Verdadeiro artesão da música Pop cantada em português, B Fachada conseguiu atingir nos últimos anos, através de um impressionante ritmo de dois discos por ano, um estatuto de tal maneira elevado que já lhe garantiu, entre outros elogios, comparações a nomes como Zeca Afonso, Sérgio Godinho, José Mário Branco ou António Variações. Depois de ter editado no início deste Verão o viciante Criôlo, disco de consagração perante um público mais vasto, o cantautor lançou no passado dia 27 o EP O Fim. Este registo, que Fachada garante ser o último antes da anunciada sabática de 2013, é o tema da review de hoje.

Uma das características mais admiráveis em B Fachada é, para além da sua extraordinária prolificidade, a forma como consegue gravar cada disco do seu repertório com uma aparente despreocupação com tudo o que fez anteriormente. Esta sua coragem de ignorar uma “linha de continuidade” e de arriscar a alienação da opinião de fãs e críticos, preferindo estar sempre a saltar “sem rede” de uma sonoridade para outra é, para mim, aquilo que faz de B Fachada um artista de excepção na música Pop nacional.

Não é de admirar, portanto, que tenha passado os últimos meses em pulgas para ouvir o disco “final” de B Fachada e descobrir as suas novas roupagens sonoras, numa expectativa que só se viu exacerbada depois do anúncio do regresso à viola braguesa, instrumento que marcou o início da carreira do artista. Ainda que electrificado e adulterado, o retorno ao som da braguesa pôs os corações de muitos fãs mais “velha escola” do cantautor a pular de alegria, e eu não escapei a esse entusiasmo. E agora que O Fim já foi ouvido e digerido um sem número de vezes, posso afiançar isto: apesar de não ser perfeito, o mais recente registo de B Fachada é, sem dúvida, um dos melhores EP’s deste 2012.

Trazendo um corte radical com Criôlo, O Fim afasta-se dos teclados e mostra-nos o regresso de B Fachada ao esquema “voz + braguesa”, pontualmente polvilhado pela percussão. Porém, apesar de neste aspecto estar próximo da Folque “fachadesca” simples e desprovida de artifícios dos seus primeiros registos “a sério”, este EP apresenta-nos uma sonoridade algo densa e opaca, fruto do Lo-Fi da produção (a cargo de Eduardo Vinhas e B Fachada) e dos filtros (delay e reverberação) utilizados na sua gravação. Isto, combinado com o tom intimista que envolve o disco, faz com que este O Fim esteja num meio-caminho entre a abrasividade espessa de Há Festa na Moradia (2010) e o aconchego penumbrento de B Fachada (2011).

Ao nível das letras, O Fim traz-nos um registo incrivelmente auto-referencial; abordando sobretudo assuntos pessoais, como a anunciada pausa na carreira, o nascimento do filho (e a especulação sobre um possível segundo “rebento”) e a reflexão sobre o legado deixado nestes últimos 5 anos, este EP mostra um B Fachada tão autobiográfico quanto no homónimo de 2011. Porém, é preciso também destacar o “piscar-de-olhos” a Zeca Afonso em Amor-de-Mãe, faixa que, com os seus “kiririris” e passagens politizadas, chega a lembrar Venham Mais Cinco ou O Que Faz Falta.

Quanto a defeitos ou falhas neste EP, não posso dizer que haja muito por onde pegar. Tirando a questão duma inconsistência menor e pontual na qualidade das canções, o único problema relevante que encontro neste registo é bastante pessoal e tem a ver com as minhas expectativas: confesso que esperava, para este O Fim, um longa-duração, e o facto de este registo não ir muito além dos 20 minutos desiludiu-me um pouco. Mas tirando esse aparte, esta é uma obra sólida e coerente.

Em relação aos destaques individuais, devo assinalar a lânguida e comovente Boa Nova, a mordaz e certeira Amor-de-Mãe, a terna e encorpada Mana e a corrosiva e directa Fado como as minhas peças favoritas deste O Fim. Quanto às faixas menos apelativas, aponto as restantes O Fim e Mano, canções que falharam em me conquistar por completo.

Resumindo, este O Fim traz-nos uma belíssima colecção de 6 canções tensas, carregadas e que servem que nem uma luva para o papel de “canto do cisne” para que foram criadas. É certo que não é um EP perfeito e que, como sempre acontece com as obras de B Fachada, acaba por não matar a fome por inteiro. No entanto, apesar das suas imperfeições, O Fim vem rematar em beleza estes 5 anos intensos em que B Fachada, através de 12 (!) registos em nome próprio, conseguiu ascender ao topo da nova música portuguesa. Agora só nos resta esperar que o ano sabático passe depressa e tentar não pensar muito na orfandade que 2013 nos reserva. Mas uma coisa é certa: B Fachada vai fazer muita falta a este cantinho à beira-mar plantado.

Nota Final: 4.7/5

[O Fim pode ser ouvido na íntegra em streaming, de forma gratuita, no Bandcamp de B Fachada (link)]

*Este artigo foi escrito, por opção do autor, segundo as normas do Acordo Ortográfico de 1945