, os números musicais a substituir diálogos são mais forçados ainda e a duração excessiva do filme acaba por ser cansativa. No entanto é de destacar o trabalho feito pela novata Samantha Barks que foi uma excelente surpresa no meio de um elenco de peso como este. Elenco esse que, de uma forma geral, foi o ponto forte deste filme, com prestações arrebatadoras, caso de Hathaway e outras bem interessantes como a de Hugh Jackman e Russell Crowe, que não tendo a melhor voz, deu o seu máximo para ter um Javert à altura do seu pouco amigo Jean Valjean. Ainda de referir a dupla cómica que serviu para suavizar o ambiente bastante pesado pela tragédia que acompanha toda a ação, não quebrando porém com o teor dramático do filme, ou seja, a comédia aqui introduzida pelo casal Thernardier (Sacha Baron Cohen e Helena Bonham Carter) foi pertinente e nada forçada.

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Em termos técnicos o filme destaca-se, irremediavelmente, pela sua poderosa direção de arte e o seu guarda-roupa, devendo mesmo conseguir a nomeação para ambas as categorias nos prémios da Academia. Toda a ambiência por eles criada ajudou bastante no processo de transportação do espetador para uma França revolucionária e, ao mesmo tempo, decadente. É importante ainda dizer que Hooper tomou uma decisão arriscada ao gravar todas as músicas ao vivo, ou seja, no momento em que os atores contracenavam, não havendo assim qualquer playback de música gravada em estúdio. Esta peculiaridade técnica do filme podia resultar bastante mal, mas acabou por dar mais credibilidade à ação e à coesão das próprias canções ao longo deste musical.

Em suma, Os Miseráveis é uma boa adaptação que, mesmo não conseguindo chegar à epicidade do que se faz na Broadway, consegue ter o poder de fazer arrepiar e comover o maior dos céticos. Por isso mesmo acho que, por muitas falhas que tenha, porque de facto tem, este é um filme que reúne bastantes momentos de tirar o fôlego, que fazem sem dúvida valer o preço gasto com o bilhete de cinema.

8/10

Ficha Técnica:

Título Original: Les Misérables

Realizador: Tom Hooper

Argumento: William Nicholson baseado no romance de Victor Hugo

Actores: Hugh Jackman, Anne Hathaway, Rusell Crowe, Amanda Seyfried, Sacha Baron Cohen, Helena Bonham Carter, Eddie Redmayne, Aaron Tveit, Samantha Banks, Daniel Huttlestone

Género: Drama, Musical

Duração: 157 minutos