Quero começar esta minha colaboração aqui no Espalha-Factos com uma declaração de intenções a fim de esclarecer o leitor sobre o que pode esperar dos meus textos, das minhas crónicas, das minhas opiniões: vou escrever sobre livros!

A razão por que o faço na secção de opinião é simples: em Portugal opina-se muito pouco sobre o mundo do livro. É engraçado como se escreve tão pouco sobre as editoras, como se fazem tão poucas entrevistas aos autores e como a crítica literária não tem lugar nos meios de comunicação tradicionais mas, mais engraçado ainda, é a falta de opinião crítica e investigação credível sobre todo o envolvente deste sector.

Em Portugal sabe-se muito pouco sobre o mercado editorial, aliás, peço ao leitor o favor de nomear um, apenas um, editor que conheça. Pois, não sabe, não é? Quem será essa gente que se senta nos escritórios das grandes editoras portuguesas? Quem será essa gente com capacidades administrativas fantásticas e conhecimentos extremamente consolidados na arte de criar grandes empresas e de as fundir em organismos ainda maiores mas que sobre cultura aparenta saber tão pouco? Quem será essa gente que recusa diariamente (e de forma tão delicada…) a edição a milhares de jovens autores, negando-lhes o sonho de publicar um livro e seguir carreira no mundo da escrita, e aceita com tão grande entusiasmo e sem qualquer critério de qualidade os trabalhos de figuras públicas? Por que razão o editor não tem um papel de destaque no mundo da cultura?

Eu digo-vos porquê: Portugal tem um sector editorial e livreiro extremamente sigiloso. Ao que parece, os senhores das grandes editoras ainda acham que o segredo é a alma do negócio. Pense-se sobre a última vez que foram tornadas públicas estatísticas de vendas (sem ser o triste top 10, a melhor ferramenta de marketing para o público português…), sobre a última vez que se fez uma reportagem ao interior de alguma sede de editora, sobre a última vez que um editor teve uma crónica num jornal ou revista… É triste.

É triste que ainda se pense que este tipo de abordagem possa ser criadora de qualquer coisa. Apenas dificulta quem, como eu, quer escrever sobre o assunto. Apenas dificulta quem, como eu, quer empreender nesta área. Apenas dificulta quem, como eu, quer saber quem vai decidir se publica o seu manuscrito ou não. Invés de puxarem pela cultura, estas editoras e os profissionais que as dirigem estão apenas a contribuir para mistificar o livro e a desincentivar a leitura. Afinal de contas, ninguém gosta do que não conhece, nem aposta no que desconfia.

Aqui tentarei desmistificar o mercado editorial, perceber as suas tendências e forças profundas, analisar os erros e louvar os sucessos. Não pretendo dar respostas, isso não compete à minha função de cronista. Pretendo apenas identificar os problemas e as fragilidades do sistema para que finalmente se comece a criar alguma massa crítica em torno do livro.