Há muitos em Portugal. Dezenas e dezenas de concursos literários que prometem fantásticos prémios pecuniários e até a publicação do original. Uma forma singular e bastante inteligente de passar a ideia de que, realmente, as editoras portuguesas estão empenhadas no fortalecimento da cultura e na descoberta de novas promessas do ramo literário. Mais uma vez, um embuste, uma trapaça. Nada mais que uma estratégia de marketing sem qualquer valor real para o sector literário. Nestes prémios, tudo é discutível, tudo é duvidoso. Atrevo-me mesmo a dizer que estes concursos, supostamente criados para captar novos talentos da escrita, são a condição mesma para que tais talentos não sejam encontrados. Senão vejamos, o que é um concurso literário? Em Portugal, os mais importantes são concursos abertos pelas editoras e contam com o objetivo de analisar um original de cada concorrente com o fim de premiar o melhor. Mas quem analisa? Com que critérios? Sobre isso nada é dito.

No fim, o prémio vai para o original que melhor encontrou o gosto pessoal do júri e não necessariamente o melhor a nível de qualidade. Certamente que o original vencedor também deverá coincidir com a orientação editorial da editora anfitriã… Em menos de nada há uma legião de escritores e de pseudoescritores que, engodados pela promessa de um prémio, orientam a sua escrita para a participação nestes concursos, pois a sua experiência informal diz-lhes que ser um vencedor de uma edição é a única forma de verem um livro seu publicado.

No fim, nada disto seria mau se estes prémios realmente distinguissem o mérito literário. Vejamos, por exemplo, o caso da LeYa: recentemente a editora fechou o seu concurso literário, o maior do país, distinguindo o vencedor com 100 mil euros e a publicação do seu original, Debaixo de Algum Céu. Ao que parece, Nuno Camarneiro, deverá ter sido o único a submeter um original com qualidade e mérito pois foi o único a ser publicado no seguimento deste concurso.

Não me venham dizer que a LeYa, ou outra qualquer editora, está extremamente preocupada com a cultura de qualidade, pois se assim fosse era impensável desperdiçar dezenas e dezenas de excelentes originais que imagino terem sido submetidos ao concurso. Que o vencedor tenha direito ao seu prémio pecuniário, não discuto, mas os outros que também escreveram textos com mérito deveriam ser captados e aproveitados para publicação. Invés disso, são congratulados com um e-mail de felicitação e terão de voltar a tentar para o próximo ano.

Isto só pode ser visto como sintoma de duas coisas: as editoras, como empresas que são, buscam o lucro antes da cultura; em Portugal, a escolha de um livro é determinada pela projeção mediática do escritor e não pela qualidade da sua escrita. Quando se fala de livros, a qualidade e o mérito literário têm muito pouco a dizer. Funciona tudo à base de reconhecimento mediático e é aqui que entram os concursos literários.

Em última análise, o único resultado destes concursos é mais um produto de mediatismo passível de ser utilizado pelas editoras no seu marketing. Como disse, a condição mesma para que a meritocracia literária não chegue e para que textos de bons autores fiquem na gaveta. Não me parece que seja este o caminho para abrir as portas dos mercados internacionais: Brasil, Angola, Moçambique, entre outros países emergentes que, depois das necessidades primárias, quererão satisfazer as necessidades da alma. Sem uma estratégia editorial credível e publicações de qualidade, será muito difícil entrar em novos mercados e completar a expansão de que esta área necessita para sobreviver a tanta crise.