Um ano passou e muita música se fez. Os redatores do Espalha Factos tiveram muita dificuldade em escolher os seus “álbuns preferidos” de 2012 (são tantos!), mas aqui ficam as nossas escolhas. Quais são as tuas?

Atenção! Não existe qualquer tipo de “ordem” ou hierarquia nesta lista.

 

Memória de Peixe – Memória de Peixe

Se houvesse um prémio para a “Revelação do Ano”, os Memória de Peixe seriam grandes candidatos a vencedores.

Editado em maio, o disco da dupla Miguel Nicolau (guitarra e baixo) e Nuno Oliveira (bateria) é mais uma boa prova de que, sem palavras, se pode expressar muita coisa. Construídos à lei do loop, os instrumentais dos Memória de Peixe têm uma energia contagiante e um ritmo “catchy” aos quais é difícil ficar-se indiferente.

Ao vivo, o duo de Caldas da Rainha não desilude, programando os loops em tempo real e mostrando que, nos palcos, se sente como peixe na água.

Quem não é apreciador de temas instrumentais pode sempre ouvir os temas Walkabout e Fish&Chick que contam, respetivamente, com a colaboração das belíssimas (e também elas revelações do ano) Catarina Salinas (a voz dos Best Youth) e Da Chick. É para ouvir em repeat (e sem fartar!).

Texto: Joana Andrade. Escolha de Joana Andrade, Fernando Cardoso, Catarina Mendes e Alexandre Lopes

 

Black Bombaim – Titans


Os Black Bombaim já não são nenhuns novatos nestas andanças. Titans é já o terceiro lançamento dos barcelenses e resume essencialmente a fruição de todo o trabalho árduo que os Black Bombaim tiveram até à data. Contando com excelente produção – quente e dinâmica, com espaço para os pormenores sonoros soarem livremente – e com convidados de luxo a fazerem mais do que picar o ponto, Titans é uma mixórdia saudável de psicadelismo dos 70’s com stoner. Riffs à fartazana, uma bateria que não para de disparar padrões variados, um baixo que não se limita a seguir o resto e uma participação deliciosa de saxofone, ingredientes que fazem de Titans um dos álbuns nacionais de 2012.

Texto: António Moura dos Santos. Escolha de António M.Santos e João Biscaia

 

Carminho – Alma


Num ano em que o Fado (agora com mais roupagens) deu frutos valiosos ao nosso país, é o álbum da fadista Carminho o meu eleito como disco nacional do ano. Por todo o crescimento da artista – destacando em especial o grande concerto no Coliseu dos Recreios – já notado na música gravada para Alma e talento evidenciado. É em fados como Saudades do Brasil em Portugal ou mesmo Lágrimas do Céu, a abertura do disco, que se aplaude a artista.

Escolha e texto de David Pimenta

Motile – Princess

Francisco Soares assina a sua música como Motile e Princess é o seu quarto disco. Com uma estética sonora indiscutivelmente ímpar no panorama português, Princess é o álbum que deixa assente a personalidade musical do autor. Com influências que advêm de pontos tão distantes como a atitude e postura das CocoRosie e a melancolia vocal de Panda Bear, Motile constrói um espaço idiossincrático com recurso a elementos que estariam presentes numa fusão de Sleep ∞ Over com Vashti Bunyan. Tendo passado despercebido a muita (demasiada) gente, Princess é uma audição claramente obrigatória para quem pretende descobrir o que, afinal, acontece em Lisboa.
O disco pode ser ouvido e obtido no bandcamp oficial.

Escolha e texto de André Lopes

 

Pega Monstro – Pega Monstro

“Se isto não é música, então faz tu, ó meu cabrão!”

As Pega Monstro estão crescidas e mais maduras; com este homónimo, as irmãs provaram aquilo que já tinham demonstrado com O Juno-60 Nunca Teve Fita: que são uma banda despreocupada com a opinião alheia e que faz música com o seu próprio ADN (sem recorrer a modificações genéticas). Uma guitarra e uma bateria: tudo o foi necessário para criar um disco desconcertante, frenético e penetrante como poucos; Pega Monstro não é punk, não é noise, não é rock nem pop: é simplesmente um terramoto. Chamem-lhe o que quiserem. Para mim, é, e sempre será, nada menos que isso. Parabéns, haja juventude.

Escolha e texto de Emanuel Graça

 

B Fachada – Criôlo

A genialidade do tio B reuniu-se neste álbum, apesar de ser difícil atribuir aos álbuns deste senhor um top. Em Criôlo, o seu álbum (depois disso editou em conjunto com Minta e João Correia uma reinterpretação d’Os Sobreviventes de Sérgio Godinho, e recentemente o EP O fim) há uma brincadeira entre sonoridades africana, eletrónica, havendo espaço para o reggae, dub ou samba e até dá uma perninha no pop chunga. É um álbum repleto de músicas viciantes e dançáveis, letras bem desenvolvidas e críticas face à situação atual, que apontam setas ora à razão ora ao coração.

Fachada é antes de tudo um poeta e as suas letras são precisamente o espelho da sonoridade representada em Criôlo que é, em última análise – e como a capa da edição física demonstra – uma homenagem às raízes africanas, às origens da Humanidade e à vida, no sentido amplo.

Com as dificuldades inerentes a falar de alguém tão prolífero, talvez seja arriscado dizer que Criôlo é o melhor registo de B Fachada (não é) mas será talvez aquele que melhor reflete o seu tempo e as angústias que vivemos.

Escolha e texto de Alexandra Silva e Beatriz Vasconcelos

 

Ana MouraDesfado

Ana Moura regressa com o quinto álbum, o mais internacional da sua carreira.

Produzido por Larry Klein, o produtor de Joni Mitchell, o disco integra 17 temas com a participação de grandes letristas portugueses como Pedro Silva Martins (Deolinda) e Manuel Cruz (Ornatos), bem como vários “fados” cantados em inglês.

A belíssima e magnética versão de Case Of You de Joni Mitchell, Thank You de David Poe e Dream of Fire, escrito por Ana Moura, são as três canções em inglês exemplos disso, que dão ao fado um toque internacional e um sentido além fronteiras. A artista tem concertos marcados brevemente nos Coliseus de Lisboa do Porto.

Escolha e texto de Sara Alves e Susana Pacheco

 

Capicua – Capicua

Apesar de já ter nome feito no underground do hip-hop portuense, fruto das mixtapes e das colaborações que tem feito ao longo dos últimos anos, foi só em 2012 que a portuguesa Capicua se decidiu a lançar o seu álbum de estreia. Porém, apesar de estreante, Ana Fernandes está longe de ser uma rapper inexperiente, e este Capicua é bem prova disso. Com letras fantásticas, um flow irrepreensível e uma produção do outro mundo (a cargo de nomes como Sam the Kid, D-one, Ghuna X ou Nelassassin), a estreia de Capicua foi uma das coisas que mais cor deu ao 2012 nacional.

Escolha e texto de João Morais

 

Miss Lava Red Supergiant

2012 marca o regresso do quarteto da região de Lisboa, os MISS LAVA com o segundo álbum de originais Red Super Giant. Um disco repleto de rock direto com algumas influências do rock sulista americano. O álbum contou com ajuda de Matt Hyde na masterização, com a produção de Samuel Rebelo, baixista da banda, o que levou a um equilíbrio de sonoridade e um toque único que identifica a banda desde o primeiro disco. O primeiro single do novo álbum chama se Ride e vem demonstrar a força e a vontade da banda em regressar aos palcos. Pode se dizer que é um álbum em 2 partes, heavy e blues rocker, o que demonstra a atitude da banda em conquistar diversos públicos e afirmar se com o seu som que os tornou únicos a nível nacional.

Texto de André Cardoso. Escolha de André Cardoso e Alexandre Colaço

 

Amarionette – Num Dia Mau Consegue Ver-se Para Sempre

Uma tempestade avassaladora reside no primeiro registo discográfico dos Amarionette, Num Dia Mau Consegue Ver-se Para Sempre.

João Galrito, João Ortega, Joana Vieira e Miguel Loureiro, oriundos do Seixal, criaram o projeto em 2007, mas o primeiro LP chega após cinco anos de percurso.

Instrumentais intensos, capazes de arruinar ouvidos acostumados a estilos preconcebidos, são os ingredientes que envolvem os nove temas da banda. Uma dimensão onde Monstros de Ninguém devoram os nossos sete sentidos, literalmente. Há poças de chuva que se formam provenientes de um amor em Corvo de Papel e uma dose de anestesia provocada por Cloromórfio. Referências de literatura portuguesa também pautam mediante um excerto de Almada Negreiros em A Scena do Ódio e a letra de A. Caeiro, da autoria de João Galrito.

Ouvir o disco é um desafio. Percorram esse caminho!

Escolha e texto de Sofia de Brito

 

Tv Rural – A Balada do Coiote

Passados cinco anos do primeiro trabalho, os Tv Rural voltam com um disco consistente, não fingem o profissionalismo e dão um tiro em cheio.

Rapidamente nos apercebemos disso com Quem me Chamou e Faz-te Um Homem Rapaz, as duas primeiras músicas que antecedem um formidável alinhamento. Maduro e cru, o single Correr de Olhos Fechados confirma para os mais desconfiados que os Tv Rural não são uma banda qualquer. Vão-nos conquistando com um alinhamento de músicas de corpo inteiro muito acima da média. Um dos grandes momentos do disco chega com Morde-me e Se,  músicas notáveis que mostram influências de luxo e técnica de meia-idade. Com Toma o Comprimido os Tv Rural acabam bem um disco com cabeça, tronco e membros bem constituídos. Felizmente, com tanta coisa boa a fazer-se em Portugal é difícil fazer algo novo e não soar a imitação. Os Tv Rural passaram no teste sem dificuldades e têm, para mim, a melhor nota do ano.

 Escolha e texto de João Churro

 

The Gift Primavera

A meu ver, este álbum foi uma surpresa, porque foi o que me fez gostar desta banda, depois de tantos registos como Vynil (1998), AM FM (2004), ou até Explode de 2011, só com este Primavera consegui apreciar a música dos Gift inteiramente. Além de ser original e calmo, representa muito da essência dos elementos enquanto grupo e isso passa para o público de uma forma muito clara em temas como Blindness, Meaning of Life ou o homónimo Primavera.

Escolha e texto de Marta Aguiar

 

Reality SlapNecks & Ropes


Reality Slap têm-se tornado um dos nomes referência no hardcore nacional e este álbum merece o destaque. O sucessor de My Brother Evil é daqueles para ouvir em repeat e desejar ver ao vivo. Se forem a conduzir, tentem não atropelar ninguém.

Neste álbum há de tudo um pouco, malhas explosivas como Silence, a primeira que saiu para audição, ou Reanimator e outras mais trabalhadas tais como Check your Pulse. É consistente e variado, com guitarradas à thrash pelo meio, solos q.b e coros como manda a lei. Pede todos aqueles moves que se sabe, headwalks incluídos.  Podemos contar igualmente com um leque de convidados de luxo: o Justice de Trapped Under Ice (Crowds), Winston McCall de Parkway Drive (Storm), Poli de Devil in Me e Mike de Men Eater (Eyes Wide Shut)

Os álbuns não se medem aos minutos e os vinte e dois que este demora são suficientes para deixar a missão cumprida: um grande disco de hardcore nacional. A banda não deixou nada a provar.

Escolha e texto de Bárbara Sequeira

Diabo na Cruz Roque Popular

As intrincadas mutações sociais que 2012 trouxe, o mercado de trabalho, offshores, os boys, golden shares, bursting bubble do mercado imobiliário, os cortes, as manifs, a música de intervenção de volta à revolta da população portuguesa, vilipendiada pela crise, exigiam alguém que os cantasse. E, numa cultura musical povoada pelo imaginário subleve, parecia que a memória sonora apagara a herança dos cantautores, como se o “meio século comido pela traça” fosse fabulado, não mais passível de existir.
Contudo, felizmente, algumas sementes floriram, entre as quais o Roque Popular, dos Diabo na Cruz, uma exímia simbiose entre a música tradicional portuguesa, dos cantares da Beira Baixa ao bailarico, e o punk rock eléctrico. Este foi o segundo longa-duração do grupo, após Virou!, de 2009, saindo também com o selo Flor Caveira, já, oficialmente, sem B Fachada, que ainda participa, pontualmente, nalguns temas.
A iniciar, Bomba-Canção, lembrando um A Cantiga É Uma Arma, vociferando a rebeldia imberbe, a vontade de agir, em Baile na Eira e Estrela da Serra, culminando no epíteto geracional que é Pioneiros, “que é feito dos pioneiros, dos novos pioneiros, desses sempre prontos a agarrar o mundo inteiro?”. Ainda que a plêiade seja vasta, com os mornos Luzia ou Fronteiras, um cru relato da vivência laboral juvenil, o que mais se louva é a intrépida força deste grupo nacional, reavivando as icónicas raízes do triste fado luso, acoplando-lhe a rúbea luta da intransigência consciente, não arredando pé.

 Escolha e texto de Tomás Quitério e Simão Chambel