2012 foi um ano extremamente importante para Guimarães. Esta pequena cidade nortenha foi Capital Europeia da Cultura, tendo apresentado um vasto programa a nível das artes performativas, do cinema, da literatura, das artes plásticas e da arquitetura. Ninguém ficou indiferente a este projeto e sob o lema “Tu fazes parte!” a inclusão da comunidade vimaranense foi intensa.

Após este ano intenso de cultura, o Espalha-Factos saiu à rua para analisar o feedback que os espetadores e os artistas de  Guimarães 2012 tiveram desta Capital, quais as perspectivas para o futuro, o que falhou e o que de melhor se fez. Quanto aos artistas é importante salientar que apesar da sua satisfação na participação deste projeto, não sentem que tenha sido um grande impulso à sua carreira, mas apenas mais um trabalho com maior visibilidade.

Aos artistas foram feitas as seguintes perguntas:

1. O que mais vos marcou da CEC?
2. Qual a importância deste evento para Guimarães?
3. E para a vossa carreira?
4.O que acham que a CEC trouxe para o panorama cultural português?
5. Quais as perspectivas de futuro?

Let the Jam Roll (banda vimaranense)

  1. Sem dúvida a oportunidade de representar a Guimarães CEC2012 em Maribor (Eslovénia), a outra capital europeia da cultura este ano. Estivemos também na Itália e Áustria, tendo sido uma experiência inesquecível.
  2. A crise económica (mas essencialmente a crise motivacional) não se sentiu com tanta força em Guimarães como no resto do país. Ao nível cultural, acreditamos que uma nova semente foi lançada e que, se bem explorada, poderá representar uma mudança de paradigma; ao invés de esperar que a cultura “venha até nós” poderemos (e devemos) ser nós mesmos os dinamizadores culturais. É isso que procuramos. Durante 2012, inúmeros artistas musicais (e de outras áreas artísticas) tiveram oportunidade de criar projectos interdisciplinares, sendo essa uma forma de criação que se pretende perpetuar e explorar. Sente-se que essa vontade veio para ficar. Ainda no que diz respeito especificamente à música, é lamentável que a orquestra fundação estúdio seja um projecto que acabe no final deste ano pois Guimarães tem sem dúvida dimensão, músicos e instalações adequadas para abarcar uma grande orquestra.
  3. Até ao momento não sentimos que a CEC2012 tenha sido uma especial mais valia na evolução da carreira dos Let the Jam Roll. No entanto, todos os elementos do projecto cresceram individualmente sendo que esperamos que esse crescimento se reflicta no colectivo a médio prazo.
  4. A CEC reflectiu, pensamos nós, uma nova tendência programática que esperamos se alastre ao resto do país. Os preços da bilheteira foram estabelecidos tendo como base um valor máximo de 10 euros. Essa decisão foi importantíssima e fulcral em toda a programação e no seu sucesso. Toda a população teve acesso à cultura. Outro aspecto importante é que se verificou que nem só com grandes nomes se enchem salas de espectáculo. Em Guimarães, os espectáculos estiveram quase sempre cheios, uma vez que a divulgação foi bem feita. Esperamos que este ano contribua também para que futuramente os projectos de âmbito nacional estejam mais receptivos a trabalhar com comunidades e com projectos regionais. Isto verificou-se durante todo o 2012 em Guimarães e cremos que foi um caso sério de sucesso, tendo sido benéfico para todas as partes envolvidas.
  5. Aliando a publicidade que tivemos com o lançamento do próximo álbum (prevê-se que saia em Abril), esperamos crescer em Portugal e, especialmente no estrangeiro, onde parece que a nossa música tem mais aceitação. Essa expectativa de crescimento é realista – não esperamos um “boom” – sendo que os LJR não são nem serão uma banda “comercial” e não construímos “música a metro”, com um máximo de 4 minutos para divulgação em rádios ou televisão. Os nossos temas podem ter 4 ou 8 minutos, conforme a composição e a inspiração musical o dite, sendo que se torna assim mais difícil divulgar o nosso conceito musical da melhor forma. Obviamente que os concertos ao vivo são a nossa melhor valência e é nesse sentido que continuaremos a trabalhar.

let the jam roll

Vera Santos (intérprete /bailarina)

  1. A disseminação da imagem e do “espírito” da CEC pela cidade.
  2. Eu não vivo em Guimarães, pelo que não consigo responder de uma forma local. Gostaria de saber, em termos de público e de hábitos de consumo de cultura, qual foi o impacto. Vivo no Porto que foi Capital da Cultura em 2001 e onde trabalhei na produção de eventos, e participei em espectáculos em Lisboa quando foi Capital da Cultura em 1994; a ideia que tenho é que estes eventos são importantes para o desenvolvimento das cidades, para a sua renovação e reabilitação enquanto centro urbano e destino turístico; mas condenam-nas à desaceleração no ano seguinte… é uma condição à partida. A sua verdadeira importância, o sucesso do investimento, no meu entender, depende mais do que for feito no ano seguinte do que directamente da actividade do ano da Capital.
  3. Para a minha carreira foi uma oportunidade de fazer o meu trabalho, um local de apresentação dos espectáculos em que participei. Não foi relevante ser em Guimarães CEC, enquanto artista, o relevante é o projecto em que participo e para a Capital é relevante que ele seja um sucesso. É de nomes e projectos com visibilidade que se faz a programação de uma CEC, para os artistas são oportunidades de trabalho.
  4. Um maior número de espectáculos e actividades no Norte de Portugal.
  5. Novamente, não tenho opinião de âmbito local; gostaria de saber o que será das estruturas criadas (CIAJG, Fábrica ASA, Fundação Orquestra Estúdio, etc) e dos hábitos de consumo. Quanto aos eventos, aqueles que foram encomendas terão de por si fazer o que é normal, procurar a circulação das obras (noutras Capitais, eventualmente) e as grandes companhias continuarão também a fazer os seus circuitos. A população adaptar-se-á à oferta que lhe for dada e acredito que lembrará a experiência deste ano durante muito tempo.

Valter Lobo (músico)

  1.  Pessoalmente, marcou-me a minha participação mais directa. Participar no “Mi Casa es Tu Casa” foi especial pelo conceito e envolvência. Sente-se o que foi a CEC do lado dos artistas. No geral, a dinamização da cidade e do seu povo. Estiveram unidos e em sintonia.
  2. Com a CEC Guimarães ganhou um dinamismo muito interessante, os mais jovens podem ter ficado influenciados pelo clima de magia vivido durante o ano e despertarem para criações artísticas próprias. Juntamente com as infra estruturas que foram construídas e dos mecanismos gerados, veremos daqui para a frente se o ano da CEC se vai reflectir em termos artísticos e culturais.
  3. Para a minha carreira representará sempre uma experiência diferente, o carimbo de ter participado num projecto desta envergadura e, na minha memória, o ano da CEC será sempre o ano em que surgi no mundo da música nacional. Se continuarem a existir iniciativas como as que surgiram durante este ano, terei sempre o maior prazer em participar e evoluir em termos artísticos e pessoais cooperando com outras pessoas.
  4. Para Portugal trouxe uma boa nova: de que a cultura e a arte não estão nem devem estar sediadas em Lisboa e Porto. Há outras cidades com grande potencial. Ficou a prova. Por outro lado, a presença de centenas de artistas portugueses mostrou que não temos que importar tudo. Temos gente do melhor que há mas que também precisa de um feedback dos portugueses. Se os artistas portugueses fazem a sua arte e se o povo português não a consome, será muito difícil resistir. Mas parece que estamos mais atentos e menos preconceituosos.
  5. Gostaria que Guimarães continuasse como uma cidade cultural, e que pelos seus meios prosseguisse essa missão de criar conduções para a cultura. Que não tenha sido nada em vão. Quanto a mim, teria todo o prazer em estar nos dois lados, quer do artístico quer do organizacional. Vivo muito esta área e adoraria estar mais integrado. Vou fazer por isso, também.

Ao público optamos por quatro perguntas, nomeadamente:

1. O que mais te marcou da CEC?

2. Sentiste-te incluída?

3. Quais os pontos fracos e fortes?

4.Qual a importância deste evento para Guimarães e para o panorama cultural português?

Alice Sampaio (18anos)

  1. Sem dúvida o espírito de cooperação entre tantos grupos dentro da nossa comunidade e a atmosfera que se sentiu em Guimarães durante todo este ano.
  2. Claro, cada projeto realizado este ano convidou à participação de toda a comunidade.
  3. Penso que este evento falhou no que se refere ao orçamento. Constantemente ouvimos queixas de pessoas que trabalharam durante este ano em vários projetos e que ainda não foram remuneradas. Fora esse contratempo penso que a CEC foi uma mais valia para a cidade e teve projetos fantásticos.
  4. Este evento abriu novas portas para Guimarães e Portugal, e mostrou a sua potencialidade, principalmente a nível cultural. Deu a oportunidade a grandes artistas da cidade e não só, de mostrarem os seus projetos e criatividade. Além disso, a CEC levou a uma nova forma de ver a cultura, tanto para os vimaranenses, como para todas as pessoas que visitaram Guimarães e puderam fazer parte deste evento.

Mariana Sampaio (14anos)

  1. Os eventos musicais foram os que mais captaram mais a minha atenção.
  2. Sim, senti que a CEC integrou todos os vimaranenses e nos convidou a todos a aderir ao projeto.
  3. Penso que o ponto fraco foi o facto de ter sido investido demasiado dinheiro no projeto. Como ponto forte penso que com este evento Guimarães ganhou um novo reconhecimento perante Portugal e perante outros países.
  4. Considero este evento muito importante, pois fez com que a nossa cidade fosse reconhecida tanto a nível nacional como internacional. Ajudou também o património, pois para que a cidade se apresentasse bem, foram necessárias muitas reconstruções e aperfeiçoamentos que deixaram a cidade diferente para receber turistas.

plataforma das artes

João Fernandes, 17 anos

  1. O que mais me marcou foi o “mi casa es tu casa” porque nunca pensei que houvesse tantas casas voluntárias para o evento
  2. Senti, porque o acesso e participação nos projetos era fácil, e permitia que as pessoas ajudassem na organização.
  3. Apesar de ser uma iniciativa nova e interessante, os espectáculos de maior dimensão interferiam com o trânsito e com passagens pedestres, o que atrapalha bastante a circulação na cidade.
  4. A CEC tornou Guimarães num importante foco turístico da Europa. Guimarães recebeu um forte impulso em atividades culturais que afectaram positivamente as pessoas. Acho que a CEC veio não só revelar a cultura que já existia em Guimarães, não só num efeito temporário, mas também expandi-la e prolongá-la.

Fernando Castro, 48 anos

  1. O que mais me marcou foi, sem dúvida, a adesão e o envolvimento dos vimaranenses.
  2. Sim, totalmente. Guimarães é a minha cidade e os eventos estavam preparados para acolher toda a gente.
  3. Penso que dos pontos fortes se pode destacar a renovação e modernização da cidade, a criação de novas infraestruturas, a grande afluência de turistas, que veio em muito impulsionar o comércio local, e o grande leque e variedade de eventos. O que correu menos bem foi toda a polémica que acabou por levar à demissão de Cristina Azevedo do cargo de Presidente da Fundação Cidade de Guimarães.
  4. Este ano, Guimarães saiu, sem dúvida, do anonimato cultural. Para além disso, a cidade e o país beneficiaram de um enriquecimento cultural impulsionado pela chegada de novos artistas, ideias e oportunidades.

Mariana Pinto, 18 anos

  1. Sem dúvida que foi todo o movimento que a cidade ganhou… De repente, parecia que Guimarães ganhava vida, não parava. Via-se gente por todo o lado e eu adorava ver essa confusão, a todos os minutos decorria um evento quer fosse esse de dança, musica, exposições…
  2. Sim, penso que a organização fez um óptimo trabalho a receber as pessoas
  3. O ponto mais forte da CEC foi o acesso do público aos eventos culturais a tão baixo custo ou mesmo nenhum… Acredito que com as dificuldades que os portugueses se deparam todos os dias, uma das poucas coisas que ainda temos é a cultura e é importante que seja para todos o acesso a ela
  4. Este evento foi óptimo para Guimarães, acredito que o turismo na cidade esteve sempre em alta e para além disso, trouxe um sorriso nos lábios aos seus habitantes. Quanto ao panorama cultural português, penso que é um ano que as pessoas não vão esquecer tão facilmente, este título trouxe a Portugal a cultura como já não tínhamos há algum tempo.

fura del baus