Em 2012, foram muito poucos os festivais de música que escaparam à equipa do Espalha-Factos. De norte a sul do país, no litoral e no interior, no verão e cada vez mais ao longo de todo o ano. Porque não seria justo reduzi-los a um top, decidimos avaliar com prémios aqueles que mais nos marcaram.

 

Skrillex |  Pedro A. Pina/Antena 3

Prémio Mais espaço livre: Super Bock Super Rock

A 18.ª edição do Super Bock Super Rock foi a grande desilusão do ano, e a menos concorrida da história do festival. Não houve pó, nem horas perdidas no trânsito ou filas nos chuveiros e restauração – também devido às anunciadas melhorias das condições, mas sobretudo por falta de gente. Afinal, era difícil manter a fasquia, depois de um ano com Arctic MonkeysArcade FirePortishead ou The Strokes. Ainda assim, a enchente em Peter Gabriel e os concertos do eletrizante Skrillex ou de Oh Land ainda entusiasmaram. E sim, custa ver uma banda como Incubus dar um concerto para tão poucos fãs… AL

 

Eddie Vedder | Raquel Cordeiro/SAPO On The Hop

Prémio Melhor semana de férias: Sudoeste TMN

Já o Sudoeste TMN pode continuar a dar-se ao luxo de não fazer depender a sua afluência do cartaz musical. A grande vantagem em relação a anos anteriores foi o importante reforço de segurança. O concerto de Eddie Vedder entrou diretamente para a lista de melhores do ano e fomos obrigados a dar a mão à palmatória em relação à qualidade do irresistível furacão Jessie J. De resto, o mesmo de sempre: um ambiente relaxante onde a música quase nunca é o mais importante. PP

EDP Paredes de Coura | Alexandra Silva

Prémio Nuvem mãe: EDP Paredes de Coura

Também o Paredes de Coura é imune aos nomes que o cartaz apresenta. Festejou o 20.º aniversário submerso tanto no seu tão intrínseco e singular espírito de convívio e partilha, como no dilúvio, que acabou por prejudicar alguns espetáculos e obrigar a uma valente ginástica no campismo. Felizmente, a tempestade abrandou para assistirmos ao histórico (e difícil de descrever) regresso dos Ornatos Violeta aos palcos, dez anos depois, com uma das maiores enchentes de sempre no anfiteatro natural. MR

 

The Cure | Débora Lino

The Cure | Débora Lino

Prémio 90’s best bands & kids: Optimus Alive!

Atuações de bandas como Radiohead, The Cure, Mazzy Star e The Stone Roses permitiram cruzar no Passeio Marítimo de Algés fãs que eram jovens nas décadas de 80/90 e os seus filhos, hoje miúdos de 20 e poucos anos, que não ficam indiferentes a estas lendas musicais. Guardamos também na memória o folk enérgico dos Mumford & Sons e as três horas de concerto dos The Curesó para quem sabe. Uma produção exímia e bandas de calibre superior: não é por acaso que o Optimus Alive! tem uma enorme projeção internacional e conseguiu chamar, durante os três dias, 155 mil pessoas. Um ponto negativo? Ainda hoje lamentamos o cancelamento do concerto de Florence + The Machine. SP

 

Rock in Rio | Rita Sousa Vieira

Prémio Mais comercial: Rock in Rio

Realizado no ingente Parque da Bela Vista, o mega evento cultural voltou a agregar várias gerações. Da energia dos Limp Bizkit à vivacidade romântica de Stevie Wonder, passando pela arrojada atuação dos Kaiser Chiefs – que contou com uma viagem de slide do vocalista Ricky Wilson –, o festival afigurou-se, para não variar, como uma experiência familiar. Contudo, as excessivas atividades extra-musicais disponíveis ao longo do recinto, entre diversões e amostras publicitárias, conferiram um caráter ultra-comercial ao evento, deixando patente a banalização cultural de que tem sido alvo, e a frivolidade dos organizadores na abordagem às atuações dos artistas. DV

 

Prémio Rookie do anoOptimus Primavera Sound

Mesmo com a irritante chuva e com os dolorosos cancelamentos, o Optimus Primavera Sound conseguiu, na sua primeira edição, conquistar os nossos corações como nenhum festival o havia feito até então. Desde o cartaz de luxo à organização competente, passando pelo ambiente incrível e pelo belíssimo recinto, tudo se juntou para proporcionar um evento espantoso. Destaque ainda para a atuação dos The Flaming Lips (a felicidade em forma de concerto) e de Jeff Mangum (o sonho  molhado e impossível de um melómano tornado realidade). JM

 

Vodafone Mexefest | Rita Sousa Vieira/SAPO On The Hop

Prémio Metros e metros de fila: Vodafone Mexefest

Na sua segunda edição, contou com um aumento de 17% de espetadores em relação ao ano anterior. No festival alternativo da Avenida da Liberdade destacaram-se Django Django e Alt-J, mas também um grande desiquilíbrio. Se nalguns casos quem se atrasou ficou à porta (ou melhor, nas imensas filas), com os locais dos concertos mais desejados a serem rapidamente lotados, é também triste notar que artistas menos conhecidos tenham tocado para cerca de 20 ou 30 pessoas. O festival português em que pagas bilhete mas não tens a certeza se assistes aos concertos que mais queres. AL

Prémio Agora já sou da cena: Milhões de Festa

Depois de gerar burburinho nos círculos mais alternativos nos passados dois anos, teve a sua explosão de popularidade este ano, com o Parque da Cidade de Barcelos a rebentar pelas costuras e o palco Piscina a ter de controlar as entradas tal a quantidade de gente. Com mais de 60 bandas e sem apoios comerciais, são compreensíveis as falhas pontuais. O que interessou mesmo foram o metal barbudo dos Baroness e Weedeater, a sensibilidade mais indie dos Alt-J e Connan Mockasin, ou a aposta segura do lineup da Lovers & Lollypops (Memória de Peixe, Throes + The Shine ou Black Bombaim). Tanta foi a variedade de géneros músicais, que qualquer um deve ter saído de Barcelos satisfeito. Vamos esperar o que é que o senhor Joaquim Durães e companhia fazem para o ano. AMS

 

Gogol Bordello | José Mota/Global Images

Prémio Low cost: Marés Vivas

Franz Ferdinand, The Cult, Gogol Bordello e Billy Idol não estão propriamente na berra, mas assistir a concertos destes nomes de inegável peso por uns módicos 50€ sabe sempre bem. Os que acusam a organização do Marés Vivas de chamar bandas cujos concertos em Portugal se repetem com frequência certamente desdenham a Praia do Cabedelo, mas para os festivaleiros com menos rodagem isto é como encontrar valiosas pechinchas na época de saldos. Em 2013, a fórmula promete repetir-se, com as já reveladas atuações de 30 Seconds to Mars e James Morrison. PP

 

Bons Sons

Bons Sons | Rita Sousa Vieira

Prémio Amizade: Bons Sons

Uma aldeia, boa música portuguesa e uma caneca. Durante quatro dias, não fomos festivaleiros; fomos parte da comunidade da aldeia de Cem Soldos. O festival Bons Sons é a prova de que é possível existir um festival apenas de música portuguesa, com público, sem grandes patrocínios e suportado inteiramente pelo orgulho bairrista da população.Com um cartaz vastíssimo e para todos os gostos e idades, destacamos os momentos em que nos emocionámos na igreja ao som de projetos trazidos pel’A Música Portuguesa a Gostar Dela Própria, a mística no concerto de António Zambujo ao pôr do sol, as danças com desconhecidos graças a Celina da Piedade ou as amizades travadas com quem nos soube acolher tão bem. Lamentamos, mas compreendemos, que só regresse em 2014. RSV

 

Mêda + | Rita Sousa Vieira

Prémio Oásis: Mêda +

O Mêda + voltou a ser um pólo de música e cultura numa zona cada vez mais afetada pela desertificação e envelhecimento, demonstrando um crescimento consciente e sustentado. O festival contou com um parque de campismo barato, em boas condições (água quente!!), com direito a piscina e zona relvada, e com bons nomes da música portuguesa, como Matilha, O Bisonte, X-Wife e Mão Morta (sim, esses). A apontar negativamente apenas a falta de sombra na zona de campismo e a sua distância até à zona do recinto. Mas fora isso, já tínhamos referido que é gratuito? Uma boa surpresa, a manter debaixo de olho com muita atenção. AMS

 

Peter Hook | Rita Sousa Vieira/SAPO On The Hop

Um festival de outono por excelência, o Misty Fest emancipou-se na edição deste ano. Não só migrou para outros palcos (Lisboa e Porto) como conseguiu ter um cartaz mais diversificado (não necessariamente mais coerente). O destaque vai, sem dúvida, para o concerto de Peter Hook no CCB. Pelos preços muitas vezes demasiado caros, fica com o Prémio É festival mas não há cá passes. RSV

Prémio Mesmo sem alteradores de humor, são dos melhores dias da tua vida: Festa do Avante! teve um cartaz mais trabalhado que nunca (pese algumas más decisões no alinhamento) e a panóplia multicultural e vastidão de possibilidades de conhecimento que juntam pais e filhos continuam a fazer jus ao lema “Não há festa como esta“. Apesar disso, os preços pouco convidativos e a ação dos agentes da autoridade, com dificuldades em coadunar-se com o espírito do festival, foram problemas a apontar. TQ

O Festival da Vidigueira, a fechar o verão, assumiu-se como uma boa promessa: condições de excelência (três piscinas e um enorme relvado para aproveitar o tórrido calor alentejano), nomes seguros da música nacional (Jorge Palma ou Miguel Araújo) e uma produção ao nível dos melhores; só faltaram mesmo o espírito festivaleiro e a curiosidade para fugir à norma e educar os ouvidos. Assenta-lhe bem o Prémio O mais difícil está feito, já que tem tudo para despontar. PP

O Rock’Art Bairrada proporcionou uma rara interação entre o público e os artistas. É pena que costume ter tão pouca gente, mas se acontecesse o contrário talvez as vivências de lá não fossem tão únicas e simbólicas. Em 2012 contou com grandes nomes do panorama underground nacional: Memória de Peixe, Throes + The Shine ou More Than a Thousand. Prémio Melhor, só leitão. EG

O Andanças 24 contou com o melhor isolamento sonoro e os músicos mais resistentes que se podem imaginar. O que se pretendia era manter a tradição do festival, mas concentrando-o em 24 horas, com concertos em simultâneo em palcos vizinhos. O último concerto do cartaz tinha hora marcada para as 3h30 e depois disso houve jam session até às 10h. Foram 24, mas mais pareciam 36. O mote dizia non-stop, e foi para cumprir. No Byonritmos, com um ambiente que exigia a dança, existiam poucos lugares à sombra e o rio tinha menos de um metro de profundidade. O campismo não tinha luz e pelo silêncio palmilharam-se boas distâncias. Ainda assim, contou com boas bandas, bons workshops e noites frias ansiando pelo nascer do sol que aquecia as tendas. A boa energia correu como a água fresca dos duches improvisados. Também pela boa onda, ambos levam o Prémio Better Not StopAMO

 

Sudoeste TMN | Sara Alves

Para os cartazes de 2013 já foram reveladas algumas atrações de peso, como Blur (Optimus Primavera Sound), Green Day (Optimus Alive!) e Queens Of Stone Age (Super Bock Super Rock). Perante as dificuldades que a acentudada crise impõe, há quem diga que, se antes “íamos aos festivais”, agora o orçamento “só nos permite escolher um”. Os números apontam no mesmo sentido: no final de agosto de 2012, registaram-se menos 600 mil entradas nos festivais de verão em relação a 2011. Em que festivais é que nos vamos encontrar este ano?

Com as colaborações dos festivaleiros Alexandre Lopes, Ana Mafalda OliveiraAntónio Moura dos Santos, Daniel Veloso, Emanuel Graça, João Morais, Margarida Ruela, Pedro Pereira, Rita Sousa Vieira, Susana Pacheco e Tomás Quitério