Quatro salas, quatro peças, cada uma de 15 minutos. Um cenário intimista, de contacto direto com os protagonistas. Um tema mensal, e uma oportunidade para relaxar depois do esgotante dia de trabalho.

Foi no início de maio que o coração de Lisboa enriqueceu uma das suas artérias com a abertura do Teatro Rápido, um novo espaço teatral situado junto à Rua Garret, zona emblemática do mundano Chiado. Testemunha de incontáveis manifestações artísticas e ponto de passagem de inúmeras gerações culturais, arriscamo-nos ainda assim a afirmar que nenhuma dessas atividades tem paralelo com o que aqui noticiamos hoje. Porque, desengane-se quem julga que o nome deste teatro é uma mera tentativa de fuga à banalidade de designações. O Teatro Rápido é muito mais do que isso. Mal entramos, compreendemos que o espaço introduz algo inovador. A sua informalidade, destoante da convencionalidade característica dos teatros, remete para uma sensação acolhedora, que contrasta com a habitual impessoalidade. A irreverência, contudo, cria estranheza. “É mesmo aqui?”, perguntava uma senhora à nossa frente, surpreendida pela simplicidade da entrada.

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O Teatro Rápido é um conceito trazido pelo diretor artístico Alexandre Gonçalves, da Encena – agência de atores fundadora do projeto. Esta ideia consiste na apresentação de peças com a duração de 15 minutos, a um preço acessível (3 euros). Os espectadores têm a oportunidade de assistir a uma representação intimista, numa espécie de “salas-cabine”, sem palco. As sessões acontecem a partir das 18 horas, com o intuito de proporcionar um momento de relaxamento pós-laboral. Em simultâneo decorrem quatro espetáculos – repetidos de 25 em 25 minutos – independentes entre si e dispostos em quatro salas distintas, conceito que confere ao espectador a liberdade de optar e elaborar o seu próprio programa.

O tema do mês de dezembro, associado à quadra, intitula-se Ouro, Incenso e Birra. Optámos por assistir a duas representações: Bank, Bank, you’re Dead – interpretada por Pedro Carvalho e Joana Ribeiro dos Santos –  e Diz-me Rápido – protagonizada por Sofia Nicholson e Marina Albuquerque. Se a primeira retrata a relação de dois irmãos, absorvidos pela engrenagem da máquina capitalista, a segunda simula um ensaio, com as atrizes a manifestarem o seu descontentamento pela interrupção causada pela entrada do público. Em ambos os casos, subleva-se uma experiência de intimidade e harmonia entre atores e público, inovadora face à tradicional barreira introduzida pelo palco. “Olhamos para os rostos das pessoas, o público está mesmo à nossa frente, há uma relação direta. Por outro lado, o facto de fazermos várias sessões do mesmo espetáculo dá uma mecânica, uma vivacidade e um traquejo útil para lidar com as diversas situações e reações dos espectadores” afirma Marina Albuquerque, atriz profissional e protagonista de uma das peças em cena.

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Ruy Malheiro, produtor executivo do Teatro Rápido e ator profissional, aponta também essa característica como basilar do projeto. “O espectador vive tudo de uma forma muito mais intimista e muito mais próxima. Consegue sentir o respirar do ator, nalguns casos integra-se até na cena. O público vive as peças com uma outra carga emocional e um envolvimento que um espetáculo de plateia/palco não permite tão facilmente”. Em conversa com o Espalha-Factos, Ruy destaca, sobretudo, o sentido inovador do projeto. A seleção das peças exibidas deriva de um processo prévio de candidaturas, subordinado a um tema mensal específico, o que significa que qualquer pessoa pode apresentar um projecto. “O objetivo primeiro era criar uma oportunidade para que os atores da Encena apresentassem os seus trabalhos. Rapidamente percebemos que o projeto e o conceito não se deveria limitar aos atores da agência, por isso abrimos a porta a todos”, afiança.

Recentemente galardoado com o prémio Novidade do Ano 2012, atribuído pela revista Time Out, o Teatro Rápido parece apostado em prosseguir. Num momento em que o acesso à cultura em Portugal é cada vez mais limitado, este projeto surge como uma lufada de ar fresco, não só pelo baixo preço, mas também pela ruptura com o preconceito generalizado de que “ir ao teatro é enfadonho”.  Em janeiro, a aposta de tema são as Promessas. Por que não visitar? Fica a iconoclasta sugestão de ano novo. Este teatro é rápido, mas não há que ter pressa.

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Fotografias por: António Veloso