Os Blaze & The Stars são um dos mais recentes projetos de música portuguesa. A banda de Fernando Ramalho (voz e guitarra), Gonçalo Zagalo (baixo, guitarra e programações) e João Zagalo (guitarra e baixo), disponibilizou o álbum homónimo no bandcamp. O coletivo sediado em Lisboa estreou-se este mês ao vivo, na Caixa Económica Operária, a abrir para o concerto dos britânicos The Underground Youth e amanhã toca no Bacalhoeiro. A esse propósito o Espalha-Factos trocou alguns e-mails com Fernando Ramalhofrontman da banda e que já trabalhou com outros projetos, como Sebenta.

É essencialmente composto por temas originais e inclui duas versões: Lungs, de Townes Van Zandt, e Pray them bar away de Lee Hazlewood. As letras são baseadas em textos e poemas de autores como Emily Dickinson, Raoul Vaneigen, Miguel Cardoso, Allen Ginsberg ou e.e. cummings. Os Blaze & The Stars respiram o universo rock e blues, sustentado por batidas eletrónicas e baixos minimalistas. E para quem se questiona se já ouviu este nome antes, trata-se de uma referência à icónica stripper, performer e estrela do burlesco americano Blaze Starr.

Espalha Factos – Como surgiu o projeto Blaze & The Stars?

Fernando Ramalho – O projeto teve início por minha iniciativa, no verão de 2012, e o primeiro álbum ficou pronto e disponível em formato digital no início de outubro. Mais ou menos por essa altura, surgiu também um convite para musicar um vídeo de José Costa Barbosa sobre a obra do artista plástico Rui A. Pereira.

EF – Participaste noutros projetos de música portuguesa, mas agora dedicaste-te a um trabalho mais solitário. Como foi essa experiência?

FR – Depois de vários anos a tocar num contexto de banda, a circunstância de trabalhar sozinho foi uma experiência completamente nova, desde logo por ter de cantar, coisa que nunca tinha acontecido antes, mas também por ter de tomar decisões em todos os aspetos da produção das canções. Daí que tenha surgido rapidamente a necessidade de alargar o projeto, até para ser possível transpô-lo para concerto e para criar melhores condições para a sua continuidade. E o resultado desse alargamento tem sido ótimo: as canções ganharam uma outra consistência e as potencialidades para o que se venha a fazer no futuro são também muito maiores.

EF – E o que é que virá a ser feito no futuro? Por exemplo lançar um disco em formato físico?

FR – Na verdade, não há grandes planos. A ideia, para já, é ir tocando ao vivo sempre que possível e ir compondo mais canções. A edição em disco não é uma prioridade, até porque hoje há inúmeras formas e ferramentas de promoção além dessa. Inicialmente, definiu-se a possibilidade de uma edição própria a partir de eventuais receitas da venda do álbum em formato digital; essa ideia mantém-se, mas não é uma coisa de que nos ocupemos demasiado.

EF – E agora um cliché (e preparem-se pois vão ter de responder a isto muitas vezes): quais são as vossas principais influências?

FR – É difícil elencar um conjunto de bandas ou artistas que limitem as nossas influências ou o tipo de som que fazemos. As nossas influências passam por tudo aquilo que ouvimos, lemos, pela nossa vivência quotidiana, etc. A ideia, desde o início, não foi delimitar um tipo de som ou um género mas, pelo contrário, trabalhar numa lógica de mistura de várias sonoridades. Creio, aliás, que o melhor que tem surgido na música nos últimos anos passa justamente por esse rompimento de fronteiras entre os diversos géneros musicais. E penso que essa rutura se deve, por um lado, à implosão da indústria musical tradicional e, por outro, ao acesso generalizado, sobretudo através da Internet, a toda a música que se vai fazendo ou que se fez no passado.

EF – Mas como caraterizarias a vossa sonoridade?

FR – Dito isto, penso que há dois ou três aspetos que caracterizam o método que foi usado para construir as canções: base eletrónica, assente em loops de bateria e linhas de baixo minimais; riffs de guitarra simples que dão textura às canções; a voz encarada mais como um elemento sonoro adicional, e não tanto reproduzindo o habitual dualismo entre música e letra ou instrumental e voz; letras resgatadas de poemas e textos de diversos autores, procurando dar-lhes uma nova vida e até, eventualmente, novos significados. Em resumo e em traços gerais, diria que é uma espécie de aliança entre a velha tradição dos blues e do rock e um imaginário pós-industrial caótico e imprevisível.

EF – São esses os géneros que andam a ouvir?

FR – A forma de ouvir música mudou muito nos últimos anos. Felizmente, hoje é possível ouvir tudo, quer o que vai surgindo de novo quer o que se vai descobrindo do que foi sendo feito nos últimos 50 ou 60 anos. Claro que há sempre coisas de que gostamos mais ou menos, mas penso que hoje é mais difícil do que há uns anos atrás encontrar quem se detenha a ouvir um só género musical ou uma só banda. Há sempre uma imensidão de coisas novas a ir descobrindo, e as identidades formadas pelo gosto a que estávamos habituados foram-se diluindo. De qualquer forma, posso dizer que no momento em que o álbum foi feito, nos favoritos do meu leitor havia coisas como Link Wray, Suicide, Lydia Lunch, Rowland S. Howard, HTRK, Dirty Beaches ou Daughn Gibson.

EF – Referiste já que ao vivo as músicas ganharam outra forma. Como foi a experiência de dar um concerto pela primeira vez, na Caixa Económica Operária (CEO)?

FR – A experiência do concerto da CEO foi ótima. Foi uma oportunidade muito feliz, até porque o convite surgiu imediatamente a seguir a termos colocado o álbum online. Serviu sobretudo para testarmos as canções ao vivo, para vermos como as pessoas reagiam e para percebermos que tipo de alterações e melhoramentos é necessário fazer para que o som resulte o melhor possível ao vivo. E ficámos muito satisfeitos com o resultado.

Os Blaze & The Stars tocam amanhã no Bacalhoeiro, depois das 22h30. De seguida A Boy Named Sue dá-nos música para dançar.