Em época de balanços, é a vez de também o Espalha-Factos fazer a sua avaliação do ano cinematográfico. De entre os filmes estreados nas salas nacionais ao longo de 2012, os nossos redatores cinéfilos escolheram os melhores e assim se chegou a um Top 10.

São estes os dez melhores filmes do ano para o Espalha-Factos:

1. Moonrise Kingdom, de Wes Anderson

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Moonrise Kingdom é, sobretudo, a viagem que todos nós gostaríamos de ter feito e da qual nos esquecemos de que vamos sempre a tempo. Há quem tome banhos de água fria para ter ideias, já Wes Anderson aparenta banhar-se em mel.”, Tiago Mota

Moonrise Kingdom é a expressão e aperfeiçoamento de toda a estética típica de Wes Anderson. Tudo no filme é mais do que adorável, desde o jovem par protagonista até aos elementos escolhidos meticulosamente, como o guarda-roupa ou a banda sonora, que nos levam para um nível de fábula que só pode culminar em fascínio.”, Renata Curado

“Um universo paralelo onde os adultos tresandam a impotência e os miúdos estranhos conseguem ser mais normais que os adultos normais. Uma história de amor sem ser realmente amor, a síndrome estilizada do “you don’t know what love is, you just do as your told”, tornada aqui sã e indulgente pela credulidade ingénua que recebemos e damos ao filme, a quem e de quem o escreveu e realizou. Não é só fofo e bonitinho, é um filme virtuoso (com tudo o que o nome Wes Anderson traz a reboque), em completo controlo de si próprio, com mais profundidade e preocupação social do que aparenta. Uma obra-prima que se tornou intemporal assim que estreeou.”, João Biscaia

2. Tabu, de Miguel Gomes

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“A fase complementar do filme surge reconfortante na forma, nela pairando todavia uma permanente e inextricável aura de tragédia, um epílogo que se adivinha triste e nebuloso desde o início. Afinal de contas, qual fado português, ou não fosse este também um olhar sobre um tipo de sociedade que permanece marcante para o imaginário coletivo nacional e cujas feridas não fecharam ainda totalmente.”, João Gil Freitas

“A nostalgia de um amor proibido paira em Tabu, que prima pela beleza visual e originalidade que traz ao cinema. Recupera métodos que parecem estar a ser esquecidos e mostra como, nos dias de hoje, filmes assim também funcionam e muito bem.”, Inês Moreira Santos

“Com uma história cliché Miguel Gomes afirma-se como realizador de culto, com muita estética e personalidade. Desde exploradores comidos por crocodilos a bandas dos anos sessenta, o cineasta português mistura irreverência com genialidade criando assim uma obra-prima do cinema nacional.”, João Churro

3. Vergonha, de Steve McQueen

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Vergonha, de Steve McQueen, entrega-nos um retrato de uma vida problemática que tanto nos deslumbra como nos destrói emocionalmente. Michael Fassbender e a sua memorável prestação ajudaram muito neste efeito quase paradoxal que sentimos ao abandonar a sala de cinema.”Ricardo Rodrigues

“O desespero de um viciado em sexo filmado e interpretado de forma brilhante e sofrida. Longe do prazer, o que Fassbender nos transmite é desconforto e angústia, envoltos numa beleza visual inquietante oferecida por Steve McQueen.”, Inês Moreira Santos

“Um dos aspetos mais impressionantes de Vergonha é a complexidade que habita o filme e a dúvida constante que suscita, porque coloca mais interrogações e sugestões que conclusões. É um filme brilhante, que aborda a solidão e o vazio interior como nenhum outro, explorando a condição humana com uma melancolia exímia e um impacto avassalador, numa confusão de corpos e emoções. Uma película física, sem tabus, na qual Michael Fassbender revela uma das melhores performances deste ano…”, Simão Chambel

4. O Artista, de Michel Hazanavicius

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Michel Hazanavicius e o seu inspirado O Artista conseguem provar que por vezes o silêncio é ouro numa grande homenagem prestada ao cinema e à sua história. Uma verdadeira declaração de amor do realizador francês à Sétima Arte.”, Ricardo Rodrigues

O Artista invadiu as salas de cinema com o poder do passado: oferece ao público um filme mudo, carregado de beleza e brilho de épocas. Conseguido através de algumas palavras ao longo do filme, com o desempenho dos atores para contar a história das mudanças ocorridas no Cinema – a mudança do mudo para o sonoro. Uma obra de arte num tempo em que as reinvenções e fórmulas alojadas no passado invadem o quotidiano.”David Pimenta

Hazanavicius pega num período de mudança do cinema, do mudo para o sonoro, e constrói à volta dele uma história que tem muito de banal, mas que é bela, inteligente e bem-humorada. Com o preto e branco a fazer lembrar as grandes produções de outrora, O Artista torna-se quase um clássico aos nossos olhos, embora tenha muito de contemporâneo. E, como em todos os clássicos, a banda sonora substitui na perfeição o que as palavras não exprimem.”, Raquel Santos Silva

5. Temos de Falar sobre o Kevin, de Lynne Ramsay

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“O filme é de uma grandeza extraordinária especialmente pelas emoções fortes que provoca no espectador e pelo ambiente pesado que deixa em seu redor. Deixar-nos-á a pensar muito para além da sala de cinema, de onde sairemos, inevitavelmente arrebatados.”Inês Moreira Santos

Ezra Miller e o seu psicótico Kevin tornam-se numa das maiores surpresas de 2012, trazendo consigo um filme arrojado o suficiente para nos fazer suster a respiração do princípio ao fim e culminando, depois, num turbilhão de emoções que nos é difícil de conter. Simplesmente arrebatador.”, Ricardo Rodrigues

“Kevin é a representação do mal na sociedade, de uma planta com as raízes envenenadas pela maldade apesar de ter crescido no seio de uma família tradicional, com uma boa educação e com acesso ao que desejasse. Falar na essência da maldade humana resume Temos de Falar Sobre Kevin, de Lynne Ramsay. Com poucos diálogos e recurso a uma grande quantidade de analepses são plantados diversos pensamentos no espetador: Onde começa a maldade? Na infância, no choro de um bebé? Na adolescência? É genética? Conseguimos perdoar a maldade pura?”, David Pimenta

6. A Invenção de Hugo, de Martin Scorsese

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“Mais do que um filme, Hugo é uma aventura, uma verdadeira experiência cinematográfica para toda a família. Com uma fotografia belíssima e um verdadeiro uso do 3D, Scorsese oferece-nos uma visão sobre a história do cinema que homenageia Méliès e leva um jovem rapaz a viver um sonho. Não é disso que o cinema é feito?”, Raquel Santos Silva

“Desengane-se quem pense que Scorsese seria o mais improvável dos realizadores a liderar uma homenagem a Méliès. Com A Invenção de Hugo, Scorsese prova ser mais do que uma referência. Mais do que um «mestre», Scorsese passa a assumir-se como o mais consensual dos herdeiros do grande cinema de Hollywood, e como o principal divulgador em exercício da história do cinema.”, João Gil Freitas

“A preservação da herança cinematográfica está em cima da mesa em A Invenção de Hugo e, mais do que um alerta para todos nós, o filme quer fazer-nos lembrar e viajar (de comboio, porque não?) até aos primórdios da Sétima Arte. Com Hugo, vamos sonhar.”, Inês Moreira Santos

7. Procurem Abrigo, de Jeff Nichols

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“Bem feito, com um ritmo perfeito e o desempenho inexplicavelmente bom de Michael Shannon, tornam o filme completamente imperdível.”, João Churro

“Em Take Shelter, não é só a interpretação impecável de Michael Shannon que nos prende do início ao fim, é também o excelente aproveitamento do fator psicológico. O cenário apocalíptico afasta-se aqui do costume e deixa-nos fascinados com um filme que perdura na mente.”, Renata Curado

“Acima de tudo o resto, o medo comanda Procurem Abrigo, e não é apenas o medo do apocalipse que está em jogo, é o medo de si mesmo e do que o rodeia. As questões ficam em cima da mesa ao longo do filme: doença mental ou realidade? alucinações ou premonições? É impossível sentirmo-nos seguros ao acompanhar o dia-a-dia de Curtis, Jeff Nichols faz-nos sentir o mesmo que o protagonista, partilharemos dos seus medos. Coloca-nos nos seus sonhos, nas suas alucinações, ficaremos tão obcecados como ele.”, Inês Moreira Santos

8. Millennium 1 – Os Homens Que Odeiam as Mulheres, de David Fincher

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Os Homens Que Odeiam as Mulheres, o primeiro filme realizado por Fincher da trilogia Millennium, é um dos melhores filmes envoltos em mistérios deste ano. A carga violenta oferece igualmente um toque especial a esta obra e colocou muitos cérebros a pensar, num tempo em que o cinema fácil e leve tem o maior sucesso. O grande destaque vai para a Rooney Mara, a grande transformação em campo.”, David Pimenta

David Fincher chega novamente aos cinemas com uma sombria adaptação do já doente Os Homens que Odeiam as Mulheres de Stieg Larsson, tornando o já peculiar universo de Lisbeth Salander ainda mais retorcido e demente, para isto contribuindo a acutilante banda sonora de Reznor que nos deixa com uma sensação de claustrofobia e de receio do principio ao fim do filme. Como já diziam este foi o ‘the feel bad movie of Christmas’.”Ricardo Rodrigues

“Uma narrativa absolutamente envolvente desde o princípio até ao fim. Um thriller intrigante e sombrio, que vai desvendando lentamente um mistério sublimemente arquitetado e a violência incontrolável que habita o coração humano. Uma adaptação altamente cinemática ao primeiro livro da trilogia de Stieg Larsson, com o cunho pessoal de uma dos grandes realizadores desta geração.”, Simão Chambel

9. Amor, de Michael Haneke

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Amour é um filme surpreendente que examina a força do amor num momento assombrado pela morte. O realizador retrata a vida de um casal idoso parisiense, Anne e Georges, que enfrenta uma longa batalha contra o tempo. Ele consegue, com mestria, isolar os dois protagonistas no seu apartamento e o espectador torna-se parte integrante daquela relação intima encerrada entre quatro paredes. O apartamento é como um palco onde se constrói o passado, o presente e o potencial futuro das suas vidas.”, Sara Alves

Michael Haneke sabe como chegar ao nosso âmago. Amor é um retrato de uma vida a dois, de um amor capaz de salvar, que nos põe cara a cara com a dura realidade que fazemos por esquecer.”Inês Moreira Santos

“Um filme de autor realizado com excelência, que ao longo de duas horas vai criando uma atmosfera na qual ficamos presos sem sair do mesmo cenário. A ter ainda em conta o impressionante desempenho de Emmanuelle Riva.”, João Churro

10. O Cavaleiro das Trevas Renasce, de Christopher Nolan 

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“Um dos filmes mais antecipados do ano. Para uns valeu o dinheiro do bilhete, para outros ficou áquem do final épico que esperavam das mãos de Christopher NolanEmbora se perca na sua vontade de ser um épico, não deixamos de falar de um tipo de cinema alcançável a poucos. Monstruoso, impetuoso e portentoso, embora sem a densidade psicológica do filme anterior – o que faz todo o sentido, mal damos com os olhos no vilão do último filme da trilogia. Um bom fim (o fim possível?) e um óptimo filme.”, João Biscaia

“Apesar das mais evidentes falhas, O Cavaleiro das Trevas Renasce é um final digno de umas das grandes trilogias destes últimos anos, uma autêntica viagem emocional onde géneros se confundem para originarem algo verdadeiramente autêntico. Para todos os efeitos, este é um épico que muda completamente a forma de pensar o cinema, com todo o realismo que se pode imprimir na mais fictícia das narrativas, e comprova, mais uma vez, a mestria técnica de Christopher Nolan na realização.”, Simão Chambel

“Quando pensamos que já vimos tudo, Christopher Nolan volta a surpreender. Com uma certa previsibilidade no argumento, O Cavaleiro das Trevas Renasce não deixa de ser mais uma maravilhosa prova de que o entretenimento e o drama podem andar de mãos dadas, quando há uma grande história por trás e um grande realizador para a contar. Batman renasce e sentimo-nos renascer com ele ao longo do filme. E no final só sabemos que queríamos mais.”, Raquel Santos Silva

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